Aconteceu algo estranho no Independência

Pedro Souza/Atlético Mineiro
Pedro Souza/Atlético Mineiro

Bem como o estádio, atuação alvinegra foi muito apagada, especialmente após a queda de energia na Arena


Aconteceu algo estranho no Independência ontem. Foi a primeira vez, desde a demissão de Oswaldo de Oliveira, que vi um choque de realidade e a necessidade de repensar a forma de trabalhar no banco de reservas atleticano. Mas não só ela. Também notei que precisamos falar e repensar como olhamos para o Atlético e para o que acontece no futebol. Em especial, no futebol brasileiro.


Levando para o lado particular, sou um defensor da manutenção de bons trabalhos, e acredito em sucesso nos projetos bem pensados a médio/longo prazo dentro do futebol. Não conheço os bastidores de um clube, então não consigo afirmar os porquês de uma demissão de treinador, independente das razões dentro de campo para tal. Também penso que, dentro do Atlético, passou da hora de o clube abrir espaço para um profissional capacitado ter trabalho longínquo. A última vez que isso aconteceu foi com Levir Culpi, em um ciclo que se encerrou quase três anos atrás. Imaginei que poderia ocorrer com Diego Aguirre e Roger Machado. Leve engano.


Quando Thiago Larghi emendou uma boa sequência de jogos, ainda na reta final do Campeonato Mineiro, meus olhos brilharam mais uma vez. Naquela ocasião, minha expectativa era para que os torcedores conseguissem notar algo promissor ali, mesmo com tão pouco em um primeiro momento. Aconteceu. A realidade é que, mesmo com o Galo tendo passado por três momentos de trocas de jogadores/remontagem de elenco no ano, o que está sendo colhido, em resultados, não é algo tão decepcionante em vista da remodelagem. Mais importante que isso é entender que, em um trabalho mais longo e, especialmente no caso de um treinador iniciante, haverá um misto de situações boas e ruins, e devemos saber pesá-las sem exagero.


Ainda quando vencemos o América, em um jogo surpreendente no Mineiro, falei sobre o cuidado para não colocar treinador e jogadores em um pedestal e enaltecê-los em excesso. Agora, venho para trazer o outro lado da moeda. Não é justo tecer críticas exageradas e que simplesmente apagam o que foi positivo em uma época não tão distante da que estamos. E isso vale também para entendermos os porquês de outros adversários estarem à nossa frente.


Já faz algum tempo que leio críticas severas sobre alguns jogadores atleticanos e sobre nosso treinador. Concordo com algumas, discordo de outras, o que é normal. No meio do caminho, achei importante perceber fatores que não são exatamente nosso foco, e a derrota para o Internacional foi essencial nisso. Mesmo vendo um 1º tempo com margem de evolução para o Galo, em nenhum momento os colorados me passaram a impressão de que perderiam o jogo no Horto. A todo tempo, transmitiram segurança e concentração para, no mínimo, irem embora de BH com um ponto na bagagem. Foram perseverantes, muito competentes e, em meio ao nosso erro defensivo e à extrema COMPETÊNCIA deles, saíram vitoriosos.


O Internacional é, agora, o 3º colocado do Brasileirão. Se tivéssemos vencido, poderíamos estar lá. Mas os "ses" pouco valem agora. Melhor focar em quem tem conseguido obter êxito no ano, e é daí que trarei pontos positivos que são importantes para olharmos também.


Perdemos para um Internacional que soube utilizar contra-ataque e bola parada (nosso maior ponto fraco no torneio) e manteve confiança em um também "duvidoso" treinador, mas que gera bons frutos em um time renascido. Os colorados possuem a segunda melhor defesa do campeonato, superados apenas pelo Grêmio, que também se fechou e nos minou com bola parada e boa posse de bola. O tricolor gaúcho mantém uma mesma forma de jogo há dois anos, e ganhou as maiores competições de mata-mata assim (além de um vice-campeonato brasileiro). Acima deles na tabela está o Flamengo -  que também nos derrotou no Horto  - , com um time que está bem desde o começo do Brasileirão e com bons talentos, que "fracassaram" ano passado e agora estão em bom momento: Cuéllar, Éverton Ribeiro, Diego, Paquetá, Vinícius Júnior (até a Copa do Mundo). Mudou o treinador, mas seguiu a confiança no que poderia dar certo cedo ou tarde. Continuidade.


Bruno Cantini/Atlético Mineiro
Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Ricardo Oliveira não teve descanso em nenhum momento. A grande partida de Cuesta e Rodrigo Dourado prova o quão complicado de enfrentar é este Internacional


À frente de todos eles, Diego Aguirre leva o São Paulo ao topo da tabela, ao menos parcialmente. Aguirre é um profissional competente e, mais uma vez, prova isso. Não deu certo aqui, mas no São Paulo montou uma equipe forte neste ano, com pouco tempo, e é diferente dos demais citados. Aqui entra outro fator que podemos nos espelhar. Por que rendem tanto e tão rápido? Há confiança, há consistência, há superação. O São Paulo começou o ano muito mal no estadual, foi ainda pior na Copa do Brasil, e está melhor agora, após conseguir emendar uma sequência com uma equipe parecida e com os jogadores tendo maior confiança uns nos outros. 


Todos os casos citados trazem ensinamentos para nós. É meio chato entrar nesse papo de olhar o que os outros estão fazendo, mas ajuda a crescer. Quando não estamos fazendo da melhor forma, ou algo não funciona, não existe erro em buscar características positivas em outros lugares. Hoje, precisamos de consistência, um time mais forte e maior competitividade? Sem dúvida. E há caminhos para buscar tudo isso, e até com maneiras bem menos radicais do que se imagina.


Quando o Brasileiro começou, eram raros os que realmente imaginavam alguma chance de título para esta equipe. Na parada para a Copa, estávamos no segundo lugar. Olhem quantas mudanças o time teve a cada mês, quantos jogadores chegaram e saíram nesse tempo. Larghi está vivendo sua terceira remontagem, perdeu peças-chave, está perdido (e isso é nítido). Mas tenhamos calma, paciência. O time não se conserta como em toque de mágica, ou trocando dois jogadores. Bem como vimos alguns pontos positivos em alguns dos jogos, vimos pontos negativos em outros. 


Não estou aqui para passar pano para treinador, e sei das deficiências da equipe. Também sei que muitas delas possuem solução, e que a continuidade pode ser, sim, um remédio para muitos dos nossos problemas. O X da questão é aceitar que, hoje, estamos atrás de outros candidatos a "algo mais" na tabela, e isto está além do comando técnico, dos jogadores… Houve um "desvio" em todo o planejamento que levou ao que vivemos hoje, e a única solução é confiar em quem está lá agora para, futuramente, voltarmos à luta no ponto mais alto. Não existe mágica que faça isso de forma instantânea, então teremos que esperar um pouco mais. 


Entre outros pontos de destaque, também é importante valorizar o que o Atlético possui em seu elenco hoje, e entender que o time é condizente com a realidade e as dificuldades com jogadores importantes que perdemos. Não adianta esperar que um jovem Emerson seja a solução dos problemas e dê tudo o que o Patric não possui, por exemplo. E, aos poucos, vamos depositando confiança em jogadores que possuem potencial para dar retorno, como Chará, Matheus Galdezani e José Welison. 


O pedido incessante por continuidade também se dá após as tantas falhas que tivemos "jogando planos no lixo" ao demitir treinadores promissores durante a temporada e fechando os anos ainda piores. É claro que a situação não está boa, mas não adianta querer levar tudo para o lado negativo pensando que mudar radicalmente é a solução. Da mesma forma que não podemos nos contentar com as derrotas, não podemos entrar no exagero de pensar que tudo está perdido, porque não está.


Bruno Cantini/Atlético Mineiro
Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Larghi segue em busca da melhor direção


Em um dia de muita estranheza, talvez fique até mais difícil falar da atuação do time de forma detalhada, mas a essência do argumento não muda. Antes do pessimismo e/ou da crítica - que também possui motivos e fundamentos para acontecer - sobre o time, vamos tentar olhar além. Há o que se extrair de positivo, sempre. E o sofrimento atípico após uma noite de derrota e granizo foi só um dos tantos motivos que nos fazem repensar sobre isso.