Para voltar ao topo, Galo precisa resgatar 5 práticas fundamentais

Têm sido dias de observação, os meus em relação ao Atlético. Cacoete de neopesquisador, medo de falar mais bobagem, expectativas no porvir, crença de que algo sobrenatural aconteça e me queime a língua... Não sei os reais motivos da minha inércia ante o computador e o publicador do blog, mas tenho me reservado ao direito de contemplar.


Ora me surpreendo com uma iniciativa das mais tocantes: de repente, como num passe de Ronaldinho – ou seja, de mágica –, vejo uma mudança de 180˚ no posicionamento institucional do Galo perante causas sociais tão importantes quanto delicadas. Na semana do dia 8/março, o Atlético lançou uma inesperada campanha em favor ao combate à violência contra a mulher. Coisa linda, emocionante, com direito à presença da Maria da Penha no estádio em dia de clássico e aos posts, em suas páginas das redes sociais, de feministas icônicas, grandes mulheres que marcaram história na luta por um mundo equânime.


Bruno Cantini/ Atlético
Bruno Cantini/ Atlético


Para quem já viu diretores alvinegros desconstruindo a imagem de mulheres e coletivos indignados com as campanhas notadamente machistas do clube num passado muito recente, claro que causou estranheza num primeiro momento. Depois, e porque acredito que pessoas evoluam – eu mesmo mudei, significativamente –, abaixei a guarda e permiti que a mensagem falasse ao meu coração sem reservas. Desculpei-os pelas ondas de ataque incentivadas pelos cartolas e aspones que presenciei. Tornava-se, então, coisa do passado.




Elen Campos no Estado de Minas: Atleticana é incansável. Eu sou


Mas, se no campo sócio-institucional o Galo tem vencido de goleada, tem sido um constante 9 a 2 para os rivais nos bastidores da bola. Alexandre Gallo, diretor e quem dá a última palavra no futebol alvinegro, vem fazendo um trabalho que, em nada, se assemelha às boas práticas que nos levaram à sequência de conquistas dos anos anteriores.


Bruno Cantini/ Atlético
Bruno Cantini/ Atlético


Sette Câmara diz que futebol, no Galo, quem trata é o Gallo.


Acho que o problema começa exatamente aí: em quem se senta com empresário e jogador para tratar das coisas. Não me esqueço nunca das palavras do R10 em relação ao Kalil (até porque, quando eu esqueço, a internet me lembra): “Ele me olhou e disse: ‘sei que tu tá com sangue no olho de novo, que tu quer jogar de novo. Pode vir que no meu clube eu tenho estrutura para (fazer) você voltar à Seleção.’ Eu falei: o cara entendeu o que eu quero.” Outro exemplo recente foi dado por Nepomuceno, que se encarregou pessoalmente de convencer Lucas Pratto a escolher o Atlético em detrimento de outros interessados.


Nesse processo de montagem do time e da negociação das bases, ou levamos chapéu ou levamos caneta. Fora os gols-contra.


Chapéu já foram dois à luz do dia, sem contar os que não soubemos: Gustavo Scarpa e Rithely foram dois que estiveram próximo da Cidade do Galo, mas que acabaram assinando com outras equipes. Voltamos a 2008 e a era Gallardo. Isso para ficar no âmbito dos atletas. E quanto aos técnicos, após a saída do Oswaldo de Oliveira, quantos nos disseram ‘não’?


As canetas: os recém-chegados e titulares, Erik e Róger Guedes, vieram por empréstimo e sem os valores do passe fixados. Se eles derem conta do recado e quisermos mantê-los – afinal, time competitivo é aquele que mantém uma sequência de temporadas –, sentaremos na mesa de negociação absolutamente fragilizados.


Gols-contra: a lateral direita está órfã desde a saída do Marcos Rocha. Quem, em sã consciência, abriria mão do melhor atleta do Brasil na posição? ‘Ah, mas o Rocha queria sair...’, dizem. Se é verdade, a pergunta que fica é: por quê? Era mesmo irreversível? Porque o tamanho do estrago está aí. Samuel Xavier ou Patrik dão conta do recado?


Uma derrota para o Cruzeiro, ainda mais no Independência, era coisa impensável até bem pouco tempo. Uma distância de 10 pontos para o time azul numa edição do regional, então, nem em 2005 (7 pontos), ano desastroso.


Bruno Cantini/ Atlético
Bruno Cantini/ Atlético


Uma mudança de postura precisa acontecer e tem de ser agora. Não advogo a demissão ou renúncia de ninguém, ainda, porque poderiam mudar as pessoas, mas o problema continuaria. Proponho essa reflexão, observar 5 boas práticas que nos recolocaram na prateleira de cima do esporte Latino-americano:


1. Presidente que assume a dianteira das negociações.
2. Diretor de futebol que blinda vestiário e gerencia conflitos.
3. Presidente e diretor que monitoram o mercado e negociam sem alarde, com bases seguras e vantajosas pro clube.
4. Montagem de elenco com criatividade, conhecimento de causa, mesclando promessas e experiência.
5. Busca de lideranças positivas em todos os setores, do vestiário às posições dentro de campo. Um técnico na posição de interino inspira confiança? Temos Victor no gol e Léo Silva na zaga. Quem mais? Ricardo Oliveira no ataque? Pode ser... E no meio-campo? Entre 2012 e 2016, os nomes e exemplos em campo inspiravam companheiros e torcida. Precisamos de mais líderes!


É agora ou nunca! Precisamos ver, na gestão do futebol, a mesma mudança de postura que a instituição Atlético vive nas questões sociais, tomando as rédeas e conduzindo o clube para o caminho certo. É possível! Tomara, não tão demorado.