Um dia completamente incomum para a rotina de Arsène Wenger

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Altos e baixos: quase 22 anos de uma relação de muito amor e muito ódio


Ele acorda e se levanta. Com toda sua classe, se arruma. Se olha no espelho e enxerga, além do seu cabelo branco, toda a pressão que está sob suas costas. No corredor de sua casa devem existir quadros que lembram os bons momentos. Ele passa e os encara.


Sabe que nada voltará a ser como antes.


Há alguns anos, ele vem pensando em tomar uma decisão. A ideia tem amadurecido em sua cabeça com o tempo. Não é nada fácil. Na verdade, é impossível conviver com ela.


Para ele, seu trabalho é tudo. Tudo e mais um pouco. Possui a responsabilidade de dirigir uma das principais entidades de Londres. No mundo, todos o conhecem. Na área, ele é o cara.


Acontece que manter-se no cargo não tem sido uma tarefa simples. Muitos não o querem mais lá. Muitos mesmo. As coisas não funcionam mais como deveriam. Tudo ficou mais difícil.


Em 2015, Annie Brosterhous - sua ex-esposa com quem tem uma filha de 20 anos - abandonou o casamento. Ele não tinha tempo para a família, reclamou na época. Se não estava em casa, estava no trabalho. Se estava, estudava para o próximo jogo da equipe. Havia tornado-se um homem que tinha o Arsenal como o seu ar de respirar.


Sua vida social, talvez, seja um mero detalhe. "Você pode me mostrar Londres?", eu digo: "compre um bom guia e faça você mesmo", responde em entrevista descontraída com Glenn Moore, do Independent, em 2008, relembrada pelo veículo nesta sexta-feira.


"Eu sinto que se você entrar em um clube como manager, você tem que primeiro descobrir suas qualidades específicas. Para mim, o Arsenal é um clube que tenta respeitar a tradição, o estilo, a honestidade, o fair play. Se você entrar e se comportar como um gangster, não durará muito", complementa.


Seus valores fiéis vêm de família. Todo o seu caráter foi moldado por seus pais, Alphonse e Louise, que administravam um albergue na aldeia de Duttlenheim, na Alsácia, leste da França. Sua educação foi toda em um colégio católico. Arsène aprendeu, desde jovem, a importância de gerir e tratar um negócio como parte de si.


Ao chegar em London Colney, viu no Arsenal o cenário ideal para instalar seus pensamentos. Se jogou de cabeça no projeto a ponto de deixar todo o resto de lado. Até mesmo sua própria pessoa.




Para alguém como ele, ter que dar adeus não é simples.


Então, o dia 20 de abril de 2018 amanheceu diferente para Wenger. Chegara a hora de decidir. O trajeto de sua casa, em Totteridge, até London Colney, seria anormal. Será que passava pela sua cabeça este momento? Como seria chegar e saber que daqui uns meses não o fará mais?


Como ele encara o fato de deixar tudo para trás e entregar nas mãos de outros?


Arsène tratou o Arsenal com todo carinho do mundo. Deu amor até o último minuto. Amor até demais. Aquele amor que, em certo momento, sufoca. O sentimento cega e não se sabe mais o ponto de parar.


Continuar estava acabando com o clube, com a torcida, com ele mesmo. Os valores aprendidos durante sua infância estavam sendo violados. Mas ele ama demais o clube para perceber.


Então, alguém precisa intervir. Poderia ser menos triste, é verdade. A decisão de encerrar o vínculo poderia ser mais respeitosa com o senhor que tanto nos deu carinho. Mas, as coisas têm sido difíceis demais. As partes já não se entendem.


Chegou a hora de dar adeus.


Após quase 22 anos, a história de Wenger com o Arsenal chegará ao fim. Para o bem de todos.