Cartas da terra de Condá #5 - #PraSempreChape e o amor dos outros

Algumas semanas depois do acidente, um DDD do outro lado de Santa Catarina me chamou no WhatsApp. Era uma moça chamada Fran, acadêmica de Arquitetura e Urbanismo da Univali, de Balneário Camboriú. Estava na reta final de sua graduação e seu TCC era um projeto de Arena nova para a Chapecoense. Delicada no falar, me pediu algumas informações e disse que no primeiro semestre viria para Chapecó conhecer a cidade, o estádio e a torcida.


Minha primeira impressão, me lembro bem, foi de “cansaço”. Pensei que seria mais uma dessas pessoas que nunca tinha pisado em Chapecó e queria se aproveitar daquele momento. Mas a Fran veio, conheceu a Arena em dia de jogo e vazia, olhou no olho de cada um que sabia narrar a história da Chapecoense. E eu vi que minha primeira impressão estava completamente errada.


No último dia 14, Fran apresentou seu TCC e me convidou para estar na banca. Antes mesmo que ela começasse a falar, só de olhar para o projeto na parede, fiquei com vontade de chorar. A “Arena Chapecó” idealizada por Fran foi uma das homenagens mais lindas que vi desde o acidente. Depois, quando ela começou a explicar a simbologia do que havia criado - a forma de arco e flecha, os 71 metros de altura -, não me segurei.


Não era só um projeto de uma formanda de Arquitetura e Urbanismo, era a sensibilidade de alguém que gosta de futebol e reconhece, do outro lado do Estado, as conquistas e o valor da Chapecoense.


Francielly Braun Frost/Univali
Francielly Braun Frost/Univali

Uma pequena amostra da Arena Chapecó projetada por Fran


Durante todo o ano de 2017, não parei de me surpreender com as demonstrações de carinho de outros times pela Chapecoense e pela nossa torcida. Camisas oficiais personalizadas, faixas, cantos, celebrações, desde a união das torcidas em São Paulo, na ocasião, até o grafite nos muros do Alto da Glória, em Curitiba - homenagens coletivas, individuais, de toda a sorte. Todas tão únicas e tão imensamente lindas que é difícil escolher só uma foto para ilustrar.


Falo por mim, mas sei que muita gente também lida melhor com a saudade quando consegue ver a Chapecoense pelos olhos e pelo coração de outras pessoas. Tudo que escrevi no link abaixo ainda vale.


ESPNFC.com.br | Sobre as coisas que todos sentimos ao mesmo tempo


Sempre me pego pensando em todo o afeto que recebemos de lá pra cá. Nunca nos faltou uma mão estendida, um abraço, uma palavra de confiança. Mesmo no meio do desrespeito e da falta de empatia de muitos, principalmente de quem se esconde atrás da tela do computador. Vi a Chapecoense e nossos anjos sendo homenageados por pessoas do mundo todo, fãs de esporte ou não. Talvez a gente não saiba demonstrar, mas isso fez, e faz, toda a diferença. Foi a nossa ponte com o mundo, com a nossa prórpia realidade. De vez em quando, o desespero bate e é muito fácil esquecer do que ficou e de porquê estamos aqui. Mas quando vemos que não estamos sós nesse sentimento, que o mundo entende o quanto tudo ainda pesa pra nós, o desespero passa.


Na última semana, a Chapecoense lançou uma plataforma virtual chamada #PraSempreChape. É um espaço destinado a qualquer pessoa que queira deixar uma mensagem, um vídeo, uma foto, a homenagem que quiser aos nossos eternos guerreiros. Não sei quantos recados a página já contabiliza, mas a cada F5 surge uma sensação nova. 


É um recado que faz lembrar de um jogo, uma foto que faz lembrar de alguém. Há o tempo todo uma recordação que nos leva de volta a aquela semana horrível que ainda nos assombra, mas há sempre uma palavra de coragem para lembrar de quem estava lá segurando nossa mão. Seja no formato de um tweet ou de um projeto de Arena.


Se hoje podemos olhar para tudo que aconteceu e se hoje a saudade nos faz sorrir mais do que chorar, é porque nunca faltou o amor dos outros para nos fazer lembrar do nosso. 


Hoje, às vésperas de completar um ano desde a tragédia, posso dizer, em paz, que a gratidão é muito maior que a tristeza.


Muito obrigado a todos que fizeram parte desse ano.