Nota de repúdio: machismo em evento do Galo

Nós, atleticanas, viemos nos posicionar contra a maneira como o Clube Atlético Mineiro tem se mostrado excludente com as mulheres torcedoras – e consumidoras – de futebol, além de passivo em relação às atitudes machistas dentro e fora do estádio.


Entendemos que esta postura não tem sido condizente com o discurso de “verdadeiro time do povo”, aquele que jamais diminuiu e que, ao contrário, costuma valorizar as diferentes vozes que mantêm o Atlético sendo a grande instituição agregadora que é. Sendo assim, não podemos tolerar ações como o lamentável episódio do lançamento das Camisas da Coleção 2016, em parceria com a DryWorld, em que modelos femininas foram expostas de maneira objetificada, vestindo trajes de banho e lingeries, de maneira apelativa, em um evento de finalidade esportiva. Não podemos aceitar que a imagem feminina seja tratada como peça de enfeite de estádio, encomendadas para agradar o público masculino - que, há muito, deixou de ser único protagonista no universo do futebol.


Não vivemos em um mundo justo. Enquanto homens podem sacar suas camisetas à vontade e rodopiá-las no ar, nós muitas vezes precisamos evitar ir ao estádio com o corpo mais exposto. Sabemos que, se o fizermos, corremos riscos de sofrer agressões morais e físicas, consequências do violento mundo machista que instituições como o Clube Atlético Mineiro, com seu aval e passividade em casos como o do lançamento de seus uniformes, acaba por ajudar a propagar. É por isso que lamentamos profundamente a forma como as modelos, mulheres como nós, e crianças, foram desnecessariamente expostas em uma ação que teve caráter sexual, ainda que com o triste consentimento das mesmas. O fato é que ali elas representavam todas nós.


Bruno Cantini/Atlético
Bruno Cantini/Atlético

Modelos masculinos vestidos e femininos expostos: tratamento desigual. 


Além disso, como consumidoras, passamos por situações que não são comuns a homens: a Loja do Galo nunca está suficientemente preparada para nos atender. Não há estoque e não há variedade de produtos. As mulheres, como consumidoras, sentem-se muitas vezes ignoradas pela diretoria do Atlético que, ironicamente, tem uma mulher em um dos cargos mais importantes da diretoria.


E não há motivos, muito menos econômicos. Tais como fiéis de uma igreja, pagamos o dízimo - fazemos parte do programa de sócio-torcedor, consumimos produtos licenciados, pagamos o pay per view e frequentamos os estádios sem necessariamente, pasmem!, estar acompanhadas de homens. Reiteramos que não existem razões para recebermos do clube qualquer tipo de tratamento diferenciado, ofensivo ou constrangedor por sermos o que somos: mulheres.


Por fim, vimos declarar que não passaremos mais por constrangimentos como este de forma silenciosa. Não somos poucas, vamos juntas, e exigimos que haja mais respeito por parte do Clube, da mesma forma que nos dedicamos a fazer parte dele e nos consideramos representantes do Atlético em nossos círculos sociais.


Esperamos da instituição o reconhecimento do erro, um pedido de desculpas e um compromisso de que ações como a de hoje não serão repetidas. Sugerimos a inclusão de mais mulheres nos departamentos do Clube e maior representatividade na tomada de decisões, para evitar que ações machistas sejam divulgadas como positivas.


Somos Galo, mas somos, sobretudo, contra o #machismonofutebol.


Texto escrito em conjunto por:


Alice Quintão Soares
Roberta de Oliveira
Nina Campos
Flávia Costa
Maysa Souza
Renata Mello
Renata Reis
Marina Rebelo
Joanna Rodrigues
Nívea Marco
Luara Ramos
Gabriela Machado
Raquel Etrusco
Mariana Pires
Livia Barbosa
Aurélia Neves
Maíra Carvalho
Elen Campos
Fernanda Campos
Flávia Ellen
Adriana Valadares