É difícil, mas necessário ter paciência com o Galo

Por Wladimir Dias. No Twitter, @WladDias  [e contribuição do dono do blog] 


O ano de 2018 se anunciou uma completa incógnita para o torcedor do Galo. As mudanças foram muitas e em toda a estrutura do time. Mudou o presidente, a diretoria de futebol, das categorias de base, chegaram também novos olheiros (alguns deles velhos conhecidos da torcida). A época das contratações envolvendo altos salários e custos de transferência também ficou no passado — mesmo porque o clube sequer vinha conseguindo arcar com alguns negócios do passado recente, como as dívidas das compras de Elias ou Rómulo Otero não deixam mentir.


Não foi fácil acompanhar as saídas de jogadores que, goste-se deles ou não, ainda representavam uma ligação com os times vencedores da primeira metade da década. Ainda assim, questione o trabalho que vem sendo feito ou seus métodos, mas não é possível não reconhecer que a situação anterior, sem conquistas, era insustentável. Financeiramente inviável.


Assim, depois da saída de gente como Robinho, Rafael Moura e Fred, veio a primeira leva de contratações, quando o time ainda era comandado por Oswaldo de Oliveira. Róger Guedes, Erik, Arouca, Iago Maidana, Samuel Xavier, Tomás Andrade, Ricardo Oliveira... Nomes que passaram longe de uma aceitação pacífica. Mas que couberam no orçamento.


Oswaldo saiu, assumiu Thiago Larghi, o antigo auxiliar, e a mutação do time continuou.


De dispensável a líder do time, Adilson retomou a titularidade com desempenho de qualidade acima de qualquer suspeita. Na bola, Gustavo Blanco colocou Elias no bolso, tomou um lugar no onze inicial e condenou o veterano à reserva. Outro que não contava com o apreço de Oliveira e parecia entregue a uma carreira recheada de lesões, Luan recuperou espaço e ganhou importância. Guedes começou bem o ano, teve uma queda, viveu polêmicas, mas também saiu da água para o vinho para forjar a melhor dupla de ataque do Brasileirão até a parada para a Copa do Mundo, ao lado do veterano Ricardo Oliveira — cujo desempenho coloca o de muito atacante jovem no chinelo.


Juliana Flister/Getty Images
Juliana Flister/Getty Images

Roger Guedes, o grande destaque atleticano no Brasileiro antes da parada para a Copa do Mundo, agora não está mais; Adilson também é desfalque pela lesão. Dois dos grandes pilares que o time perdeu, em uma série de remontagem coletiva que demanda tempo para dar certo


Parecia que aquele time que tanta desconfiança trouxe no início do ano daria liga. Apesar das eliminações precoces e questionáveis na Copa do Brasil e na Copa Sul-Americana, além da perda do Campeonato Mineiro, de repente o time estava nas cabeças no nacional. Nesse tempo, outras definições aconteceram, com as contratações de Matheus Galdezani, Emerson e Juninho, além da saída de Samuel Xavier, que não deixou sombra de saudade na Cidade do Galo, e de outros atletas que só “engordavam” a folha salarial, casos de Felipe Santana e Roger Bernardo.


Ainda que velhos problemas não tenham sido resolvidos, havia uma onda geral de otimismo. Entretanto, veio a parada para a Copa do Mundo e o elenco do Galo, um castelo de cartas que vinha se equilibrando bravamente, acabou sendo desconstruído e agora tenta se remontar. Isso implica em mudanças táticas (tanto da formação, quanto do papel atribuído aos atletas), desenvolvimento de um novo entendimento entre os jogadores e aquisição de confiança uns nos outros. Sobretudo, demanda tempo. Tempo que, aliás, um time que luta na parte de cima da tabela não tem.


Por mais ilusão que os bons resultados da primeira parte do campeonato tenham produzido, especialmente em momentos como a vitória magra mas de futebol convincente contra o Corinthians, 2018 não é um ano em que se possa cobrar mais do que uma posição confortável na tabela.


Otero, Róger Guedes, Bremer, Giovanni, Yago e Arouca (estes três últimos praticamente não jogavam) saíram. Tudo indica que Juan Cazares também pode sair. Por outro lado, o selecionável colombiano Yimmi Chará chegou como o grande investimento do ano e maior esperança. Também desembarcaram no Aeroporto de Confins Edinho, Zé Welison, David Terans, Denílson e Leandrinho. Clayton está curado de uma grave lesão e também deve entrar nos planos de Larghi. Aliás, ainda podem chegar mais um meia (Nathan está muito próximo de um acerto) e um zagueiro.


Entretanto, nenhum dos contratados têm exatamente as mesmas características dos jogadores que deixaram o clube. Tirar um antigo titular e colocar um recém-contratado, ainda que em tese da mesma posição, não é como trocar peças idênticas de uma construção de Lego. E, por mais que se possa treinar, é nas partidas que se enfrenta os verdadeiros desafios.


Lucas Uebel/Getty Images
Lucas Uebel/Getty Images

Thiago Larghi, mais uma vez, tem que fazer uma série de ajustes para reativar a melhor forma da equipe. As tantas mudanças no elenco dificultam a eficácia a curto prazo


A despeito de o time ter feito uma intertemporada no período da Copa do Mundo, esse prazo é muito curto para se remontar uma equipe, além de toda a diferença no nível de competitividade em relação aos jogos oficiais. Na reestreia no Brasileirão, foram cinco as estreias e não há time no mundo que consiga desempenhar seu melhor futebol nessas circunstâncias. Bem ou mal, Larghi teve no Campeonato Mineiro um tempo para fazer experiências e montar seu primeiro time. Não teve a mesma sorte para o segundo.


Para se ter uma noção, do "time base" atleticano antes da Copa para a equipe que retornou na última semana, mudou todo o trio de meio-campistas (Adilson, Blanco e Cazares por José Welison, Elias e Matheus Galdezani/Luan por dentro), um dos pontas (Róger Guedes por Chará, e ainda Edinho contra o Grêmio) e na zaga (Bremer - vendido - ou Leonardo Silva - lesionado - por Juninho). Tudo isso representa como há um impacto grande com tantos jogadores mudados. 


A terceira leva de contratações do clube no mesmo ano vai precisar se encaixar durante a competição. Pode dar certo no curto prazo? Claro, mas racionalmente essa não é uma realidade que se verifica com frequência. E, no caso específico do Galo, é ainda mais improvável, na medida em que velhos problemas seguem sem solução e outros, graves, anunciaram-se.


Blanco se machucou e deve perder a temporada. Adilson, ainda que por menos tempo, também está no estaleiro. O desacerto na bola aérea defensiva, que já era evidente antes da parada, segue assombrando o goleiro Victor. Das 22 vezes em que buscou a bola no fundo de suas próprias redes, 12 saíram desse tipo de jogada. Gabriel não vive bom momento técnico há tempos. Patric, embora tenha se tornado um personagem por quem muita gente tem alguma simpatia, no campo nem sempre entrega desempenho satisfatório. Elias, que era para ter sido um bom negócio, no Galo jamais foi sombra do jogador de Corinthians e Flamengo e agora retoma a titularidade diante das lesões dos titulares.


A fase é tão complicada que, em sua estreia, Edinho sofreu lesão muscular e passou a ser mais um desfalque — ao ponto de Larghi pedir a reintegração do talentoso Bruninho, garoto de 18 anos da base.


Os contratados podem se dar bem no Galo? Sim. Mas exigir que isso aconteça rapidamente é simplesmente contraproducente, coloca sobre eles uma pressão que não é devida ou justa. O coração do torcedor sofre ao ver uma performance, coletiva e individualmente, ruim como a da partida contra o Grêmio? Evidentemente. O ponto é: por mais que o presidente diga que o time lutará por coisas grandes, esta promessa não é razoável. Não em 2018.


Pelo bem desse time, é preciso ter paciência. A crítica, quando necessária, deve existir, mesmo porque, como dito, há problemas que vêm de longa data. Só não se pode ser mais realista que o rei. Com mudanças administrativas, três levas de contratações, aposta em um treinador inexperiente, mas que faz o que pode e dentro das opções do mercado é o que há de melhor, lesões de jogadores chave e dificuldades para resolver velhas questões, não dá para esperar um futebol encantador ou luta por título. Mas tende a mostrar evolução. Contra o Palmeiras o time já foi melhor que contra o Grêmio, apesar de mais uma derrota.


Alexandre Schneider/Getty Images
Alexandre Schneider/Getty Images

O semblante dos jogadores reflete bem a dificuldade da atual situação. Apesar disso, tenhamos calma e alguma cautela antes de julgar


Será ótimo o time terminar no topo da tabela? Sim, mas demandar isso como obrigação é irracional — e, nesse momento, diante do susto que veio na volta do Brasileirão, a arquibancada, que é passional mas sempre foi a melhor parceira do clube, a única que nunca o deixa na mão, precisa entender isso.