Atlético de Madrid, o estraga-prazeres do estádio José Alvalade

Era para ser basicamente uma formalidade. Entrar em campo, deixar o tempo passar e sair classificado. A vantagem de dois gols de diferença sobre o Sporting era confortável, mas diante da incrível remontada da Roma sobre a Barcelona e da quase reviravolta da Juventus sobre o Real Madrid, claro que toda cautela era pouca. A semana parecia amaldiçoada para os times que carregavam boas vantagens para os jogos de volta. 


Pois não é que a loucura realmente atingiu a Europa League, com viradas sensacionais de Red Bull Salzburg e Olympique de Marselha sobre Lazio e RB Leipzig, respectivamente. O Atlético, por sua vez, até perdeu o 100% de aproveitamento e a invencibilidade na competição, mas escapou do fantasma do vexame, garantindo-se nas semifinais da Europa League pela terceira vez em quatro participações nos últimos oito anos.


De qualquer forma, é impossível não sair com uma pulga atrás da orelha pela fraca atuação, com pouco volume de jogo, raras chances de gol e grandes defesas de Jan Oblak (pra variar.) Deu a impressão de que fosse um adversário mais forte como o Arsenal, a coisa poderia ter sido bem pior. Serve de alerta para a próxima fase, venha quem vier. 


E olha que o artilheiro do Sporting, o holandês Bas Dost, nem pôde jogar por causa de suspensão pelo terceiro cartão amarelo. Com 27 gols nesta temporada e 66 gols nos últimos dois anos, Dost poderia ter mudado o rumo do confronto caso estivesse em campo.


Para piorar ainda mais, o Sporting veio de uma semana pra lá de turbulenta, na qual o presidente do clube, Bruno Carvalho, havia atacado publicamente o desempenho de vários jogadores da equipe e suspendido quase o plantel inteiro depois de reclamações pelas críticas. Após a negativa repercussão internacional, o mandatário obviamente voltou atrás, mas a relação entre diretoria e elenco certamente continuou arranhada.


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Antoine Griezmann perdeu uma das poucas chances claras de gol do Atlético de Madrid, frente a frente com o goleiro da seleção portuguesa, Rui Patrício


A última visita do Atlético de Madrid ao estádio José Alvalade havia acontecido em março de 2010, pela então Copa da UEFA. Na ocasião, empate por 2 a 2 que traz boas lembranças ao torcedor colchonero, não só porque o Atlético avançou pelo critério de desempate dos gols fora de casa - após ter empatado por 0 a 0 no antigo estádio Vicente Calderón - mas também pelo fato de meses depois a equipe ter conquistado o título da competição. 


À época, Liédson era a grande estrela do Sporting, havia acabado de entrar na lista dos 10 maiores artilheiros da história do clube. Ao todo, durante passagem que durou entre 2003 e 2011, o Levezinho - como ficou conhecido no futebol português - marcou 172 gols em 313 jogos. Mas naquela oportunidade, o Atlético impediu voos maiores de Liédson com a camisa da equipe lisboeta. 


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Liédson marcou o segundo gol da partida contra o Atlético de Madrid do goleiro David de Gea, mas não evitou a eliminação do Sporting na Copa da UEFA, em 2010


Como o histórico de jogos entre Atlético de Madrid e Sporting não é tão grande, é necessário voltar à primeira metade do século passado para encontrar outro duelo entre as duas equipes. Há quase 70 anos, no dia 5 de outubro de 1949, Atlético de Madrid e Sporting estiveram envolvidos na partida de despedida do atacante Fernando Peyroteo, maior artilheiro da história do clube português, realizada no próprio estádio José Alvalade. 


À época, os colchoneros contavam com um trio ofensivo de respeito, que ajudou o clube a conquistar o bicampeonato espanhol entre 1949 e 1951: o meia dinamarquês Borge Mathiesen e os atacantes Henry Carlsson e José Juncosa, o primeiro sueco e o segundo espanhol.


Já o Sporting vinha de cinco conquistas nacionais nos anos 40, uma década de ouro muito graças a Peyroteo, grande ídolo que jamais defendeu outra equipe em sua carreira que não fosse o Sporting. 


Mais do que somente um exemplo de amor à camisa, Peyroteo acumula marcas impressionantes que perduram intocáveis até hoje. É o maior goleador da história do futebol português, com 540 gols em 332 jogos. Terminou todas as 12 temporadas que atuou com mais gols do que jogos oficiais realizados. Além disso, detém a melhor média mundial de gols (1,6) em jogos de ligas nacionais, com um total de 309 golos em 189 jogos. 


E os recordes não param por aí! Peyroteo é o único jogador da história do futebol europeu a marcar 9 gols em um jogo só. Mais do que isso, chegou a marcar um total de 16 gols em apenas 3 rodadas de campeonato, outro recorde europeu que permanece imbatível há 80 anos. Nem mesmo grandes conterrâneos de Peyroteo como Eusébio e Cristiano Ronaldo, foram capazes de alcançá-lo. Não é para menos! 


Pois não é que o Atlético fez 3 a 2 e estragou a festa portuguesa de Fernando Peyroteo nos braços de sua torcida. Bem, como você pode ver, não é de hoje que o Sporting sofre nas mãos do Atlético de Madrid dentro do estádio José Alvalade. Foram três vezes, uma para cada grande artilheiro de épocas diferentes do clube português: Bas Dost, Liédson e Fernando Peyroteo.