Taça Latina: o primeiro título internacional do Benfica e do futebol português

Divulgação/SL Benfica
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A Taça Latina é um dos títulos mais importantes da história do Sport Lisboa e Benfica


Época de Champions League e Europa League é um momento oportuno para recordar a competição precursora das grandes e midiáticas provas da Uefa. Trata-se da Taça Latina (também chamada de Copa Latina), realizada em dois ciclos: de 1949 a 1953 e de 1955 a 1957. Embora seja pouco divulgada aqui no Brasil, foi um importante torneio do Velho Continente. Não apenas no sentido de ser o embrião da Liga dos Campeões, mas também de ganhar espaço nos jornais da época.


Campeão da edição de 1950, o Sport Lisboa e Benfica contabiliza a Taça Latina em sua lista de títulos oficiais. Este fato chega a encabular torcedores do Porto e do Sporting. Mas, querendo ou não os rivais, a postura do clube mais vitorioso de Portugal é correta e tem fundamento.


A criação da Taça Latina teve o aval da Fifa


No final da década de 1940, as federações de futebol de Portugal, Espanha, França e Itália se uniram no propósito de formar uma competição a qual integrasse os campeões nacionais desses países. A criação do certame contou com a liberação do francês Jules Rimet, ex-presidente da Federação Francesa de Futebol (FFF) e presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa) naquela época. Ele também foi idealizador da maior competição de futebol do planeta, a Copa do Mundo, jogada pela primeira vez em 1930, no Uruguai, e sediada na Rússia neste ano de 2018.


Getty Images
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Pai da Copa do Mundo, Jules Rimet também viria a ser entusiasta de uma competição de clubes que integrasse a Europa e participou da criação da Taça Latina


Quem determinava o regulamento da Taça Latina era uma comissão composta por membros das federações portuguesa, espanhola, francesa e italiana, é verdade. Entretanto, uma entrevista de Rimet ao antigo veículo de comunicação brasileiro Jornal dos Sports, em 1951, comprova a chancela da entidade máxima do futebol à copa. "A Taça Latina é uma competição organizada pela Fifa a pedido dos quatro países que a disputam atualmente", afirmou, com todas essas letras, o cartola.


Após explicar a organização do torneio pelo já mencionado comitê, Jules Rimet reforça a autorização do carro-chefe do esporte mais popular do mundo à realização da prova. "(A Fifa) Delega seus poderes à dita Comissão e também ao país organizador que muda todos os anos", pontuou.


Vale lembrar: naquele tempo, a Uefa ainda não existia. A União das Federações Europeias de Futebol veio a ser fundada na cidade da Basileia, na Suíça, em 15 de junho de 1954, véspera do pontapé inicial da Copa do Mundo sediada naquele país. Naquele tempo, as entidades do futebol europeu obedeciam somente à Fifa, formada em 21 de maio de 1904. Mesmo não tendo sido criada nem organizada pela Uefa (afinal, a entidade ainda não havia sido formada!), a Taça Latina tinha o carimbo da Fifa, o que já é suficiente para legitimá-la.


Reprodução/Jornal dos Sports
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Em entrevista a um antigo jornal brasileiro, Jules Rimet revelou que a Fifa criou a Taça Latina para integrar clubes da Europa


A entrevista do francês ao jornal do Rio de Janeiro foi publicada na página 5 da edição do dia 4 de janeiro de 1951 e faz parte de uma matéria cujo título é "Das pirâmides do Egito ao colosso do Maracanã, com o sr. Jules Rimet". Ela pode ser vista na íntegra aqui. O passo a passo é fácil de compreender: clicar no primeiro item da lista, que tem as edições de 1931 a 1952; mirar "Pastas", do lado esquerdo da tela; ir até "Ano 1951"; clicar em "Edição 06554"; e seguir as setas até a página 5.


Escrito por Pierre Rimet, o texto trata da possibilidade de fazer, no Rio de Janeiro, um torneio mundial de clubes campeões, ideia adiantada por jornais europeus àquele período. A competição mais tarde viria a ser conhecida como Copa Rio. Nessa entrevista, a Taça Latina dos portugueses, espanhois, franceses e italianos é citada como um exemplo a ser seguido. Até foi aberta a possibilidade de expandi-la para os clubes latino-americanos.


O cerne da questão é o seguinte: antes restrita a competições de seleções nacionais, a Fifa, a partir das décadas de 1940 e 1950, interessou-se em organizar certames de clubes. Com esse contexto, portanto, a autorização para a Taça Latina só aumenta a importância dessa copa europeia.


A repercussão em Portugal na época


Reprodução/A Bola
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Capa do jornal 'A Bola' do dia 6 de janeiro de 1949 destaca a criação da Taça Latina


Retrocedendo mais na linha do tempo, pode-se ver o amplo destaque dado à formação e ao regulamento da Taça Latina no principal diário esportivo português, o jornal A Bola. O assunto foi manchete da primeira página da edição de 6 de janeiro de 1949. "A 'Taça Latina' vai ser disputada na Espanha pela primeira vez", diz a capa.


Ao longo do texto, é possível constatar informações essenciais: a escalação e a deslocação de árbitros era feita em harmonia com a Fifa, de modo a não prejudicar o quadro de arbitragem e as federações; a taça ia à sede da federação do país vencedor, até que a primeira nação a conquistar três competições ficasse com a posse definitiva de todos os troféus; os clubes campeões ganharam uma réplica da taça; cada país participante da Copa Latina tinha direito a dois representantes no Comitê Organizador e essa comissão se reunia sempre ao mês de janeiro. Além disso, a prova era disputada logo após o término dos campeonatos nacionais.


Reprodução/A Bola
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Segunda página do jornal 'A Bola', de 6 de janeiro de 1949, explica os pormenores da Taça Latina


Quem tem a posse dos oito troféus da Taça Latina é a Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF), na sua sede, em Madrid. O torneio tem como maiores campeões o Real Madrid (1955 e 1957), o Barcelona (1949 e 1952) e o Milan (1951 e 1956), com dois canecos cada. Benfica (1950) e Stade de Reims (1953) completam o seleto grupo. A Copa Latina não foi jogada em 1954 devido à realização do Mundial na Suíça. Os times jogariam desfalcados de seus craques, os quais estariam competindo na Copa do Mundo, e tal possibilidade foi evitada pelos organizadores. O ponto final foi dado em 1956, por causa da consolidação da Copa dos Campeões Europeus, atual Uefa Champions League, a partir da temporada 1955/1956.


Um parêntese: nem sempre os campeões nacionais participavam, mas eles sempre recebiam o convite oficial. Em 1955, por exemplo, o Porto conquistou o campeonato português, mas quem jogou a Taça Latina daquele ano foi o Benfica, o vice-campeão - e terminou em terceiro na copa. Fatos como esse não deslegitimam a competição. Basta fazer uma ponte com o momento atual: nem todos os participantes da Uefa Champions League são os atuais campeões nacionais da Europa e nem todos os participantes da Uefa Europa League são os atuais campeões das copas nacionais da Europa.


Divulgação/Blog A Minha Chama
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Capa do 'Diário de Lisboa': torcida do Benfica invade o gramado para comemorar o título da Taça Latina de 1950, após a vitória do Glorioso frente ao Bordeaux na prorrogação


A inspiração na Copa Mitropa


Também vale mencionar a liga que inspirou a criação da Copa Latina. A Copa Mitropa reunia clubes da região central e oriental da Europa, mais precisamente dos países a seguir: Tchecoslováquia, Hungria, Áustria, Romênia, Iugoslávia e Itália. Realizada entre 1927 e 1940, teve oito campeões diferentes: os tchecos Sparta Praga (2 vezes) e Slavia Praga (1 vez), os húngaros Ferencváros (2) e Ujpest (2), os austríacos Áustria Viena (2), Rapid Viena (1) e First Viena (1) e o italiano Bologna (1). Em 1940, a final entre Ferencváros e Rapid Bucarest não aconteceu devido à Segunda Guerra Mundial, que também paralisou o certame.


"Nenhum outro torneio regional tinha eco e foi a Taça Latina que devolveu aos europeus, uma década depois, o desejo de ver as grandes equipes do continente a medirem-se umas contras as outras". É o que escreve Miguel Lourenço Ferreira na reportagem "Taça Latina, o último torneio oficial pré-Uefa", publicada no portal Futebol Magazine.


A Copa Mitropa ainda foi retomada em 1951, quando o Rapid Viena gritou "É campeão!", e durou até 1992, com o título do Borac Banja Luka, da antiga Iugoslávia e da atual Bósnia-Herzegovina - veja, no final dessa página, a lista com todos os campeões, tendo no topo o Vasas, da Hungria, dono de seis canecos. Contudo, com a consolidação da Copa dos Campeões Europeus, a Mitropa já não tinha mais o mesmo peso de antes. Por outro lado, durou um bocado.


O documento da Uefa sobre a história da Liga dos Campeões da Europa, publicado em 2005, no aniversário de 50 anos da peleja, cita as Taças Latina e Mitropa como precursoras do que se entende atualmente como uma competição continental de clubes.


O título do Benfica em 1950


Divulgação/SL Benfica
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Capa do jornal 'O Benfica' no dia seguinte ao suado título da Taça Latina


O Sport Lisboa e Benfica conquistou a "dobradinha" nacional e internacional em 1950. Depois de serem campeões portugueses pela sétima vez, os Encarnados ganharam o direito de jogar a Copa Latina juntamente com a Lazio, o Bordeaux e o Atlético de Madrid, respectivos vencedores na Itália, França e Espanha. Curiosamente, aquela edição foi organizada pela Federação Portuguesa de Futebol e, por consequência, sediada em Portugal, mais precisamente no Estádio Nacional do Jamor - a primeira edição, de 1949, foi abrigada na Espanha.


Na estreia, em 1º de junho de 1950, uma quinta-feira, a equipe comandada pelo inglês Ted Smith não tomou conhecimento da Lazio e venceu pela expressiva contagem de 3 a 0. Os gols foram de Rogério Pipi, Rosário e Arsênio. Naquele dia, o SLB alinhou com José Bastos, Joaquim Fernandes, Félix, Jacinto Marques, José da Costa, Rosário, Rogério Pipi, Francisco Moreira, Corona, Julinho e Arsênio.


Em 11 de junho, um domingo, o Estádio Nacional recebe a grande final entre Benfica e Bordeaux - os franceses haviam eliminado o Atleti com uma vitória de 4 a 2. O campeão lusitano foi escalado com José Bastos, Félix, Jacinto Marques, Joaquim Fernandes, José da Costa, Rogério Pipi, Francisco Moreira, Corona, Arsênio, Julinho e Pascoal. Julinho e Corona abriram 2 a 0 para os donos da casa. Doye (duas vezes) e Persillon viraram para os visitantes. Pascoal tirou o atraso e deixou tudo igual. A partida foi à prorrogação, que tinha o "gol de ouro", porém o empate persistiu.


Divulgação/SL Benfica
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Benfica entra em campo para defrontar a Lazio na estreia da Taça Latina de 1950


O título foi decidido em um segundo jogo, uma semana depois, no dia 18, diante de quase 30 mil adeptos. Logo aos nove minutos, Kargu colocou os Girondins em vantagem. Quando tudo parecia perdido, Arsênio empatou em cima da hora, aos 45 do segundo tempo. Lá foram os times para mais um tempo extra com "morte súbita". Depois de 120 minutos, o empate persistia. Recorreu-se, então, a uma nova prorrogação. E haja emoção! Julinho, depois de 143 minutos jogados, balança as redes e sacramenta o primeiro título internacional do Sport Lisboa e Benfica. José Bastos, Joaquim Fernandes, Félix, Jacinto Marques, José da Costa, Rosário, Rogério Pipi, Francisco Moreira, Corona, Julinho e Arsênio foi a formação campeã.


Esta é, até hoje, a partida mais longa já disputada em solo português.


Àquela altura, sem o ídolo Francisco Ferreira, que estava lesionado, o capitão do Glorioso era Jacinto Marques. Foi ele quem levantou o troféu e deu continuidado aos festejos da massa encarnada.


"O Sporting vence o Lille e o Atlético de Madrid, além de estar presente na primeira final da Taça Latina, perdida para o Barcelona em 1949. No ano seguinte, os jogos da competição são disputados em Lisboa, com o Benfica como representante português. Após a primeira ronda, as 'águias' disputam o troféu com os Girondinos de Bordéus, mas o resultado no final do prolongamento assinala um empate (3-3), obrigando a uma finalíssima na qual Arsénio consegue evitar em cima do último minuto o triunfo francês, ao marcar o golo que leva a um novo empate. A expectativa dos adeptos continuaria durante um prolongamento de meia hora e depois, devido à permanência da igualdade, por novos períodos suplementares de dez minutos. É só no minuto 143 da partida que, na sequência de um pontapé de canto, Julinho estabelece o resultado final de 2-1, tornando o Benfica o primeiro clube português a ganhar uma prova oficial internacional". Estas aspas são do livro História do Futebol Português (2015), de Ricardo Serrado e Pedro Serra.


Divulgação/SL Benfica
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Na partida mais longa já jogada em Portugal, o Benfica saiu vencedor e levantou a primeira taça de âmbito internacional da história do futebol do país. Ao Bordeaux restaram o cansaço e a lamentação


"O triunfo do Benfica constituiu a primeira vitória de um grupo português numa competição internacional, demonstrando que, tal como dera a entender o Sporting no ano transacto, o futebol português estava, na viragem dos anos 40 parra os anos 50,a conhecer um certo desenvolvimento que há muito tempo não vivia, após duas décadas de maus resultados e de muito pouco progresso", diz, ainda, a obra portuguesa.


Posteriormente, o SLB foi terceiro em 1956, na Itália, sendo derrotado pelo Milan (4 a 2) e vencendo o Nice (2 a 1), e vice-campeão em 1957, na Espanha, superando o Saint-Étienne (1 a 0) e sucumbindo diante do Real Madrid (1 a 0).


A tradição não se compra e a História não se nega


Reprodução/A Bola
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1950: 'A Bola' anuncia a realização da Taça Latina em Portugal


A intenção deste texto não é equiparar a Taça Latina à Uefa Champions League. Os objetivos são, sobretudo, valorizar a história do futebol europeu e comprovar a oficialidade e o peso da Copa Latina. A tradição não se compra e a História não se nega.


Das cinco equipes campeãs do torneio, apenas o Milan não lista a Taça Latina entre os seus principais títulos. Benfica, Barcelona, Real Madrid e Stade de Reims, por sua vez, seguem o caminho contrário e sublinham a grandeza desra conquista.


Quatro deles conquistaram, mais tarde, aquela que viria a ser a maior prova interclubes do Velho Mundo. Real Madrid e Milan são os respectivos primeiro e segundo colocados na fila de títulos com 12 e sete "orelhudas". O Barcelona acumula cinco taças; o Benfica, 2. Já o Stade de Reims foi vice-campeão duas vezes, em 1956 e 1959. Em virtude deste cenário, não restam dúvidas de que a Copa Latina era um torneio de alto nível e merece todo e qualquer reconhecimento.


Juntando todas as competições oficiais de futebol - incluindo a Taça Latina, obviamente -, o Sport Lisboa e Benfica tem 82 troféus, enquanto Porto e Sporting detêm, respectivamente, 74 e 48 taças. A História assim escreveu e assim continua a escrever: o Benfica é o maior de Portugal.

Fontes: Jornal I, blogs Em Defesa do Benfica e A Minha Chama, site oficial da Uefa, acervo da Biblioteca Nacional Digital do Brasil e portais RSSSFFutebol Magazine, Ser Benfiquista, Memória Virtual e Wikipédia.