Para quem perdeu pouco, Barça deu vexame demais na temporada

Chega a ser inacreditável a forma como o Barcelona conseguiu fazer com que míseras 5 derrotas em mais de 50 jogos na temporada tivessem tanto peso como têm ao fazer um balanço dos últimos meses. O doblete é importante, a façanha de passar 36 rodadas sem perder no Campeonato Espanhol é para pouquíssimos na história, mas mesmo assim, o gosto amargo é difícil de ser esquecido.


A temporada começou com duas derrotas para o Real Madrid: 5 a 1 no agregado, dois banhos de bola que fizeram os primeiros passos oficiais de Valverde como treinador do clube serem vexatórios. Sejamos justos, o momento era conturbado e os dois clássicos pelo Campeonato Espanhol contaram histórias bem diferentes, mas a marca negativa permaneceu por um bom tempo.


A derrota seguinte veio apenas em janeiro, pela Copa do Rei, contra o Espanyol. Foi a única na temporada, até agora, que não pode ser considerada um vexame, ao menos pelo placar. Ainda assim, foi a primeira derrota em anos contra o rival local em uma partida oficial, uma sequência quebrada em um momento ruim do adversário, quando a distância entre os dois parecia não permitir o resultado que aconteceu.


Em seguida, o quarto resultado adverso de Valverde foi a vergonhosa eliminação para a Roma, na Liga dos Campeões. Uma vantagem grande de 4 a 1 construída em casa foi abaixo na partida de volta. O placar, 3 a 0 para os italianos, só não foi pior que a atuação da equipe, uma das piores do clube na competição nos últimos 10 anos.


E, enfim, chegamos à perda da invencibilidade no Campeonato Espanhol. O “quase empate épico” não pode mudar o fato de que o Barça chegou a perder por 5 a 1 do Levante, sofrendo 3 gols em praticamente 10 minutos. E não há defesa reserva ou Messi poupado que justifique isso.


A atuação de Mina foi desastrosa, Vermaelen segue tenho qualidade mas foi traído novamente pelas lesões, Semedo parecia estar sob efeito de soníferos, Busquets estava em um ritmo totalmente diferente da partida, Iniesta não conseguiu acompanhar a velocidade do time adversário, Rakitic teve sua pior atuação na temporada, Dembélé parecia assustado como uma criança e Suárez errou até mesmo o que não tentou.


Individualmente, um desastre. Só o brilho de Coutinho e a liderança de Piqué se salvaram. Taticamente, o Barça levou um banho dos contra-ataques do Levante. A “solidez defensiva” de Valverde, teoricamente a maior qualidade que ele trouxe à equipe, não foi capaz nem mesmo de fazer com que o time terminasse o campeonato com menos gols sofridos do que na primeira campanha com Luis Enrique, em 2014/15.


Getty Images
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Doblete cheio de questionamentos: bem-vindo ao Barcelona, Valverde


O presidente do clube já garantiu a permanência de Valverde para a próxima temporada, mas ainda assim há discussões sobre essa decisão ser certa ou não. A permanência é obviamente justificada pelos dois títulos, pela série invicta quase perfeita e pela forma como o treinador conseguiu construir bons resultados a partir do desastre que foi a janela de transferências do meio de 2017, que criou uma enorme crise no clube.


Contudo, apesar dos méritos, Valverde não conseguiu fazer a equipe jogar bem de forma consistente, o que faz sua opção pelo 4-4-2 ser muito (e corretamente) questionada. Dembélé, um dos jovens mais talentosos de sua geração e que chamava a atenção de toda a Europa, pouco evoluiu com o treinador, principalmente em seu entendimento tático. Mesmo considerando suas lesões, é algo preocupante.


A falta de integração de jogadores da base também não está ao lado do treinador, ainda que Aleñá pareça certo no elenco do time principal na próxima temporada. E o mais importante, ainda que intangível, de certa forma, é como o treinador parecia não saber agir diante de grandes jogos, e como o Barça pareceu jogar com medo em algumas situações, mais preocupado em garantir o resultado do que em propor o jogo.


Não acho que sacar Valverde seja a melhor solução, mas o treinador precisa ser questionado. O time perdeu pouco, mas foram 4 vexames, e um deles que levou à terceira eliminação seguida do Barça nas quartas de final da Champions. Seja taticamente ou na mentalidade, algo precisa mudar. Perder, mesmo mais que 5 vezes, faz parte. Tantos vexames assim é algo que não se encaixa na realidade do Barcelona.