Tévez e Riquelme: de que são feitos os ídolos

Dificilmente exista um fanático por futebol que não teve um ídolo. Faz parte do imaginário infantil se tornar, quando crescer, o craque que você vê na televisão ou no estádio. Numa época em que metade das crianças do mundo tem Messi ou Cristiano Ronaldo como expoentes deste sentimento, eu fico ainda com aqueles que preferem os ídolos que vestem a camisa de seu time ou de sua seleção. Eu, por exemplo, tive como primeiro ídolo Batistuta. Seus gols eu vi por meu clube e minha seleção, e não apenas com uma outra camiseta na qual não tenho nenhum tipo de identidade.


E mesmo sendo o camisa 9 e deixando o cabelo crescer para jogar bola com os amigos, foi já na adolescência que veio a maturidade no futebol. E ali começaram, de fato, as minhas opiniões próprias com relação a tudo o que cerca este assunto. Desde então, Juan Román Riquelme é aquele por qual eu 'brigaria com a família'. 


O Boca é, de fato, um clube cheio de ídolos. De Ratin a Maradona, Giunta a Guillermo. Palermo, Román, Carlitos. Cada um tem o seu preferido. Ainda assim, costumo dizer que ninguém é maior que o Boca. Mas no Boca ninguém é maior que Riquelme.


Reprodução/So Foot
Reprodução/So Foot

Indiscutível: Riquelme é o maior jogador da história do Boca


Recentemente, Tévez deu entrevista dizendo que sofre as mesmas perseguições que o dono da camisa 10 sofria. As culpas pelos maus resultados, os olhos da mídia e tudo o que pode ter de desagradável. Mas a verdade é que Tévez não tem nada a ver com Riquelme.


Quando, na época, subiu para o time principal do Boca, o ex-craque foi abraçado e adotado por Román. Este o levava pra comer, presentava-o com chuteiras e o protegia. E foi assim que Tévez herdou a idolatria quando Riquelme foi para o futebol europeu. Chamado de Jugador del Pueblo, sua cara feia, queimaduras e histórias tinham muito da identidade bostera. Era a caricatura real de um torcedor do Boca.


Mas os tempos mudam. Tévez se tornou aquilo que Riquelme nunca foi. Do alisamento de cabelo a suas partidas de golfe. De falar que o dinheiro não trás felicidade aos milhões do futebol chinês. Em meio a isso, declarações de que a melhor coisa seria construir um novo estádio no lugar de La Bombonera, apontamentos contra outros jogadores do plantel e uma vida de bon vivant. Nada contra. Ele pode usufruir do dinheiro que ganhou. Mas parece ter se tornado um garoto-propaganda do macrismo.


Prensa Boca Juniors
Prensa Boca Juniors

Ídolo e campeão de tudo, Tévez é um fantasma do que já foi


Enquanto isso, Román nunca mudou. Desde a sua primeira aparição, segue sendo o rapaz que vive no mesmo local - Don Torcuato -, sempre com os amigos de infância em um bairro simples, que acredita num futebol para povão e que La Bombonera é intocável. Entende a identidade xeneize mais do que qualquer um.


Tévez não é mais Carlitos. De jogador do povo, já não tem nada. Em campo, é apenas um fantasma do que já foi. Como  alguns dizem, um villero europeizado.


 

Existem dois tipos de ídolos hoje. E eu ficarei sempre com Riquelme.