Explosão de Sarri é o ato de coragem que mudará a temporada

É impensável acreditar que a coletiva pós-jogo de Maurizio Sarri contra o Arsenal não terá desdobramentos para o restante da temporada. Para ou bem ou para o mal, as consequências da derrota para o Arsenal por 2-0 serão sentidas. Porém, as declarações do técnico terão efeito somente até o próximo compromisso dos Blues ou até o fim da temporada? 




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Antes de entrar a fundo nesta questão, é necessário voltar ao dia 24 de novembro de 2018, Tottenham 3-1 Chelsea. Há basicamente dois meses, passamos por uma situação idêntica. A escalação dos Blues naquela partida? Kepa; Azpilicueta, David Luiz, Rüdiger, Alonso; Jorginho, Kanté e Kovacic; Willian, Morata e Hazard.


Quase a mesma equipe que tomou o baile para o Arsenal, com a diferença que tinha um atacante de referência, Morata – Pedro ficou no banco de reservas. Uma equipe passiva e que sofreu grande parte do jogo, não tanto como contra o Arsenal, mas com o resultado sendo negativo da mesma maneira. Naquela época, Sarri levantou questões sobre a mentalidade do time e a necessidade da equipe precisar reagir.


Após perder o derby londrino no último sábado (19), o treinador italiano teve talvez a declaração mais chocante para a atual geração de atletas na década:


“Eu estou muito irritado. Esta derrota foi por causa da nossa mentalidade. Eu não posso aceitar. Tivemos um problema similar contra o Tottenham na liga. Aparentemente, este grupo de jogadores é difícil de se motivar.”


O problema de saber se portar em situações difíceis parece ser algo específico da atual geração de jogadores. São pouquíssimos os atletas que têm o espírito ‘Cristiano Ronaldo’ ainda em atividade. CR7 é uma máquina vencedora, assim como Lionel Messi. Vencer está acima de tudo e todos os sacrifícios serão feitos para chegar a esse objetivo. Não que a atual geração de atletas não queira vencer, mas não há o ‘clique padrão’ em jogos decisivos, como em derbys.


Getty Images
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O 'clique' era padrão com essa turma...


O ‘clique padrão’ a que me refiro é a cobrança pelo nível máximo em todas as partidas e em todos os confrontos. É ser o ‘top dos tops’, como diria José Mourinho. Por falar no português, ele, em entrevista recente ao canal beIN Sport, se mostrou surpreso e assustado ao relatar as diferenças no trato com os jogadores atuais, em comparação com os da década passada. Em que pese a sua defasagem como técnico, Mourinho foi um treinador extremamente vitorioso em que encarnava bem o espírito do ‘clique’ vencedor.


Quem não se lembra da dinastia de Drogba, Lampard, Terry e companhia nos clássicos? Era uma surra atrás da outra. Eles não se contentavam com pouco e isso é um exemplo de mentalidade vencedora. O ‘clique’ da atual geração de jogadores em atividade, e aí você pode citar Hazard, Neymar, Salah, De Bruyne, é pequeno e cada vez menos frequente.


Em tempo, não há demérito na qualidade dos atletas. Todos eles são craques, mas o que separa ser craque de ter o ‘clique’ é uma linha que poucos, atualmente, cruzam.


Maurizio Sarri teve a coragem que Antonio Conte e José Mourinho preferiram não ter. Ao bater de frente com um elenco acomodado e que se julga acima das expectativas, ele espera, finalmente, atingir a zona de conforto que se faz presente há anos no atual plantel. Por mais que existam erros do técnico, o buraco é muito mais embaixo.


Se dará certo ou não, é impossível saber, mas o ciclo ‘técnico novo -> títulos -> elenco de saco cheio -> técnico demitido’ foi finalmente rompido.


Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.