Palmeiras 1-1 Boca: só o grito de gol importa

Ser torcedor visitante na Libertadores é a maior experiência que um torcedor de futebol pode ter. Estive em jogo de Copa do Mundo, de Champions, do que você quiser. Eu te garanto. Há quatro anos vivo em Porto Alegre e assim que os grupos foram sorteados comprei minha passagem para São Paulo. E muitas outras coisas acontecem depois disso. O pedido de folga no trabalho, a tentativa (quase sempre exaustiva) para comprar ingressos, a polícia que busca confusões, o ambiente hostil que nos aguarda. E é isso tudo que faz ser tão maravilhoso.


Estar com os amigos que compartem a mesma paixão te motiva a estar ali. Nunca é pelo resultado. É somente por estar ali, por fazer parte. A cerveja, o Fernet, toda a prévia que envolve esse tão esperado momento.


A festa fora do estádio é linda e genuína. E ali não existe apreensão, pois a bola sequer rolou no meio campo. É festa por paixão, por amor, por ser o que somos.


Prensa Boca Juniors
Prensa Boca Juniors


Dentro do estádio, a surpresa da gaiola. Não tentem ser europeizados. Impossibilidade de bumbos, de faixas, de trapos, de tudo o que pode representar uma festa, uma cultura e uma devoção nos foi tirado. Mas quando se paga R$ 200,00 para não se ver o jogo, fundamentalmente temos um problema. Porque a cada movimento no campo, nossas cabeças se movimentavam junto, pois os ferros da parede de acrílico instaladas pelo Palmeiras, mal nos permitiam ver tudo o que acontecia. A tentativa era de abafar nosso grito, nossa festa, mas nos tirou o direito de ver algo pelo que pagamos. Foi tudo péssimo. Foi a pior experiência que tive num estádio de futebol. E olha que fui em vários, em diversos países.


No final das contas, eu e muitos ali, não queríamos saber disso. Gritávamos mais para que os jogadores nos escutassem. Os acrílicos viraram os bumbos que não podíamos levar. A polícia não queria, mas uma hora desistiu de impedir. E ai veio o gol. O deles. Aos 45. A explosão foi do lado de lá. Era injusto. Pelo que aconteceu em campo, pelo tratamento dado, por tudo.


A bola esticada na esquerda, o avanço de Pavón e no toque de Tévez, uma parada no tempo. Um silêncio na alma. A bola que bate no travessão, lá do outro lado do estádio, com uma visão turva e sem sentido. Por um segundo não foi gol. Por um segundo a bola bateu na barra branca e saiu. Mas Carlitos correu. Foi gol. E dessa vez foi nosso. O grito que explode pela garganta, que faz doer a cabeça. O mesmo que te deixará sem voz no dia seguinte. O momento em que um abraço forte no seu amigo é dado como poucas vezes na vida e quando um estranho parece ser um companheiro de guerra. É para isso que vive o torcedor. Porque nem o grito de campeão é tão intenso como um gol aos 48 minutos do segundo tempo. Absolutamente tudo valeu a pena por aqueles segundos de loucura extrema. É o orgasmo do futebol.


Foi só um empate. Foi só o terceiro jogo da Copa. Com uma visão de mierda. Com um tratamento terrível. Mas, no fim, em meio a tantos absurdos, nada disso conta.


Só o grito de gol importa.