Cartas da terra de Condá #4 - O telão que nos une

 

Hoje encontrei o texto que eu escrevi no dia 8 de novembro de 2013, quando completou um ano desde o acesso da Chapecoense à Série B. Como muitos chamam, o acesso primordial. Guardo o 8 de novembro de 2012 em um lugar especial da memória, e lembro dele em detalhes - das pessoas que ali estavam e de quem era a Chapecoense naquele ano. Guardo para sempre. E por mais contraditório que pareça, guardo a ansiedade sufocante daqueles dias com amor e saudade.


No último post, falei um pouco sobre o clima que se criou na primeira partida, em Chapecó. Mas hoje, quando encontrei o que escrevi para o antigo Gol da Chape, pude me transportar de volta àquele fim de tarde modorrento na Praça Coronel Bertaso. Lembrei das pessoas com quem estava, dos abraços e do quanto era pesada a faixa que carregamos avenida acima e abaixo por algumas horas - "somos mais que 11", essa aí da foto mesmo. Mas, acima de tudo, lembro ter sido esse o jogo que me deu a real dimensão do quanto a nossa torcida já era "de time grande" muito antes de se falar (seriamente) em Série A por aqui.



... estávamos de coração na mão. A Chapecoense jogaria em Lucas do Rio Verde/MT, quase dois mil quilômetros longe de casa. Era a etapa final da série C. O formato da competição já havia nos castigado antes, nos deixando de fora de classificações por apenas um gol. [...] Chapecó estava pintada de verde e branco. Em toda a cidade, o sentimento de ansiedade ganhava forma: bandeiras, balões, faixas, centenas de camisas pelas ruas. Nos bares, nos bancos de praça, nas filas de banco, a apreensão era uma só. Sobe? Não sobe? E se subir? E se não subir?


... nos reunimos na Praça Coronel Bertaso como em um ritual. Éramos milhares, éramos um só. Alguns carregavam cadeiras, coolers recheados de cerveja, radinhos, qualquer coisa que aliviasse a tensão. O diretor da RBS, Mauro Sérgio Vanin, mandou instalar um grande telão, e para arrasar de vez com nosso coração, a transmissão iniciou apenas dois minutos antes do início da partida. [...] Dado Cavalcanti, técnico do Luverdense, encheu o campo de atacantes que não conseguiram criar muitos lances perigosos, tanto é que chegaram ao gol apenas no final do jogo, com um pênalti do nosso grande Fabiano. Dão, nosso atual zagueiro, também contribuiu com nosso acesso, fazendo uma falta em Henrique (lembram dele?) e sendo expulso. Como agradecimento, Dão foi recompensado pela Chapecoense com sua contratação, alguns meses depois. Havíamos vencido a primeira partida por 3 x 0, com gol de Jô, Henrique e o contra de Julio Terceiro.


... o centro de Chapecó explodiu em comemoração. Toda buzina era pouca, todo foguetão falava baixo, todo grito ainda não era capaz de expressar o suficiente. A vaga na série B era merecidamente nossa, ninguém seria capaz de nos tirar. Estávamos oficialmente entre os 40 melhores clubes de futebol do Brasil. [...]



Quando encontrei esse texto, resolvi contatar o então diretor da RBS local, que foi a responsável pela transmissão e exibição da partida. Eu sempre soube que Vanin havia sido uma peça fundamental na realização desse momento da torcida, mas não sabia como tudo tinha acontecido. Se no dia 8 de novembro de 2012 tive uma prova do que é união e unidade, no dia 8 de novembro de 2017 recebi uma prova do que é comprometimento e identificação.


O motivo é simples, e de forma alguma desmerece ou diminui a dedicação dos demais veículos que cobriam a Chapecoense na época, obviamente. A questão é que a RBS tanto não tinha obrigação de transmitir o jogo contra o Luverdense, quanto não detinha os direitos sobre a Série C. 


"Quando soubemos que o jogo de volta seria fora de Chapecó e que não haveria transmissão, houve um grande clamor na comunidade, pois todos queriam acompanhar o time neste momento histórico. Procuramos as empresas que detinham os direitos de transmissão, buscando alternativas e a viabilidade de liberar à RBS a possibilidade de uma transmissão. Foram envolvidas as empresas com os direitos, os presidentes do clubes, as federações Catarinense e Mato-grossense e a CBF", lembra Vanin.


A negociação durou dias e precisou de parcerias com a iniciativa privada, para o envio de uma unidade móvel até Lucas do Rio Verde, uma equipe de reportagem no jogo com link para Florianópolis, de onde seria narrado e comentado via TV COM, e aí sim transmitido em Chapecó. Além, é claro, da conversa com o poder público para apoiar os trâmites necessários. E para aumentar ainda mais a carga emocional do jogo, a confirmação de que haveria um telão na Praça Coronel Bertaso só aconteceu 24h antes do apito inicial que, inclusive, quase não se viu: a conexão com a equipe que transmitia só foi estabilizada alguns minutos antes do jogo.


Cerca de cinco mil pessoas assistiram juntas ao acesso que aconteceu a dois mil quilômetros de distância de Chapecó. 


Numa quinta-feira, às 19h.


Com chuva.


Leandro Coradi/Arquivo pesssoal
Leandro Coradi/Arquivo pesssoal

Marcelo, Augusto, Leandro, Mari e eu - ao que me cabe, todos com os braços doendo.


No fim da entrevista, Vanin lembrou da correria que foi o intervalo do jogo, quando começou a chover forte e foi preciso apoio do Corpo de Bombeiros para cobrir o telão e manter a transmissão no ar. Ele ainda agradeceu a confiança do povo de Chapecó. No fim de sua fala, como se já tivesse lido o rascunho desse texto, para finalizá-lo da melhor maneira, Vanin disse: "foi um momento que se guarda para sempre!".