Cartas da terra de Condá #9 - A Chapecoense é o time da vida

Muita coisa que aconteceu na semana do acidente, no ano passado, simplesmente se apagou da minha cabeça. No que pese a inconsciência tentando permitir que eu sobrevivesse àquilo tudo, muitos detalhes se perderam, ficaram inacessíveis, não processam mais. Mas me lembro perfeitamente de como estava o céu no dia em que voltei pra casa, depois do velório coletivo na Arena Condá.


Estava tão nublado que parecia um engarrafamento de nuvens em tons diferentes de chuva. Azul escuro demais, se mexendo rápido demais, materializando desespero demais. Mas estava entrecortado por raios de sol insistentes, daqueles que desenham retas e ângulos interessantes com os prédios e o asfalto - de um dourado tão perfeito que parecia zombar da tristeza que ainda estava tão fresca.


Naquele dia, cheguei em casa e escrevi o seguinte:



A Chapecoense não me ensinou a escrever sobre tragédia. Nesses alviverdes anos que vivi, até o infeliz final de novembro que ainda se encosta, aprendi todos os sinônimos existentes para alegria, satisfação, amor. Percorri todos os termos do dicionário que falassem em gratidão e docilidade, que exprimissem a simplicidade da qual somos feitos. Descobri com que palavras encontramos o anacronismo e os zigue-zagues do tempo Muitas vezes repeti adjetivos, mas não teria sentido usar palavras demais para descrever a confiança que faz de nós, chapecoenses, uma grande família.



É verdade, a Chapecoense não me ensinou a falar de tragédia. Mas eu precisei aprender com quantas palavras se fala de saudade, com quantas vírgulas se fala sobre a morte, quantos parágrafos leva até se abrir um novo capítulo no livro da vida. Mas exatamente da mesma maneira, a Chapecoense me ensinou com quantos caracteres se escreve uma transformação.


Os olhos do mundo permaneceram o ano todo voltados a Chapecó, acompanhando cada passe, cada escanteio, cada gol que construía a temporada de 2017. Foram 76 jogos oficiais, fora os tantos amistosos, 32 vitórias, 17 empates, 27 derrotas - ao todo, quase 100 gritos de gol em oito competições diferentes. Diversos profissionais que vieram e deixaram seu nome na história, à sua maneira. Muitas mãos estendidas, muitos abraços apertados e até muitos braços cruzados, mas principalmente pés no chão e cabeças erguidas.


Há quem diga que a vida não seja muito além de uma roda-gigante, uma sequência eterna em que você pode estar no topo da vida em um dia, vendo o copo meio cheio, e cair de repente no outro dia, vendo o copo meio vazio. Eu não sei se isso é certo ou não, mas sei que a Chapecoense me provou nesse ano que não precisa ser assim. 


Como um artista que transforma sua tristeza em uma obra de arte, a Chapecoense se reinventou nesse ano. Reescreveu uma história que a que muitos atribuíam derrota, rebaixamento, o mergulho em um luto tão denso que nos esconderia do mundo. Mas a vida real falou mais alto e o legado de quem se foi em novembro de 2016 falou muito mais alto. A Chapecoense tomou o controle da própria roda-gigante.


Um ano atrás, em 3 de dezembro de 2016, a Arena Condá estava lotada para a última despedida de 50 dos seus guerreiros eternos. O céu chorava conosco enquanto aquela cena de filme de terror se desenrolava no campo: um a um, os caixões eram depositados na direção sul, trazidos por soldados, com honras que jamais serão suficientes em homenagem.


E hoje, no dia 3 de dezembro de 2017, a Arena Condá veio abaixo quando Túlio de Melo balançou as redes na direção norte, no finalzinho dos acréscimos, para nos colocar na pré-Libertadores em 2018.


O céu se abriu, a tristeza se transformou em força, a saudade se transformou em motivação e a morte se transformou em vida.



Então, se alguém quiser entender com quais palavras se escreve uma história de conquista, comece por essas: resiliência, dedicação, abnegação, saudade, verdade e amor.


Com o coração cheio dessas palavras, e com a luz das 71 estrelas do nosso céu, encerro aqui a série Cartas da terra de Condá. Minha gratidão a todos que acompanharam esse passeio pela história, aos nossos eternos guerreiros pelas histórias que ficaram, à equipe do ESPN FC pelo apoio e pelo espaço, e minha gratidão a Deus, sempre, por ter me feito Chapecoense!