Mais que um clube: Por que o Barcelona se afastaria de Ronaldinho e Rivaldo?

A imprensa catalã estremeceu o mundo ao noticiar na manhã de ontem que o Futbol Club Barcelona se afastaria de seus ídolos e atuais embaixadores, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo, devido ao posicionamento político de ambos nas eleições presidenciais brasileiras. Mais tarde, confirmando a seriedade do assunto, o próprio clube se manifestou oficialmente, através de seu porta-voz Josep Vives, dizendo que respeita a opinião de todos, mesmo sem concordar com algumas ideias defendidas pelos ex-atletas:


"No Barça, defendemos valores democráticos que não coincidem com algumas ideias que temos escutado sobre este candidato" - afirma um trecho do comunicado.


Outro trecho deixa explícita a preocupação do clube com sua imagem:


"Agora não há nenhuma posição tomada, mas seguiremos atentos, porque estamos preocupados sobre como isso pode afetar a imagem do clube".


getty images
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Não é sobre futebol, é sobre história



Mas afinal, por que o clube que conquistou tantas glórias e representividade através do talento de Ronaldinho e Rivaldo afastaria gradativamente os brasileiros de eventos institucionais e de patrocinadores?


A resposta é simples: aula de história (basta dar um google).


O Barça já sofreu muito com a ditadura militar. Em 1925, um fato político teria pela primeira vez importância no clube: em uma reação contra a ditadura de Primo de Rivera (militar e ditador espanhol), a torcida vaiou o hino da Espanha. Como represália, o clube foi fechado por seis meses, enquanto seu presidente da época, Joan Gamper, foi forçado a renunciar à presidência. Em 1936, nas primeiras semanas da guerra civil espanhola, o presidente do Barça, Josep Sunyol, que era de esquerda, acabou assassinado pelos nacionalistas, ligados ao direitista General Franco. Apesar de sua morte não ter relação com o Barcelona - ele acidentalmente vinha passeando do lado errado da fronteira, gritando "viva a república" sem ter noção da presença próxima das forças nacionalistas, ela acabaria depois mitificada como marco inicial da perseguição que o time sofreria da ditadura franquista, até porque as instalações e escritórios do clube não escapariam da ocupação fascista na cidade.


Após o fim da guerra civil espanhola, o general Franco, através da sua política fascista opressora conhecida como "Franquismo" (de tipo conservador, católico e anticomunista), proibiu diversas manifestações culturais, entre elas a proibição do uso da língua catalã, a extinção do Campeonato Catalão e até alteração no símbolo do clube azul grená.


Além desses atentados à democracia, Franco, que teve em seu regime múltiplas violações dos direitos humanos, com registros de centenas de milhares de pessoas que morreram em campos de concentração, execuções extrajudiciais ou em prisões, o general também usou de seu poder para intimidar e ameaçar o time catalão em confronto diante do Real Madrid em torneio futebolístico famoso da época. Episódio este tão escandaloso que foi reconhecido posteriormente pelo clube da capital.


Reprodução/FC Barcelona
Reprodução/FC Barcelona

A bicicleta do Rivaldo não entra nessa discussão


Mas por que estou citando o futebol? O futebol não tem nada a ver com isso. Os gols de bicicleta de Rivaldo e a magia de Ronaldinho nunca entraram em questão e nem deveriam. Também não deve existir Barcelona contra Real Madrid nesta discussão e muito menos esquerda contra direita. O tema aqui é LIBERDADE, o tema é democracia contra ditadura.


O Futbol Club Barcelona sempre foi um clube símbolo da liberdade, sempre enfrentou o ódio e ainda tem em seu estádio e entre seus sócios um espaço livre e aberto para protestos e gritos de justiça, por reflexos do passado e pela repressão do governo no presente. Liberdade é uma das palavras chave da história deste clube.


Mais que um clube. Visca el Barça!


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