América-MG 1-0 Botafogo: negação ofensiva

Nas últimas semanas, parte da torcida pediu insistentemente a volta do esquema com "três volantes". Embora o time de Jair Ventura tivesse Bruno Silva como extremo, a maior parte da arquibancada não consegue enxergar um simples desenho tático - e, dessa forma, vê algum potencial nesse esquema.


Eu, não. Embora seja grato ao estilo defensivo dos últimos dois anos, não quero mais passar por um parto a cada gol marcado. A partir de 2018, quis sempre ver o time sabendo trabalhar a bola no campo de ataque, criando volume de jogo e, como consequência, tomando um gol ou outro lá atrás. É do futebol.


No entanto, hoje, o Botafogo conseguiu os dois. Valentim errou na escalação; embora tenha qualificado a saída de bola e povoado melhor a nossa intermediária, tão exposta contra o Fluminense, acabou recuando o time para o campo de defesa. Ao jogar longe do gol adversário, ficou quase impossível vencer - mesmo que o jogo, pasmem, seja contra o América de Minas, e não contra o Barcelona. 


Mourão Panda / América
Mourão Panda / América

Jogo teve diversos momentos de disputas emboladas


Bochecha, Lindoso e Matheus não têm, por característica, uma boa chegada ao último terço do campo. Com as atuações apagadíssimas de Renatinho e Luis Fernando, os responsáveis por municiar nosso combalido sistema ofensivo, o Alvinegro praticamente abdicou de vencer e pontuar fora de casa. O gol, sofrido já na reta final do confronto, foi um castigo merecido. 


Valentim precisa decidir se seguirá os passos de Jair, se fechar na defesa e esperar por uma bola milagrosa para vencer ou se implantará o futebol de posse de bola, ofensivo e criativo que dava indícios lá atrás. Atualmente, ele está confuso e eu, impaciente. Não dá para sentar nessa indefinição enquanto o difícil Brasileirão passa frente aos nossos olhos. 


Hoje, somos um time de meio de tabela. Por investimento, por qualidade ou por padrão de jogo, estamos na zona morta. A retranca pode até, com um pouco de sorte, nos levar longe, como mostrou a trajetória que nos levou do Z4 às quartas da Libertadores; no entanto, não nos dará o que precisamos. Taças só vêm com defesas bem postadas e ataques que agridem com qualidade de passe e finalização. O resto fica no quase. 


Enquanto não merecermos sequer vencer o América fora de casa - com todo o respeito ao Coelho, que tem um time honesto e batalha dentro de suas possibilidades - jamais poderemos sonhar com títulos. E disso a torcida já está de saco cheio. Sonhar com dias melhores não nos enche mais os olhos; precisamos conseguir, ao menos, enxergá-los no horizonte. 


Notas


Jéfferson: 6
Mero espectador, apenas participou para subir e interceptar cruzamentos. Sem culpa alguma no gol. 


Marcinho: 6
Fechou bem o lado direito, mas não teve o mesmo bom aproveitamento de outros jogos nos cruzamentos. 


Joel Carli: 6,5
Lutou em bolas rebatidas na área e cortou quase todas. Tentou lutar no ataque, mas sem ser efetivo. 


Igor Rabello: 5
Vinha bem nos cortes, até ser infantilmente driblado por Rafael Moura na entrada da área. Ao dar o bote errado, ainda abriu o espaço para a infiltração de Juninho. Ali, desenhou-se o caminho para o gol do jogo. 


Gilson: 4
Conseguiu deixar uma avenida sem sequer ser presença notada no campo de ataque. Onde será que ele estava, afinal?


Rodrigo Lindoso: 6
Bem postado na intermediária, preencheu alguns espaços visíveis no último jogo. Bem nos passes e lançamentos, tentando encontrar alguma alma viva no campo de ataque.


Gustavo Bochecha: 6,5
Qualificou bem a saída de bola, girando o jogo de um lado para o outro e buscando encontrar infiltrações dos extremos. A falta de presença ofensiva prejudicou o seu jogo vertical. 


Matheus Fernandes: 6
Bem nos desarmes e interceptações. Faltou chegar mais à frente, aproveitando os espaços na intermediária adversária. Dos três, é o único que esboça boas chegadas ao ataque - mas não o suficiente para criar algum padrão ofensivo.


Luis Fernando: 4,5
Na única boa participação, driblou o lateral e deixou o centroavante em condições de marcar. Deveria ser hábito, e não exceção; no restante do jogo, errou demais e foi displicente em todos os lances. Precisa jogar mais ligado e ter mais poder de decisão.


Renatinho: 4
Novamente apagadíssimo. A chance de gol perdida foi o menos pior, por incrível que pareça; criou um total de zero jogadas no ataque, sendo facilmente interceptado ou desarmado. Precisa recuperar seu futebol do Paraná o quanto antes.


Brenner: 5
Passou o jogo todo sem encostar na bola. Quando ela chegou, perdeu um gol a 2 metros da baliza. Para um centroavante, isso é imperdoável.


Kieza: 5
Terminou de sepultar as chegadas pelo lado esquerdo. Nitidamente deslocado jogando aberto, definitivamente não é a dele. Espero que o técnico tenha enxergado.


Aguirre: 6
Deu um pouco mais de movimentação e mobilidade ao ataque, puxando por alguns minutos o time para o setor ofensivo. Mostrou boa movimentação, mas ainda bastante sem ritmo, o que é normal para o tempo de inatividade. Parecia desesperado com a distância do resto do time para a área e, em alguns momentos, voltou até a linha de meio de campo para buscar a bola. Em condições de jogo, não deve ter trabalho para tomar a vaga. 


Moisés: 6
A substituição aleatória do jogo. Precisando ir para cima, Valentim escolheu trocar laterais - depois de aturarmos o Gilson errando por quase 80 minutos. 


Alberto Valentim: 4
Após um excelente começo no Botafogo, com personalidade e futebol ofensivo, parece estar confuso quanto às idéias que quer implantar no time. Hoje, recuou demais as linhas e nos fez lembrar os tempos de Everest. Não pode insistir em erros bobos como Gilson titular com Moisés no banco e Kieza jogando aberto e marcando lateral. João Pedro e Leandrinho, por exemplo, precisam de mais espaço. 


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