A 'El Gráfico' acabou e, com ela, minha infância se foi

O anúncio do fim da revista 'El Gráfico' se tornou, rapidamente, um filme na minha cabeça. Não digo que em preto e branco, mas com cores pastéis desgastadas pelo tempo. E digo isso pela minha memória, de alguém com 30 anos de idade, e não na vida dela, que estava por cumprir seu centésimo aniversário.


A revista foi uma companheira futebolística importante em minha vida. Obviamente que qualquer torcedor que tenha gostado de futebol na era pré-internet também deve ter uma relação qualquer com revistas, jornais ou enciclopédias, mas a 'El Gráfico' me alimentou, me matou a sede pelo jogo e pela torcida.


Quando era ainda um pendejo em São Paulo, ela era meu contato mais próximo com o Boca. Na época, até mesmo contatos por telefone eram mais dificeis, então, tirando os jogos realmente de grande importância, em que eu falava com meus primos em Tucumán, eu vivia no presente os resultados do passado. Meu viejo me trazia a revista uma semana e meia depois de ser publicada. E era assim, mais ou menos dez dias depois, que eu comemorava as vitórias xeneizes. A vibração com punhos fechados e a admiração pelas fotos. Na perede do quarto, um pôster do Batistuta, com a camisa da Selección e a frase em letras amarelas que dizia 'El Nombre Del Gol'. Do outro lado, o pôster enquadrado em moldura azul e amarelo, a foto de uma Bombonera lotada.


Arquivo pessoal
Arquivo pessoal


Com o passar do tempo, tinha pilhas da revista no meu quarto. Nem dava mais para contar. Mas depois vieram outras mudanças. Diferentes cidades, países e continentes. Tive que aprender a viver sem elas. E por mais que não precisasse (nessa época já estava conectado a tudo pela internet), guardei duas delas. A do nosso melhor ano na história. Essas eu carrego comigo para onde for. Mesmo que eu tenha em minhas mãos um smartphone para ver absolutamente tudo o que preciso.


Hoje em dia, garotos, adolescentes e também nós, os que já desfrutavam do jogo no século passado, admiram os clubes e jogadores por outros motivos. A roupa do Neymar, o tênis colorido de Cristiano Ronaldo ou o diferente corte de cabelo do Pogba. O contato é diário. É pelo Facebook, pelo Instagram, pelo Twitter. A 'El Gráfico' me mostrava algo mais simples. Um 'Mono' Navarro Montoya com sua camisa de jogo colorida (típica dos anos 1990) ou uma foto do gol de Manteca Martinez com chuteiras pretas e sua comemoração escandalosa. Não haviam vídeos. Era o resultado, a escalação, o relato, as fotos. E todo o resto era imaginação de criança. Eu não queria me vestir na moda como um jogador, eu queria ser ele quando jogava bola com meus amigos.


O fim da revista marca, de certa forma, o fim de como eu vi e vejo futebol. São outros tempos. Não falo de saudosismo, mas de como o futebol que eu vivia ficou em algum lugar no passado. As memórias ainda guardadas eram, talvez, as últimas memórias que eu tinha quando criança. É como ter guardado até hoje o meu primeiro par de chuteiras ou os meus antigos times de futebol de botão.


O futebol, assim como a vida, é muito mais bonito quando visto pelos olhos de uma criança.


A 'El Gráfico' acabou e com ela minha infância se foi.


Gracias por tanto!