Mislintat de saída é o início do fim de um ciclo no Borussia

Parece que Sven Mislintat, olheiro chefe do Borussia Dortmund, está a caminho do Arsenal. Pedido de Arséne Wenger, deixa o clube após uma década de serviços prestados e muitos talentos descobertos. Mas o movimento estranho poucos meses depois da renovação de contrato levanta questões sobre o que está acontecendo internamente no Borussia.


Se dentro de campo o Borussia Dortmund perdeu seus principais destaques, fora dele é preciso olhar para os últimos anos e perceber que o clube perdeu toda a estrutura que serviu de suporte para o ressurgimento do time. Em três anos, saíram Jürgen Klopp, David Wagner, Hannes Wolf, Daniel Farke e Thomas Tuchel, conjunto de técnicos que, discutivelmente, foram responsáveis pela última década de sucesso nos gramados. Sven Mislintat é mais uma peça que se vai.


Getty Images
Getty Images

Discreto, Mislintat se tornou um dos melhores olheiros da Europa


Ainda nesse sentido, acho necessário analisar com cautela o crédito que Mislintat recebe por um período em que todas as engrenagens funcionaram no Borussia. Quero dizer, não é à toa o status de all-star que o olheiro adquiriu, mas o sucesso não se fez sozinho. Por vezes é fácil dar crédito a quem no final do dia não tem a missão, nem responsabilidade, de tomar as decisões mais difíceis.


O papel de Mislintat nos últimos anos foi observar, compilar relatórios, indicar caminhos possíveis para os técnicos e diretoria. Se atualmente o elenco é desequilibrado e carente em diversas posições, então parte da culpa deve também recair sobre o olheiro chefe. O problema é que não sabemos exatamente o que Sven faz no dia-a-dia, não se trata de uma figura pública e não está na linha de fogo quando algo dá errado.


Justamente por não ser quem toma as decisões, não recebe as críticas quando algo dá errado. Quanto às muitas contratações que deram certo, porém, recebeu os créditos da descoberta. Creio que tem merecimento pelo que fez, mas são dois pesos e duas medidas que de certa forma blindam Mislintat do escrutínio do torcedor e da imprensa. E isso não é pela vontade de defender ou ataca-lo, mas essencialmente por não ser possível uma análise crua dos fatos.


O fato de que a cúpula mais alta do Borussia Dortmund sempre bancou suas decisões - e indicações - também explica um pouco do processo que o levou a esse status de estrela. O clube barrou pelo menos meia dúzia de avanços de outros clubes que tentaram sua contratação nos últimos anos, criou uma nova cultura e deu ao alemão um contrato acima da média para o cargo. Para o futebol do clube, o papel do olheiro chefe se tornou cada vez mais estratégico.


Getty Images
Getty Images

Mislintat ao lado de Matthias Sammer, que recentemente deixou o Bayern e é um dos cotados para substituí-lo no Dortmund


É esse cenário de crescimento interno e ganho de importância para a cultura do clube, muito mais do que bons reforços, que fazem da saída de Sven Mislintat uma grande perda para o Dortmund. E, sinceramente, é também um movimento estranho. Sven ficou no Borussia mesmo tendo recebido ofertas para ser diretor esportivo em outros clubes (o Stuttgart é um deles) para poucos meses depois fazer um movimento lateral (continuará como olheiro chefe) para o Arsenal. No mínimo questionável.


Não consigo me desfazer da impressão do início do texto: o ciclo está se encerrando no Borussia Dortmund. Mislintat ganhou a queda de braço com Tuchel após públicos e conhecidos desentendimentos quanto a estratégia de contratações, assinou um novo contrato e agora deixa o clube. Me parece que a era Hans-Joachim Watzke e Michael Zorc está saturada. No fim das contas, pode ser uma perda notável, mas quem sabe até mesmo necessária.



Curta a página do blog Muralha Amarela no Facebook


Siga @muralhaamarela e @wpaneque no Twitter



Descoberta de Kagawa e a história contada pela metade. É inegável a grande série de descobertas que Mislintat fez desde que chegou ao Dortmund, no entanto tudo começou quando tirou Shinji Kagawa da segunda divisão japonesa. E essa contratação, que o próprio olheiro admite ter sido o que alavancou sua carreira e lhe deu espaço no Dortmund, tem um pouco de romancismo demais.


Mislintat de fato descobriu Kagawa no Japão, enquanto atuava no Cerezo Osaka. Com seis viagens ao país asiático, assistiu cerca de dez partidas do meio-campista, então com 21 anos, e voltou decidido de que o clube precisava comprá-lo por 350 mil euros. Mas diz a lenda que o reforço chamou a atenção do olheiro como um meia-esquerda que poderia ser usado como um lateral invertido (Shinji é destro).


Como todos sabem, Kagawa não tem nada de meia-esquerda, muito menos lateral-esquerdo invertido. Klopp viu ali um grande playmaker e transformou o camisa 23 em um grande número 10, mas, segundo reza a lenda, totalmente contra as orientações de Mislintat. É nesse sentido que digo que é preciso cautela quanto ao crédito que é dado ao descobridor de talentos, afinal, no fim do dia quem faz e desenvolve o talento é, principalmente, o técnico.


O fato é que Kagawa vingou, foi vendido para o Manchester United anos depois por mais de 15 milhões de euros, o Dortmund foi campeão e lucrou horrores. Enquanto isso, Mislintat ganhou respaldo e foi nomeado olheiro chefe. Todos saíram ganhando nessa história, mas nunca saberemos de fato o real papel de cada um.