Volte ou vá embora de cabeça erguida, Ronaldinho

Você deve ter visto, saiu em todos os lugares. O Messi, campeão de tudo com o Barcelona, está sendo hostilizado pelo torcedor. E imagino que você pensou o mesmo que eu: se até lá a torcida é ingrata, imagine aqui, no país da Copa.


Na verdade não precisa imaginar muito. Apesar da blindagem, você já deve ter percebido que a cada dia aumenta o coro dos insatisfeitos com seu futebol. Os dias vão passando, as semanas, os meses. E a essa altura já já faz um ano desde sua última grande partida pelo Galo. Pois é. Não tem um ano que você foi glorioso de novo, Ronaldinho. O mundo todo viu.


Sou do tipo que se esforça para dar valor ao que tenho. Sou atual campeã da Libertadores e passei fácil pela primeira fase da competição em 2014. Sou feliz e sei. Reconheço que não estamos tão mal e não há razão para crise. Mas acontece que...


...Acontece que no fim de semana, contra o Corinthians, caiu a ficha. Você não está mais no Galo, Ronaldinho. Desde que se machucou, no ano passado, você saiu e não voltou mais. Fez uma visita ao Marrocos para garantir nosso honroso terceiro lugar no Mundial e depois voltou para o seu mundo. Arrumou os dentes, pousou com popozudas, gravou pagodes e posou de popstar. Tenho de confessar que toda vez que vejo você descendo do ônibus para um jogo do Galo, principalmente na Libertadores, lembro do Michael Jackson. Seu tipo físico, os óculos escuros, os seguranças e as máquinas disparando flashes.


Você vive naquele limite surreal entre o homem e o mito. E viver isso não deve ser nada fácil. Muito menos no futebol, em que as jogadas raramente acontecem conforme são ensaiadas. Onde nem todos são bailarinos, onde há opositores que sonham em te derrotar para ostentar o feito para todo o sempre. E, principalmente, onde há uma torcida apaixonada demais, que esperou muito tempo para chegar aonde chegou e usará de todas as armas para permanecer ali. Inclusive cornetas. Nesse domingo me vi entre eles.


Com aqueles seus toquinhos de lado no jogo contra o Corinthians, Ronaldinho, pela primeira vez eu desejei que você fosse tirado de campo. Não achei justo que saíssem o Guilherme e o Fernandinho, que apareceram mais, pediram mais a bola, tentaram mais jogadas de ataque. Achei até que o Autuori deu um péssimo recado para o grupo: o de que você joga em qualquer circunstância. O de que você joga com o seu nome.


E é por ter pensando tamanha insanidade que ouso pedir, Ronaldinho: se já alcançou tudo o que você queria na vida, você tem todo o direito e nossa compreensão, mas saia do time. Arrume um jeito de desfazer o contrato, quem sabe uma lesão providencial, mas não jogue mais da forma como você jogou no domingo, como se fosse reserva de um jogador comum. Saia do time e entre para nossa história de cabeça erguida. E já que "ali era Corinthians", vale a lembrança: começou "inho", termine "inho". Não vá virar um Ronaldo na vida, ídolo de ninguém.


Agora, se decidir que ainda não chegou a hora, se ainda tiver a fim de jogar seu futebol, #TamoJunto. Mata justo, dá de chapéu, entorta o zagueiro, cobra rasteirinho, lança em profundidade, mira o ângulo, beba água, toca pro Jô, parte pro peito-com-peito e faz delirar a Massa. Palco não te falta. É fazer a diferença de novo na Libertadores, jogar muito no Brasileirão e mandar um beijinho no ombro pra selecinha.


A decisão é sua, vossa genialidade. Ou se dê por satisfeito ou vai lá e dá uma sambadinha na cara na sociedade, bate na veia e solta de novo aquele versinho amigo: "Aqui é Galo, porra!". E mostra que ainda tá valendo.


Daniel Teobaldo
Daniel Teobaldo

Ronaldinho sambando na cara da sociedade futebolística no Galo de 2013.