Boa 0x0 Atlético: placar em Blanco, começamos do zero

A espera foi longa! Já faz muito tempo que não posto no Galo de Ouro. Além disso, Florida Cup à parte, deu para sentir saudade dos jogos do Atlético, não? Mesmo com um intervalo menor entre o fim da última temporada e o início da atual, certamente não eram poucos os que se preparavam para os primeiros "testes" com o renovado grupo alvinegro para 2018. Novas também são as expectativas e avaliações sobre o elenco, que, ao que o jogo de abertura e a pré-temporada puderam sinalizar, vai se remontar - em modelo de jogo e formas de competitividade - quase que do zero.


Também zero foi o número que protagonizou o placar da primeira partida oficial do Galo neste ano. A julgar apenas o resultado, nada de interessante ou animador. Olhando para o que foi a partida no todo, também não dá para se deslumbrar com nada. Ainda assim, tudo tem seus pontos importantes e o empate sem gols em Varginha não é diferente. A decepção de 2017 trouxe a consequência imaginada e necessária para a página seguinte da história: o Atlético busca se reformular e encontrar uma nova forma de competir em alto nível durante 2018, e isso não deixa de ser algo sensato.


Bruno Cantini/Atlético Mineiro
Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Oswaldo de Oliveira terá bastante trabalho nas próximas semanas...


Antes de falar sobre o jogo, é necessário colocar algumas ressalvas - importantes para observar agora e para os próximos compromissos do mês:


1. A equipe que foi para campo enfrentar o Boa não é a titular, bem como os atletas que disputaram a Florida Cup, torneio de pré-temporada que o Galo disputou nos últimos dias, também não são os primeiros na lista de Oswaldo de Oliveira.


2. Dentre os 13 - coincidência esse número - atletas que participaram do jogo de Varginha, sete não haviam trabalhado com o atual treinador nesta passagem pelo Galo, seja pelo fato de estarem em outros clubes no ano passado ou por ainda estarem nas categorias de base naquela época.


3. O Atlético começou os treinos há menos de duas semanas e fez amistosos com uma equipe completamente alternativa e muito diferente da que atuou na estreia do Mineiro. Ou seja, zero entrosamento e muitas coisas a se observar em um curtíssimo intervalo de tempo. A chance de um padrão de jogo assim é nula.


4. O elenco está muito repaginado em relação ao do ano passado. O que deu certo em 2017 dificilmente terá o mesmo efeito - imediatamente - no grupo que é montado em 2018.


Por essas e outras, vamos com calma. E, agora sim, podemos falar sobre o jogo.


A estreia do Mineiro estava montada para cortar os ânimos de qualquer torcedor mais animado. Em todo o jogo, poucos foram os momentos em que a rede de qualquer um dos goleiros ameaçasse balançar. Além disso, os mandantes não se mostraram dispostos a acertar a meta adversária a todo o tempo. Pelo contrário, o time do Boa, em muitos momentos, esperou o Atlético produzir algum jogo para reagir. O problema é que a produção também não fluiu. E assim vimos boa parte da partida ter pouca produtividade.


Quem viu a escalação não encontrou quase nada parecido com que foi visto nas rodadas finais do ano passado. Se Marcos Rocha, Rafael Moura, Robinho e Fred partiram em busca de novos rumos, outros jogadores mais conhecidos, como os estrangeiros Otero e Cazares, o experiente Leonardo Silva ou os assíduos Fábio Santos, Elias e Gabriel nem sequer foram relacionados para a partida. O mais próximo do habitual foi a escalação de Victor para defender a meta e Valdívia, agora escalado como o meia central da equipe, e não nas beiradas do campo como no Brasileiro passado.


Estava claro que era mais um teste do treinador para "conhecer" a nova equipe. O tempo de preparação foi muito curto e faltam muitos ajustes. No 4-2-3-1 habitual, vimos Erik estrear pela esquerda e ser bem mais participativo na recomposição do lateral-esquerdo Danilo Barcelos - que não é tão lateral assim, especialmente nos aspectos defensivos - do que na parte ofensiva. Na direita, Hyuri teve alguns bons momentos ao auxiliar os ataques atleticanos. A melhor chance da primeira etapa veio em uma ajeitada do velocista para Blanco chegar batendo, inclusive. Na frente, Carlos deu um pouco mais de mobilidade e tentativa de investidas velozes para a equipe, mas parou por aí. Ele teve uma boa chance também, mas parou nas mãos do goleiro adversário. Na etapa final, ainda deu para Pablo - jogador de maior destaque pelo Galo na pré-temporada nos EUA - e Marco Túlio mudarem o panorama do sistema ofensivo e serem mais determinantes na hora de buscar o gol, especialmente o recém-promovido das categorias de base ao profissional. Jogou poucos minutos, mas foi o suficiente para quase marcar um gol e provar que tem qualidades para somar ao jogo coletivo.


Bruno Cantini/Atlético Mineiro
Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Carlos lutou bastante em campo, mas encontrou muitas dificuldades em fazer o ataque render e gerar um gol para o Atlético


E, com detalhes tímidos, foi formado o primeiro trio de ataque alvinegro na temporada. Junto a eles, Valdívia teve muita dificuldade na função de "10", especialmente por não ser um armador de ofício. Diferente disso, o ex-Inter é bem mais um meia de chegada do que de criação, o que dificultou um pouco a situação, em um jogo que pediu mais bola no chão e calma para pensar e trabalhar os ataques.


Não à toa, boa parte da partida ficou marcada por muitos chutões para frente e destaque para jogadas iniciadas em lançamentos do zagueiro Matheus Mancini, que fez atuação consistente. Ao lado dele, Bremer manteve a qualidade do último ano e minimizou as chances de perigo por parte do rival. Fechando o quarteto defensivo, vimos Patric e Danilo Barcelos mais travados no começo do jogo, diante de algumas dificuldades no setor defensivo e nos lances de mano a mano. Está claro que melhorarão com o decorrer da temporada, e as limitações que ambos possuem, todos conhecemos. Ainda assim, não significa o fim do mundo. Na meta, cabe dizer que Victor correspondeu bem em quase tudo o que foi exigido, mas ainda deixou claro que a retomada de ritmo de jogo será importante para que não erre (quase) nada e garanta o gol intacto em jogos de dificuldade para marcar, especialmente.


E o principal da partida: os meio-campistas Yago e Gustavo Blanco. Se existe um setor do campo que muito preocupa há alguns meses, este é o pedaço intermediário. Se antes víamos Rafael Carioca e, posteriormente, Adilson tirarem a bola de trás para começar os ataques, agora a realidade muda. Com a notória perda de importância do volante polaco - que acabou entre os listados para disputar a Florida Cup -, Yago foi o encarregado de ajudar os zagueiros no começo da produção de jogo, mas sentiu a dificuldade por não ser, naturalmente, um jogador com essa característica. Na frente, Blanco foi, provavelmente, a peça mais importante do jogo: foi de uma área à outra, participou com a bola nos pés, sem ela foi combativo, chegou bem à frente nas finalizações... Parece questão de tempo para que ele se encaixe melhor na equipe. Basta Oswaldo explorar seu potencial.


Bruno Cantini/Atlético Mineiro
Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Apesar de seu sobrenome homenagear o placar do jogo, Blanco foi a grata surpresa em campo: tem futebol para crescer muito na temporada


Dito isso, vale bater na tecla de que alguns dos jogadores que estiveram em campo nessa 1ª rodada podem - e devem - ser muito importantes no que o time planeja para o ano: uma remodelagem. Está claro que o time de 2017, que girava em torno de Fred e Robinho, vai mudar muito a sua cara e deve sofrer algumas mutações até que tome outra face em 2018. Se os destaques da última noite foram Blanco, Matheus Mancini e Marco Túlio, no fim de semana podem ser outros - especialmente os novatos, com boas chances de fazerem suas respectivas estreias.


O resultado zerado não é, nem de longe, o que mais preocupa ou desperta curiosidade/ansiedade. Embora não seja um consenso, essa fase inicial do Mineiro precisa ser um momento para avaliar o que pode e o que não pode ganhar sequência neste conjunto, e isso acima de qualquer reclamação por resultados que não sejam a vitória. A temporada é muito longa para desvalorizar os testes agora. É a hora de confiar em Oswaldo e no elenco, eles precisam de respaldo e paciência. Uma nova semente começa a ser plantada na Cidade do Galo. Resta à torcida esperar e rezar para que se colham bons frutos.