Clube ligado ao Benfica, Santa Clara conquista o acesso à primeira divisão de Portugal

Divulgação/CD Santa Clara
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Após 15 anos de ausência, o Clube Desportivo Santa Clara está de volta à I Liga


Não é novidade para os benfiquistas e os demais espectadores de futebol português que a temporada 2017/2018 está sendo desastrosa para o Benfica. Felizmente ela está acabando. Por outro lado, um recente episódio certamente agradou os adeptos do maior clube português. A equipe mais popular do arquipélago dos Açores, o Clube Desportivo Santa Clara, cujo escudo se assemelha ao emblema utilizado pelo Sport Lisboa e Benfica entre as décadas de 1930 e 1990, conquistou, no último domingo (6), o acesso à Primeira Liga de Portugal.


Os Açoreanos não participavam do topo da pirâmide do futebol lusitano desde a temporada 2002/2003. Juntaram-se ao Nacional da Ilha da Madeira entre os promovidos.


Acesso à brasileira


Reprodução/Twitter
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Manchete do jornal 'Açoriano Oriental' destaca acesso do Santa Clara à primeira divisão de Portugal


Depois de 15 anos ininterruptos no segundo escalão português, os Açoreanos, enfim, retornaram à primeira divisão. O acesso foi conquistado com uma rodada de antecedência, após vitória de 3 a 0 sobre o lanterna e já rebaixado Real Massamá, no seu alçapão, o Estádio de São Miguel. O atacante brasileiro Thiago Santana (25 anos, ex-São Carlos, Caxias, Atlético de Ibirama, Figueirense, Náutico e Vitória de Setúbal) balançou as redes duas vezes. Ele é o artilheiro do time no campeonato, com 13 tentos. Quem fechou a conta na peleja foi outro atacante brasileiro, Fernando Andrade (25 anos, ex-São Caetano, Vissel Kobe, Guarani, Rio Branco de Americana, Oriental de Lisboa e Penafiel). Depois do apito final, os torcedores invadiram o gramado para festejar a tão esperada subida de divisão. E o presidente das Águias dos Açores, Rui Cordeiro, não resistiu a tantas emoções.


Passadas 37 jornadas, o Santa Clara soma 66 pontos e não pode mais ser alcançado pela Acadêmica de Coimbra, que no sábado (5) foi derrotada pelo Cova da Piedade (2 a 1, em casa), estacionou nos 63 e leva desvantagem no confronto direto - o escrete açoriano venceu por 3 a 1, em seus domínios, e por 1 a 0, na condição de visitante.


O elenco treinado pelo português Carlos Pinto se sagrou vice-campeão da Segunda Liga, pois o Nacional já acumula 70 pontos. Tem ainda um jogo por fazer, fora de casa, contra o Acadêmico de Viseu, agendado para o próximo domingo (13). A festa do acesso está marcada para acontecer após a chegada da delegação aos Açores.


Divulgação/CD Santa Clara
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O presidente do Santa Clara, Rui Cordeiro, foi às lágrimas durante as comemorações pela subida de divisão dos Açoreanos


Somando-se a Thiago e Fernando, os outros brasileiros do elenco são os zagueiros Marcelo (36 anos, ex-Corinthians, Grêmio, Atromitos de Atenas, APOEL Nicósia e Moreirense) e Accioly (37, ex-Bahia, ABC e Inter Baku), o ponta-direita Rafael Batatinha (28, ex-Bahia, Anadia, Beira-Mar, Tondela, Chaves e Gil Vicente) e o volante Kaio Pantaleão (22, ex-Ferroviária de Araraquara). A Ferrinha, inclusive, parabenizou os Açoreanos pela conquista.


Agora, a agremiação rumará à sua quarta participação na I Liga, onde esteve em 1999/2000, 2001/2002 e 2002/2003.


Nesta entrevista muito bacana à Tribuna Expresso, o técnico Carlos Pinto fala sobre a vida tranquila nos Açores. Ele não gosta de sair de casa à noite, admite que "todo mundo se conhece" por aquelas bandas e revela que a equipe treina em campos que ficam próximos a escolas. "Enquanto estamos treinando, alunos fazem Educação Física ao redor do campo. (...) Qualquer pessoa pode ver um treino do Santa Clara. Não consigo treinar à porta fechada", relata.


História ligada ao Benfica


Reprodução/Twitter
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Liga Portuguesa de Futebol Profissional parabeniza o Santa Clara pela promoção à primeira divisão


Formado em 1927 e sediado na cidade de Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel, o CD Santa Clara tem como time precursor o Santa Clara FC (de 1922) e possui em sua galeria de troféus um título da Segunda Divisão B (atual Campeonato de Portugal, equivalente ao terceiro escalão) e um da Liga de Honra (atual Segunda Liga, ou seja, segunda divisão), obtidos, respectivamente, nas temporadas 1997/1998 e 2000/2001. A presença na extinta Copa Intertoto, em 2002/2003, foi a sua única participação internacional. Naquela ocasião, os portugueses despacharam o Shirak, da Armênia, com uma vitória de 2 a 0 e um empate em 3 a 3, e foram eliminados pelo Teplice, da República Tcheca, com derrotas de 4 a 1 e 5 a 1.


Curiosamente, o endereço e o número de telefone do clube açoriano (para evitar confusão: o gentílico de quem nasce nos Açores é "açoriano", e o apelido do time é "Os Açoreanos") estão registrados nesta lista de Casas do Benfica. A data de fundação expressa no site, por outro lado, é 31 de janeiro de 1921. Diz uma teoria que a fundação do Clube Desportivo Santa Clara remonta à formação dessa embaixada de torcedores do SLB em Ponta Delgada, cidade-sede da Presidência do Governo Regional dos Açores, embora o primeiro escudo do time tenha sido... um leão. É aí que vem outra teoria: em 1935, a turma dos Açores excursionou por Portugal continental e se tornou o primeiro escrete do arquipélago a jogar naquele território, tendo, inclusive, defrontado o Benfica em um de seus compromissos. Daí pode ter vindo a ligação entre as instituições. Não é uma filiação oficial, porém não se pode negar a existência de elementos que as unem. As homenagens ao Glorioso no distintivo, nas cores e nos uniformes, portanto, não são por acaso.


E tem mais: foi justamente o Santa Clara o adversário do Benfica no último jogo do antigo Estádio da Luz, em 2003, vencido pelos lisboetas pelo placar mínimo, com gol do ídolo benfiquista Simão Sabrosa. Esta história foi contada pelo Blog Glorioso Encarnado há pouco mais de um mês.


Além da sua relação estreita com o SLB, o CD Santa Clara também é conhecido mundialmente por ser a primeira equipe da carreira do ex-atacante Pauleta, um dos grandes artilheiros do futebol mundial no final do século XX e início do século XXI. Goleador no União Micaelense, Estoril, Salamanca, Deportivo La Coruña, ele também é o terceiro maior artilheiro do Paris Saint-Germain (109 gols), superado apenas por Edinson Cavani (170) e Zlatan Ibrahimovic (156), e o segundo maior goleador da seleção de Portugal (47), atrás somente de Cristiano Ronaldo (81).


O 'bairrismo' através dos símbolos


Reprodução/Facebook
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O lateral-direito do Santa Clara, Vitor Alves, carrega a bandeira dos Açores. 'Foi a primeira vez que se viu o lateral sorrindo nesta temporada', brinca o clube em sua página no Facebook


Existe um escudo mais "moderno" ligado ao Clube Desportivo Santa Clara, com a águia e as cores da bandeira dos Açores em maior evidência. É o escudo da Sociedade Anônima Desportiva (SAD), grupo criado em 2010 e o qual visa a saúde financeira da instituição. Contudo, o emblema oficial da agremiação é aquele inspirado no Sport Lisboa e Benfica.


A mascote, a águia, não está relacionada somente à ligação com o clube mais vitorioso de Portugal. Ela também está inserida na bandeira da Região Autônoma dos Açores. O arquipélago de nove ilhas (Corvo, Flores, Faial, Graciosa, Pico, São Jorge, Terceira e Santa Maria, além da São Miguel, onde está o CD Santa Clara) é um território autônomo da República Portuguesa e tem pouco mais de 246 mil habitantes. O padroeiro do povo açoriano é o Senhor Santo Cristo dos Milagres.


Devido à sua localização no globo, os Açores têm duas horas a mais do que o fuso oficial de Brasília. Como a Europa atualmente se encontra no regime de Horário de Verão, a diferença aumenta para três horas.


A distância para Lisboa, conforme o Google Maps, é de 1.446 km. Consequentemente, está por vir uma viagem um pouco cansativa - comparando-se às que as equipes brasileiras fazem no Brasileirão - para os times de Portugal continental. E várias viagens para a delegação a qual representa o orgulho de uma região geograficamente distante. Para o Benfica e para o Santa Clara serão duas ocasiões especiais: na capital federal e no arquipélago da região nordeste do Oceano Atlântico, os encontros entre o "criador" e a "criatura".