Cartas da terra de Condá #8 - Gilberto Pace Thomaz, o mais ilustre torcedor

99% dos veículos de comunicação esportiva, no Brasil e no mundo, hoje estão falando sobre tragédia, de alguma maneira e em algum nível. Estão falando sobre como o clube passou o ano, sobre como as famílias estão lidando com tudo, sobre tudo que ficou da madrugada infinita do dia 29 de novembro de 2016. Há muita gente chorando de saudade, de tristeza, de inconformidade pela morte de pessoas tão amadas.


Mas hoje eu preciso falar sobre a vida.


Na verdade, preciso usar o espaço que me cabe aqui na ESPN para falar sobre um dos maiores privilégios que tive na vida.


Marcelo Henrique/Acervo pessoal
Marcelo Henrique/Acervo pessoal

Eu e o Giba/Gil/Gigi/Gibinha/Beto no dia do acesso da Chapecoense à Série A


Há algumas semanas, o repórter Fernando Olivieri, do Yahoo! Esportes, me procurou para uma entrevista sobre as coisas todas que aconteceram. Perguntou sobre algumas pessoas, alguns torcedores, e falei sobre o Giba. Você pode conferir o material na íntegra nesse link, aliás. Conversamos sobre como eu recebi a notícia, como a semana passou, como sobrevivemos ao ano de 2017. Talvez por já ter contado tantas vezes, talvez por já ter chorado até não poder mais, não derramei uma lágrima ao voltar àquele dia.


Mas o Fernando havia resolvido entrevistar a dona Thais para ouvir a história do Giba e de suas peripécias ao lado da Chapecoense. Pedi para acompanhar e ele autorizou. Na arquibancada da Arena Condá, ouvindo aquela mulher, tão forte e tão doce, falando com tanto amor sobre o maior sorriso que o Regional Índio Condá já viu, chorei do início ao fim.


Minha ideia era de escrever um belo perfil, contando os detalhes da história do Giba, mas essa é uma história que não precisa de muitas palavras. Não precisa de rodeios, de atalhos, de muitas descrições. É simples: o Giba foi um cara que viveu, verdadeiramente, a Chape, pela Chape e para a Chape.


Era o seu sacerdócio.


Era a sua missão.


Dona Thais começou contando ao Fernando sobre a vinda da família de São Paulo para Chapecó, e o nome da Chapecoense surgiu em dois minutos. O pai de Giba, corinthiano e louco por futebol, começou a acompanhar a Chapecoense e levar o filho pequeno ao estádio - "o pai dele faleceu quando ele tinha 10 anos, mas assim que ele teve idade para vir sozinho ao estádio, ele começou a vir. Ele mentia para o vô dele que era corinthiano, mas não, era chapecoense", lembra dona Thais. 


Quando chegou na época de entrar na faculdade, Giba chegou a cursar administração e publicidade, mas o que ele queria de verdade era estar com a Chapecoense. E aí foi parar no jornalismo, para então encontrar seu lugar na beira do campo. Obstinado e destinado a estar exatamente ali, de câmera na mão e a polo branca de assessor de imprensa.



"Era a felicidade dele. Ele viveu para esse clube. Cada vitória ele acompanhou, toda a ascenção, mas muito feliz. Estava no auge. E ele não tinha planos muito longos, a longo prazo. Por isso eu acho que ele viveu pra Chapecoense mesmo. Tudo o que ele programou, ele fez. Ele não costumava viajar com o time principal, mas quando foi para essa final ele falou 'não, nem que eu tenha que pagar do meu bolso, eu vou'. Então é isso que consola. Ele fez tudo que ele quis, tudo que ele tinha vontade pelo clube. Eu não vejo ele aqui depois de tudo que aconteceu. Acho que ele tinha que estar com o pessoal lá". 



Depois de muito chorar ouvindo o que dona Thais tinha a dizer, ofereci a ela um lenço e a acompanhei até o lado de fora do estádio. Ela me confidenciou que ainda se surpreende, quase um ano depois, com todas as histórias que os amigos tinham para contar sobre o Giba. Com o tanto de amigos e pessoas que ele cativou pelo mundo. 





Esse sorriso que aparece nas fotos nas redes sociais é exatamente quem o giba era. Quem o via, via sorrindo, literalmente. O rosto sempre estampado pelo sorriso largo, o jeito de rir balançando os ombros, o brilho no olho na hora de falar sobre a Chape. Se existe uma razão para tudo no mundo, Giba com certeza deixou tantas histórias para preencher tantos churrascos e chopps entre os amigos. 


E os bordões?


Se prestar atenção, ainda consigo ouvir "importantiii", "que fase da mariposa" e o clássico "gerar empregos". 


E os "voos rasteiros" para percorrer o estado gravando entrevistas para seu documentário sobre os (então) quatro títulos da Chapecoense? E as entrevistas com os mesmos torcedores quando ele era Repórter da Galera? E os anos e anos de De olho no Verdão, no Gol da Chape? E as viagens para ver a Chapecoense por aí? E o porre que tomamos no lançamento das camisas novas em 2012? E as recepções de calouros na faculdade? E todos os conselhos que recebi sobre meu livro-reportagem? 


A única foto que tenho com o Giba é essa que está aí em cima. No dia do acesso da Chapecoense à Série A. Chapecoense x Bragantino, o primeiro jogo que acompanhei de dentro do gramado. E nessa foto, tirada pelo famoso Carioca, estamos no caminhão de Bombeiros que levava o time em passeata pelo centro da cidade. Ao mesmo tempo, bagunçados e completos com a conquista da Chapecoense. E mesmo granulada, de longe e com olhos vermelhos, não poderia haver foto mais perfeita. É a felicidade materializada.


"O céu deve estar rindo agora, se você já contou aquela sua história".


Lembrar do Giba é lembrar da vida, de vivê-la intensamente, de cultivar bons amigos e, de preferência, de amar o futebol e tudo que ele representa. Ter convivido com essa figura nas arquibancadas e na sala de imprensa foi um presente do universo. E ainda é, toda vez que aquela risada de corpo todo volta na memória.


Que você esteja em paz onde estiver, Giba. E cuida da gente daí. Minha gratidão por você ter sido você.