Retrospectiva 2017: um ano '8 ou 80' para o Benfica

Isabel Cutileiro/SL Benfica
Isabel Cutileiro/SL Benfica

Águia Vitória, a mascote do Sport Lisboa e Benfica


É clichê falar que um determinado ano ficará na memória das pessoas. Nosso cérebro grava os momentos que vivemos, ora pois. Contudo, não se pode negar que 2017, este capítulo de nossas vidas próximo de um ponto final, será inesquecível para todos que fazem o Sport Lisboa e Benfica. Por bons e maus motivos. Todos muito intensos. Talvez neste ano os Encarnados viveram o futebol mais à flor da pele do que em outras épocas. O ápice proporcionado pelos títulos em maio, julho e agosto e os vexames ocasionados em novembro e dezembro comprovam o que digo.


Depois de derrotas difíceis de digerir, o Glorioso justificou a alcunha


O início de ano começou com uma "zebra". Em janeiro, a equipe comandada por Rui Vitória foi eliminada na semifinal da Taça da Liga. Mesmo considerados favoritos ao título, condição reforçada pelas eliminações precoces dos rivais Sporting e Porto, os lisboetas sucumbiram diante do Moreirense na semifinal, com um surpreendente revés de 3 a 1, de virada. De fato, uma derrota difícil de explicar. Mas, no final das contas, o resultado chacoalhou o time para a reta decisiva de 2016/2017. E o time de Moreira de Cónegos, justiça seja feita, soltou o grito de campeão.


Eis que, no final de março, foi dado o pontapé inicial do Blog Glorioso Encarnado. Com um puxão de orelha extremamente necessário, ainda mais com a dura eliminação para o Borussia Dortmund na Uefa Champions League, diga-se - o BVB tinha plantel melhor, mas ser eliminado com goleada depois de construir uma vantagem importante nos 90 minutos iniciais é doloroso. A corneta, o sentimentalismo e uma tentativa de razão vêm a ser a tônica deste espaço.


Pois bem... Jogo ia, jogo vinha, e o Benfica fazia sua parte tanto na Primeira Liga de Portugal quanto na Taça de Portugal. Devagarzinho, subiu os degraus necessários para se manter no topo e conquistar o 36º título nacional.


Getty Images
Isabel Cutileiro/SL Benfica

O '36' veio!


Os empates no clássico com o Porto e no dérbi com o Sporting fizeram parte da caminhada. Apesar dos resultados iguais (1 a 1 frente aos Azuis e Brancos, no Estádio da Luz, e 1 a 1 também diante dos Verdes e Brancos, no José Alvalade), os contextos foram muito diferentes. O SLB foi bastante ofensivo contra o FCP - a comemoração portista no apito final transparecia: o time da Luz jogava para ser campeão - e "cozinhou" o jogo frente ao SCP - segurar o ímpeto do adversário também faz parte da essência de um time vencedor.


Os triunfos contra Moreirense, Estoril e Rio Ave foram inesquecíveis. Em Moreira de Cónegos, a Águia exterminou o fantasma que a atormentava desde o início do ano civil. Mitroglou foi o grande responsável. Parecia história de mitologia grega. Em Lisboa, os donos da casa sofreram contra os Canarinhos. Mas Jonas mostrou a importância de se ter um craque em momentos onde parece que nada vai dar certo. E Raúl Jiménez voltou a se fazer gigante em Vila do Conde. O Rio Ave tinha alguém para chamar de pesadelo.


De tanto os arquirrivais tropeçarem, o título veio com antecedência. Foi em 13 de maio de 2017, dia do centenário da aparição de Nossa Senhora de Fátima em Portugal, que o Sport Lisboa e Benfica pintou a Terrinha de Encarnado pela 36ª vez. Mais do que isso: alcançou a inédita condição de tetracampeão nacional. Os gigantes não são gigantes apenas pelo passado. Também o são pelo presente. E o futuro novamente reforçará este status. Foi esta a lição que o 5 a 0 sobre o Vitória de Guimarães nos deixou.


Em 28 de maio, o rei de Portugal também reconquistou a "prova rainha" do futebol de seu país. Novamente contra o Vitória de Guimarães. Dessa vez, por um placar mais apertado: 2 a 1.


Não para por aí. Pulemos para agosto. Na abertura da temporada 2017/2018, o Maior de Portugal voltou a brilhar e conquistou a Supertaça Cândido de Oliveira pela sétima vez. A vítima? O Vitória de Guimarães. De novo. Uma contagem honesta: 3 a 1.


O técnico Rui Vitória, vejam só, conquistou três títulos contra o seu ex-time.


Também vale mencionar o Benfica B, quarto colocado na edição 2018/2017 da Segunda Liga de Portugal. Entre os jogadores que fizeram parte da melhor campanha dos "bês" do Seixal na segunda divisão nacional e foram mencionados pelo Blog, Rúben Dias e Diogo Gonçalves vêm sendo aproveitados no escalão principal. Bom de ver. Que as oportunidades se estendam aos outros jovens.


Além dos campos


Divulgação/SL Benfica
Divulgação/SL Benfica

Melanie Santos, Miguel Arraiolos, Vanessa Fernandes e João Pereira (da esquerda para a direita): a equipe de triatlo Benfica que conquistou a Europa


Os Encarnados também entraram para a História fora dos gramados. No dia 23 de julho, a equipe de triatlo do Benfica conquistou o campeonato europeu e colocou as Águias numa condição jamais vista em seu país: a de campeão continental em cinco modalidades diferentes - futebol, hóquei em patins, futsal e atletismo também já foram gloriosos. O feito realça a grandeza da maior agremiação portuguesa. Fora das fronteiras, apenas o espanhol (ou seria catalão?) Barcelona pode dizer que já fez o mesmo. Inclusive, foi contra o Reus, também da região da Catalunha, que o SLB se sagrou campeão mundial de hóquei em patins neste mês de dezembro - foi a segunda vez, opá.


Ainda no contexto que transcende as quatro linhas, outras ações foram marcantes.


A Fundação Benfica mostrou que o braço social do clube acolhe as crianças independentemente do time pelo qual elas seguem.


Um grande clube também mostra solidariedade para com uma família desamparada. A homenagem a um benfiquista que morreu ao tentar salvar um casal de afogamento foi tocante.


E o que dizer da arrecadação de cinco toneladas de alimento para uma instituição de caridade? Fantástico.


A ação a seguir, por sua vez, não foi da instituição, mas também marcou: um drone com o número de títulos do SLB chamou a atenção em uma derrota do vice-campeão Porto no encerramento da temporada 2016/2017 do campeonato português.


Para tristes registros ficam o revolante veto da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ao amistoso entre Benfica e Chapecoense, que se enfrentariam na Eusébio Cup, e o cancelamento de um Benfica x Rangers, que valeria pela mesmo torneio. O tempo passou, 2017 vai terminar, e não haverá Copa Eusébio logo no ano em que o eterno Eusébio completa 75 anos de nascimento... Inaceitável!


O desmanche que precedeu a instabilidade atual


Getty Images
Getty Images

Depois do 'Triplete', a primeira parte da temporada 2017/2018 foi péssima para o Benfica


A última janela de transferências foi sinônimo de perdas para o Benfica. Saíram, para o nosso azar, três pilares do melhor sistema defensivo, em números absolutos, das grandes competições nacionais da Europa: o goleiro Ederson, o lateral-direito Nelson Semedo e o zagueiro Victor Lindelöf. Mais tarde, no Deadline Day, saiu Mitroglou, este por uma opção - que o tempo mostrou ser errada, e por falta de alerta não foi - da diretoria. Os cofres encheram, mas a diretoria não repôs à altura. Pior para os adeptos...


O desmanche até poderia justificar o início irregular. Mas o panorama de 2017/2018, atualmente, é devastador. Os Encarnados não viram a cor da bola na Uefa Champions League e, mesmo tendo sido cabeças-de-chave do Grupo A, terminaram o certame com seis derrotas em seis jogos. O pior registro de sua história na competição internacional. É um fato que não combina com a gloriosa trajetória benfiquista fora de Portugal - as duas Copas dos Campeões Europeus e a Taça Latina não me deixam mentir.


Os comandados de Rui Vitória também deram adeus logo cedo nas outras competições de mata-mata: a Taça de Portugal e a Taça da Liga. No torneio do qual era o atual campeão (e maior, com 26 troféus), sofreu uma eliminação de doer a alma diante do Rio Ave. Na outra competição nacional que domina (sete títulos), os empates contra Braga e Portimonense, ambos em casa, construíram uma campanha insossa e selaram uma eliminação antecipada.


O treinador está cada vez mais impopular entre os torcedores. E, verdade seja dita, a massa tem razão. A saída generalizada no meio do ano já não pode mais servir de muletas. Não há justificativa plausível para três eliminações antes da metade da temporada. O presidente Luís Filipe Vieira deve estar com a pulga atrás da orelha.


No primeiro semestre de 2018, o SL Benfica só vai jogar a Primeira Liga, onde rasteja para continuar na cola dos concorrentes de sempre. Cenário muito diferente da época passada. Crise dentro e fora de campo, também com a revolta dos sócios na última Assembleia Geral, em outubro. O craque Jonas, hoje dono de vários recordes, é quem vem destoando.


E assim termina 2017 para a maior torcida de Portugal. Um ano histórico no bom e no mau sentido. Um ano muito doido, muito "8 e 80", em que o céu e o inferno pareceram estar lado a lado no mapa. Porém, acima de tudo, uma época em que o maior clube de Portugal foi vivido intensamente. Feliz 2018, leitoras e leitores. Obrigado pela companhia. Por ouvir as histórias que conto. Aconteça o que acontecer, com ou sem o Penta daqui a cinco meses: Benfica sempre!