Cartas da terra de Condá #7 - O Coritiba e nós

Antes da tragédia acontecer, antes de qualquer notícia sobre acidente, de qualquer coisa sobre a final em Medellín, havia algo que me preocupava muito: como eu faria para estar no Estádio Major Antônio Couto Pereira no dia 7 de dezembro de 2016, às 21h45.


Muitas das palavras que escrevi ontem sobre o Palmeiras, posso usar hoje para descrever um pouco da relação entre o Coritiba e a Chapecoense: nossas histórias estão ligadas para sempre por um elo inquebrantável. A torcida coxa-branca também foi, sim, capaz de transformar nossa tristeza em paz. Já era um time que tinha meu total respeito antes.


Aguante Comunicação/Chapecoense/Arquivo
Aguante Comunicação/Chapecoense/Arquivo

2014 e a Arena Condá ainda em vias de "acontecer"


O Coritiba foi o primeiro adversário da Chapecoense na Série A. Muito embora o Campeonato Catarinense de 2014 tenha sido quase desastroso para a torcida, entramos no Campeonato Brasileiro com vontade de continuar a história que vinha sendo escrita em 2013. De escrever um capítulo novo, mas com a mesma cara, mesma garra e a mesma capacidade de surpreender. Nossa estreia na Série A foi no dia 19 de abril de 2014. Um dia que parecia não chegar nunca. Lembro bem porque coloquei o celular para despertar com um lembrete - como se alguma coisa no mundo me fizesse esquecer que era o dia do grande début da Chapecoense na elite do futebol. A apresentação à sociedade.


Nessa partida, Chapecoense e Coritiba já tinham várias coisas em comum. Vinham de campeonatos estaduais para esquecer, entravam em campo com treinadores da mesma escola (Gilmar Dal Pozzo daqui, Celso Roth de lá) e ainda marcavam o encontro de pai e filho na mesma função: Anderson Paixão e Paulo Paixão. O Coxa ainda tinha Gil, que logo depois viria vestir a camisa do Verdão do Oeste.


E aqui, tanta expectativa não serviu para muita coisa - foi um jogo horrendo. Até lembro que algum veículo de comunicação noticiou esse jogo pelo número de faltas e interrupções no jogo, foram mais de 50. O futebol dos dois times simplesmente não saía do meio de campo. Lembro da Chapecoense errando passes, não conseguindo finalizar, bola aérea em cima de bola aérea, uma ressaca de jogo. Lembro que Dal Pozzo abriu o time e mandou pra cima depois da metade do segundo tempo - o que, obviamente, não resolveu nada. E ficou. Nossa estreia na tão sonhada Série A foi um empate sem gols numa noite de sábado.


Geraldo Bubniak/Gazeta Press
Geraldo Bubniak/Gazeta Press

O Couto Pereira lotado de camisas diferentes, mas mais verde e branco do que nunca


Foi uma comemoração e tanto em Chapecó quando o jogo de volta da final da Sul-Americana foi confirmado para acontecer no Couto Pereira. Sandro Pallaoro e Caio Júnior, me lembro bem, tinham mil razões para acreditar que sediar o jogo em Curitiba traria muita sorte para a Chapecoense. Seria ali, na casa de quem inaugurou nossa Série A, que conquistaríamos a América. E não estou falando de conquistar o título da Sul-Americana. 


A confirmação aconteceu no dia 25, e em poucos dias não havia mais ônibus disponíveis em Chapecó para levar torcedores até a capital paranaense. Eram caravanas que fechavam em questão de minutos, tantas listas e grupos e organização de comboios que a tendência era do pátio do Centro de Eventos se tornar uma segunda rodoviária. Eu já não lembro com quem havia combinado a carona, mas lembro que minha vontade era de estar lá alguns dias antes para estar com meus amigos de lá - Alysson, Elias, André, Yuri, os blogueiros Gibran e Salvador. Francisco, que ainda nem havia nascido e já era campeão sul-americano. Gente de tão longe, que fez tanta questão de nos acolher e que como um presente do Universo, estaria ali para dividir a arquibancada conosco


É claro que jamais passaria pela cabeça de qualquer um de nós o que aconteceria em seguida.


Nem todo mundo tem dentro de si a coragem e a força suficientes para se doar como o povo de Curitiba fez na noite de 7 de dezembro de 2016. Por uma noite, o Coritiba foi o maior time do mundo pra mim. Por uma noite, o Couto Pereira foi o nosso lar, onde nosso coração estava. E com as arquibancadas tomadas de respeito e consideração, representados nas camisas de Paraná e Atlético, a nação coxa-branca deu um espetáculo digno do que teria acontecido de verdade se nosso mundo não tivesse virado do avesso uma semana antes. 


Uma tragédia mudou a história de uma final, de uma competição e, para sempre, de um clube. Mas nada no mundo é capaz de mudar as relações de respeito e irmandade que o futebol cria. O Couto Pereira vai ser para sempre nossa segunda casa.


Minha gratidão, por tudo, a todo o povo paranaense.