Vencer e começar um novo ciclo: as conquistas do Atlético diante do América

O clássico deste fim de semana chegou em um momento muito complicado para o Atlético. Pressionado pelos resultados ruins na temporada, com técnico interino, além das várias indefinições sobre o futuro, o time viu nessa partida a chance de mudar o rumo do ano. Em campo, o conjunto passou por uma missão muito difícil, que apontou as qualidades do elenco atleticano, ainda que isso não tenha sido tão evidenciado até o momento.


O América de Enderson Moreira foi um time completamente desafiador para o Galo. Não só desafiador como complicadíssimo de enfrentar. Nos últimos dezessete jogos oficiais do Coelho, apenas uma derrota: diante do Cruzeiro, no duríssimo 1 a 0 do Mineiro deste ano. Com o treinador, a equipe não sofria três ou mais gols desde o encontro com o Galo no ano passado, quando o alvinegro venceu por 4 a 1, um ano atrás. Para ser mais exato, há 364 dias. De lá para cá, 56 partidas consecutivas em que o time americano sofreu menos de três tentos.


O que dá para tirar desses números fica bem claro. Por mais que a equipe atleticana ainda tenha muito a melhorar, o primeiro passo foi dado, e isso deve ser muito valorizado pela maneira com que aconteceu. O resultado, por si só, talvez diga pouco, mas a forma com que o time chegou a essa vitória é o mais importante.


Com Thiago Larghi no comando - e uma iminente aprovação dos atletas com a sua permanência -, foi visto um Atlético bem mais organizado em aspectos coletivos. Com Adilson (ao retomar a melhor forma física e ganhar a vaga do Arouca) ao lado de Elias na dupla de volantes, Patric mais fixo como o lateral-direito, e o trio de meias formado por jogadores mais velozes (Roger Guedes à direita, Otero à esquerda e Erik por dentro para apoiar ambos, fechar bem quando o time não possuía a bola e ser acionado nas ligações diretas), a equipe escalada casou com o plano de ferir o adversário por meio do contra ataque.


Bruno Cantini/Atlético Mineiro
Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Thiago Larghi teve papel fundamental no grande trabalho coletivo do Atlético diante do forte América


Pelo que foi visto nos últimos tempos, ainda não está claro sobre quem será titular nesta equipe, ainda mais em vista das constantes mudanças pós-saída do Oswaldo de Oliveira. Mas é nítido que, com o elenco que possui, o Atlético pode (e deve) alterar suas escalações de acordo com o que for adequado em cada partida. Diante do América, houve a necessidade de negar espaços ao rival e reagir com efetividade. Aconteceu.


Nos aspectos defensivos, a atuação atleticana foi bastante consistente, em contraste do que mais foi criticado nas últimas partidas. Nos noventa minutos, o América só conseguiu finalizar em direção ao gol defendido por Victor duas vezes. A organização também se traduziu na forma com que o rival foi induzido a mudar a rota para tentar vencer: ainda que tenha somado mais passes certos (303 a 298) que o Galo, o Coelho precisou alterar a maneira de atacar e forçar muitos cruzamentos. No total, 24 tentados e apenas quatro certos.


Bruno Cantini/Atlético Mineiro
Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Um dos raros momentos em que Victor foi exigido. Defesa do Atlético teve atuação muito sólida, como proposto pelo treinador


A falta de efetividade americana levou os mandantes a sofrer com a reação e o poder de fogo alvinegros. O Atlético, mesmo sem um armador para criar boas oportunidades nos metros finais do campo - Cazares e Tomás Andrade, os atletas que fariam essa função, começaram no banco -, encontrou o primeiro gol em uma boa jogada dos atacantes e conclusão de Roger Guedes (em um gol que causou muitas dúvidas se entrou ou não, apesar de tudo) na primeira etapa de partida.


No segundo tempo, ficou clara a necessidade de um organizador próximo dos atacantes, e as duas assistências de Tomás Andrade mostraram bem isso. Ao fim, depois de uma excelente primeira impressão do meia argentino, ficou a lição de que o time pode melhorar ainda mais, à medida que o treinador e o próprio elenco se conhecerem melhor. Por exemplo, as características distintas de Cazares/Andrade e Otero/Erik/Roger Guedes/Luan podem ser complementares e isso, com o passar das semanas, será algo ainda mais positivo para uma melhora no rendimento coletivo. Além de outras evoluções que passam pela forma de a defesa se solidificar e buscar o ataque de maneira rápida e eficiente, como o próprio treinador comentou durante a semana.


Bruno Cantini/Atlético Mineiro
Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Tomás Andrade jogou menos de dez minutos e deu duas assistências. Vale toda a empolgação do mundo?


Sem entrar nos méritos de cada profissional (que existem), a vitória no Horto não pode mudar exageradamente os pensamentos sobre esta equipe. Se na partida de hoje muito se exaltou a excelente entrada de Tomás Andrade e a participação direta dele na construção do placar, bem como o ótimo plano de jogo do técnico-interino Thiago Larghi - os dois grandes expoentes da vitória contra o América -, não é adequado colocá-los em um pedestal. Ao menos, não ainda. A temporada é muito longa e as oscilações existem. Para o bem e para o mal, é melhor esperar e dar tempo para que fatores positivos e negativos apareçam. De qualquer forma, o primeiro passo foi dado e é nele que o atleticano deve brilhar seus olhos.

Dados: Footstats e Soccerway