Cartas da terra de Condá #6 - O Palmeiras e nós

Eu nunca tive medo da Chapecoense ser rebaixada. Nesses quatro anos de Série A, vimos o rebaixamento de perto e vimos muita gente no Brasil todo apostar nisso. Por muitas vezes, cheguei a sentir que a primeira divisão não nos pertencia - e confesso que esse sentimento ainda bate quando vejo o quanto o rebaixamento nacional interfere definitivamente na vida de muitos times “grandes”. Mas sempre foi muito claro para mim que quando fosse nossa hora, saberíamos lidar. Saberíamos o que fazer.


Sempre falo de como a Série B de 2013 foi um momento incrivelmente especial. A Chapecoense havia lutado muito para estar ali e prometia falar muito sério na competição. Presenciamos jogos históricos dentro da Arena Condá. Da arquibancada, assistimos Bruno Rangel se tornar o maior artilheiro da Série B, Rafael Lima se consagrar o xerife do time e Nivaldo realizar defesas que só ele conseguia. Tivemos onze vitórias, sete empates e só uma derrota. Sofremos, e não pouco, com o mau tempo, com um aeroporto que fechava ao menor sinal de tempo feio, e com times que não se encorajavam a descer à nossa humilde Silent Hill. Enquanto isso, fora de casa, em 33 mil quilômetros rodados para cumprir um calendário muitas vezes ingrato, foram nove vitórias, cinco empates e cinco derrotas. Tudo praticamente sem sair dos arredores do G4.


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Vimos a Chapecoense, no final da competição, se enveredar por um caminho de empates e derrotas que nos deixaram de cabelo em pé, temendo que o acesso fosse postergado por um ano. Mas também presenciamos a diretoria do clube e a comissão técnica pegando firme com a equipe, baixando a cabeça e trabalhando duro, garantindo que todo esforço fosse o maior possível.


Isso tudo tornava ainda mais intenso aquele final, coroado pelo acesso conquistado contra o Paraná Clube, em Curitiba, e confirmado em Chapecó, em um jogo contra o Bragantino (que precisou da interferência do juiz para que os times jogassem, pois o empate beneficiava a ambos). Um acesso visto do alto do antigo busão do clube, para quem entende a referência. E comemorado com um jogo contra o Palmeiras.


Aguante Comunicação/Chapecoense/Arquivo
Aguante Comunicação/Chapecoense/Arquivo

Vencemos o Palmeiras na Arena Condá com 1 x 0 assinado por Bruno Rangel


O jogo contra o Palmeiras era muito esperado por toda a região. Era mais uma estreia da Chapecoense contra um "time grande". O fato de ser último jogo do ano na Arena Condá foi o maior capricho do destino, o encerramento perfeito para a tão comemorada Série B, e um acesso à elite tão amado quanto um título. Vi a última rodada da Série B com a camisa amarelinha "versão verde e branca" da Umbro, com chuva e da arquibancada sul. O Palmeiras tinha Gilson Kleina no comando.


Eu não conhecia muitos palmeirenses na época, mas os contornos desse jogo me fizeram ter simpatia automaticamente pelo Palmeiras. Foi o jogo que encerrou o nosso ciclo de "time menor". Teve gosto de primeira divisão. Jeito de festa de fim de ano. E de lá pra cá, qualquer jogo contra o Palmeiras passou a significar uma reunião com amigos, mais do que qualquer ponto ou posição na tabela que pudesse valer.


Hoje, quando paro para pensar, o último jogo da Chapecoense em 2016 não poderia ter sido outro. Vivíamos o momento de maior alegria das nossas vidas, disparadamente, com a final da Sula e a confirmação em mais uma Série A, de bandeja. Do outro lado, o Palmeiras conquistava o eneacampeonato com o gol de um atleta formado na base da Chapecoense. O gol marcado por Fabiano encerrou outro ciclo, com ainda mais perfeição.


Bruno Ulivieri/Raw Image/Gazeta Press
Bruno Ulivieri/Raw Image/Gazeta Press

Foi contagiante


Se todo ano o amistoso de pré-temporada contra o Ypiranga era sinal de boa sorte, o Jogo da Amizade contra o Palmeiras em janeiro foi prenúncio de que tudo daria certo nesse ano. Hoje esse jogo "final" da Série A de 2016 completa um ano, e lembrar de como nossas histórias estão interligadas, com tanto significado e há tanto tempo, traz um imenso conforto diante do infinito de saudade que essa época do ano proporciona.


Fica aqui minha gratidão ao Palmeiras e a todos os amigos palmeirenses por serem capazes de traduzir nossa tristeza em paz.