Botafogo 0-0 Ceará: sete pecados capitais

Frequento assiduamente o Estádio Nilton Santos desde 2007, ano de sua inauguração, quando ainda se chamava apenas Estádio Olímpico João Havelange. Já vi grandes jogos, outros não tão bons assim; no entanto, ruim como o desta noite de quarta-feira, foram pouquíssimos. 


O empate contra o fraquíssimo Ceará, que só não saiu com uma vitória devido à total ausência de qualidade em seu elenco, voltou a escancarar os pontos fracos do time de Alberto Valentim. Foram inúmeros erros cometidos, dos quais conseguimos destacar os sete principais:


1. A escalação


Tudo começa pelo time que Valentim colocou em campo. Demonstrando não fazer a menor ideia do padrão que quer estabelecar, o técnico variou novamente a escalação e mudou algumas características. Para se criar alguma identidade, antes de escolher as peças, é preciso definir as funções. Com um bando correndo de um lado para o outro, sem um mínimo de organização tática, as coisas já se complicaram antes do apito inicial.


2. A saída de bola


Desde a lesão de João Paulo, o Botafogo tem sérias dificuldades na transição defesa-ataque. No entanto, na noite de hoje, com Matheus Fernandes no banco, a atuação no primeiro terço foi sofrível. Desde Jéfferson forçando saídas desnecessárias no tiro de meta até os zagueiros tentando lançar bolas de uma área à outra, o time demonstrava não ter ideia do que fazer com a redondinha.


3. A falta de compactação


Em qualquer time do Brasil é possível ver, ainda que sem qualidade alguma, algum esboço de futebol. Toque de bola, aproximação, tabelas, triangulações e afins; o tão falado "jogo apoiado". No Alvinegro, todos tentam resolver sozinhos e sempre distantes uns dos outros. Não há diálogo, não tem o simples "um-dois", nada. Onde foi parar a compactação do Botafogo?


4. Criatividade zero


Algo que já vem martelando em nossas cabeças nas últimas rodadas, mas que hoje, assim como diversos outros erros, ficou cristalino aos olhos de qualquer leigo: o Bota rodava a bola de um lado para o outro sem saber muito bem o que fazer. Buscava um espaço milagro que aparecesse sem nenhum esforço como uma infiltração, uma corrida em diagonal ou um passe mais caprichado que encontrasse alguém livre dentro da área. Vale lembrar que estamos falando do Ceará, dono da terceira pior defesa e o pior saldo de gols do torneio.


5. Afunilamento


Antes acostumado a abrir o jogo e buscar as jogadas pelas laterais, o Glorioso tem afunilado demais o jogo diante da má fase dos dois laterais e a inoperância dos extremos. Marcinho vem de uma série de más atuações ofensivas e Moisés ainda não reencontrou seu futebol após a lesão - foram os dois jogadores que mais irritaram a torcida. Estamos congestionando a intermediária e facilitando o trabalho dos adversários. Até mesmo as faltas perto da área são frontais. 


6. Funções mal definidas


Kieza, Aguirre, Valencia, João Pedro, Renatinho, Brenner. O que todos esses nomes têm em comum? Já foram testados em mais de uma posição diferente. Sem sequência de jogos, sem funções bem definidas, sem o menor padrão de jogo. Antes de tudo, Valentim precisa desenhar o que espera de cada posição do meio para a frente e, a partir daí, listar os jogadores disponíveis para cada uma delas de acordo com suas características. Abrir Kieza e Aguirre como extremos, por exemplo, é um absurdo. 


7. Finalizações


Nas poucas vezes em que finaliza a gol, o Botafogo tem péssimo aproveitamento. Chutes muitas vezes despretensiosos, sem mira ou sem força. Para um time que tem criado pouco, é preciso ser eficiente na hora de bater em gol. O único que demonstra alguma precisão é Aguirre, que, curiosamente, tem jogado cada vez mais longe do gol adversário.


Vítor Silva/SSPress/Botafogo
Vítor Silva/SSPress/Botafogo

Luiz entrou no segundo tempo e foi bem, mas não o suficiente


Esses são apenas alguns dos defeitos nítidos do nosso time. Preocupa o fato de Alberto Valentim treinar o time e não conseguir evoluir em nenhum aspecto - mesmo nos mais básicos, como definir posicionamento e função de cada atleta. O tempo está passando, um quarto do campeonato já ficou para trás e estamos, novamente, como um barco à deriva. 


O próximo jogo é contra o Bahia na Fonte Nova. Como ainda não vencemos fora do Rio de Janeiro e o time nordestino tem um bom retrospecto como mandante, a previsão não é muito otimista. No entanto, conhecemos o Botafogo; é nessas horas que ele costuma nos surpreender. Vamos torcer!


Notas


Jéfferson: 6,5
Duas boas defesas quando exigido. No mais, assistiu o jogo. 


Marcinho: 2,5
Pavoroso, errou praticamente tudo o que fez. Marcou mal, deixou espaços e não teve qualidade nas chegadas à frente. Errou domínios fáceis e até caiu sozinho. Atuação desastrosa. 


Joel Carli: 6
Firme nos desarmes, não teve muito trabalho. Saiu machucado no decorrer do segundo tempo. 


Igor Rabello: 7,5
Muitos cortes por baixo e pelo alto, principalmente na reta final do jogo, quando o Ceará teve diversas chances de contra-ataque. Evitou o pior. 


Moisés: 4
Resguardou-se na defesa durante o primeiro tempo. Sua falta de confiança para partir para cima irritou a torcida. No fim, se mandou para o ataque e não voltou mais, deixando a zaga em apuros pelo nosso lado esquerdo. Ainda não se encontrou após a lesão.


Jean: 8
Em um jogo de pura transpiração, não poderia ser outro o melhor em campo. Várias roubadas de bola e boa proteção à entrada da área. Precisa caprichar mais nos passes e evitar as faltas bobas. 


Rodrigo Lindoso: 3,5
A personificação da burocracia. Só toques para o lado e para trás. Daria um bom jogador de rugby. Tem se omitido cada vez mais na saída de bola. Não pode ser titular, muito menos capitão do time. 


João Pedro: 4
Esteve em campo? Teve pouco tempo em campo até aqui, mas ainda não justificou a contratação - e nem a titularidade. 


Leo Valencia: 6
Correu, buscou o jogo e ajudou com desarmes. No entanto, não foi criativo a ponto de deixar os companheiros em condições de marcar. 


Aguirre: 5,5
Muita disposição e pouca produtividade. É um crime colocá-lo para jogar tão longe do gol. A principal contratação da temporada está mais preocupado em marcar laterais - muitas vezes deixando espaços perigosos, pois não tem cacuete algum para tal - ao invés de produzir no ataque. Precisa jogar como "9" urgentemente.


Kieza: 5
Sem receber bolas, ficou correndo de um lado para o outro - basicamente como fez todo o time. É voluntarioso, mas sua titularidade absoluta, seja como centroavante ou como ponta, não tem explicação. 


Renatinho: 6
Entrou e deu mais movimentação ao meio, tentando fazer a bola rodar e abrindo o jogo pelas laterais, mas seguiu a maré do time.


Yago: sem nota
Entrou na vaga de Carli, lesionado, e saiu de um choque com o goleiro diretamente para o hospital. Torçamos para que não seja nada grave.


Alberto Valentim: 3
Seu time só regride. Quanto mais treina, pior fica o futebol. Vem cometendo erros bizarros, como os citados ao longo do texto. Demora para mexer, escala jogadores em funções erradas e põe me risco os resultados. Começou muito bem, mas vem deixando muito a desejar. Precisa acordar antes que seja tarde - para ele e para o Botafogo. 


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