Goleada em Manchester é o recado do futuro

Esqueça por um momento as falhas defensivas e táticas do Chelsea no duelo contra o City. Esqueça o baile tático que Maurizio Sarri levou ao tentar encarar de frente o time de Pep Guardiola. Esqueça tudo referente ao jogo dentro de campo e foque apenas no resultado.



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A pior derrota dos Blues na história da Premier League, sendo a segunda pior da história, revela muito mais do que aparentemente é. Não é simplesmente mais uma rodada da Premier League. É a visão do elevador do vizinho subindo, enquanto o nosso desce. Por mais que possa soar catastrófico, não é apenas um resultado ruim que traz todo o cenário de crise. O 6-0 foi apenas a cereja do bolo de um processo que dura há alguns bons anos.


Respeitados jornais britânicos como The Telegraph e The Guardian apontaram alguns problemas com Maurizio Sarri. A má-compreensão da tática mais a percepção de que é o treinador que sempre cai, diferentemente de Liverpool e City, por exemplo, contribuem para um elenco sem as amarras necessárias. Soa familiar? E é mesmo. Conte também reclamou do atual elenco, com a diferença que havia conflitos mais graves entre elenco e treinador do que atualmente.


Se fomos voltar um pouco no tempo, relembremos de José Mourinho e de seus embates com boa parte dos jogadores que ainda estão em Cobham. O que os três treinadores têm em comum além de quedas de rendimento evidentes? Os dois últimos citados foram demitidos por Abramovich, e o grupo de jogadores foi privilegiado.


Entretanto, o maior problema está acima de todos já citados neste texto. Atualmente, Marina Granovskaia é a chave para a compreensão do buraco em que o Chelsea está enfiado. Para compreender o presente, é necessário voltar rapidamente ao passado.


Getty Images
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Maurizio Sarri não é o grande culpado


Michael Emenalo, Marina Granovskaia e as sementes do futuro

Emenalo chegou ao Chelsea como chefe dos olheiros na época que Avram Grant era o técnico, em 2007. Três anos depois, assumiu o posto do lendário Ray Wilkins como assistente do time principal. Em 2011, virou o diretor técnico do clube, cargo que ocupou até 2017, quando pediu demissão. Até a chegada de Marina, Emenalo tinha bastante poder no clube, já que o CEO Ron Gourlay não tinha tanta ingerência no dia-a-dia do futebol azul.


Depois da saída de Gourlay, em 2014, a Dama de Ferro, como é conhecida Marina, assumiu como CEO e passou a ter bastante poder. O The Times na época chegou a considera-la como a mulher mais poderosa do futebol. O fato é que com a sua chegada, Emenalo perdeu espaço e poder e sua atuação passou a acontecer cada vez mais em segundo plano, não tendo o destaque de outrora.


Se fora de campo, os Blues conseguiram grandes acordos, 15 anos com a Nike e o patrocínio com a Yokohama são apenas alguns bons exemplos, dentro dos gramados a situação foi piorando com a saída das lendas – Terry foi o último após não renovar contrato em 2017. A não participação da Champions League pós-saída de José Mourinho também foi um fator preponderante para a perda da tradição que tínhamos de disputar a maior competição do mundo todo ano.


A saída de Emenalo por opção própria no final de 2017 fez com que Marina Granovskaia acumulasse ainda mais poder e tivesse, na prática, duas funções em uma.


Lá no youtube do Chelsea Brasil, falei um pouco mais da partida e de toda essa questão da direção do Chelsea.



As sementes do futuro estão germinando antes da hora: e agora?


O estopim apresentado pelo 6-0 é apenas a explosão de tudo de ruim que aconteceu com o Chelsea na atual década. A conquista da Champions League em 2012 foi o resultado de um árduo trabalho desenvolvido por Ray Wilkins, Ron Gourlay e Bruce Buck ao longo da década de 2000. Uma década vitoriosa como nunca antes vista no mundo do futebol no século XXI. Todavia, o cenário se tornou obscuro para a segunda década de Abramovich.


Em um clube pelo qual não há planejamento e respeito dos jogadores com os técnicos que passam, há uma realidade obscura: há hierarquia? Foi-se o tempo que atletas jovens gostariam de atuar no maior clube de Londres. Quarenta e três emprestados mostram o porquê de tamanho descaso e irrelevância no mercado de transferências, em que pese a nova política de contratações.


O costume de demitir treinadores cobra o seu preço da forma mais cruel: Sarri tem defeitos sim, mas não é o grande culpado. Um elenco que passa dos limites e não tem amarras, com um time que se sujeita a isso, resulta em perda de identidade e enfraquecimento da imagem global.


O Manchester City é o Chelsea de amanhã, e caso as coisas não mudem, será o Chelsea da década passada. Mas esse é um assunto para o próximo texto...