Um por amor, dois pelo dinheiro - sobre Carille, palavras e Corinthians

gazetapress
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E por dois caminhões de dinheiro?


Adoro o trabalho do Carille. Acho que ele ainda vai ter muito sucesso na carreira. Enquanto torcedora, ver um técnico que é corinthiano desde criança e identificado com o clube é mil vezes melhor que ver um técnico qualquer. Ainda que Tite fosse excelente, e eu sou muito grata a ele pelo trabalho, Carille também é um torcedor ali na beira do campo. Sabe o peso de um derby, sabe como nós pensamos. E isso é muito legal de acompanhar.


Mas, hoje, escrevo aqui para criticar algumas atitudes dele. Nada pessoal, ok? Só que é necessário entender que aqui é Corinthians e de vez em quando as cobradas vão chegar.


Ele pode não ter recebido oficialmente a tal proposta do Al Hilal. E concordo com ele sobre os limites da imprensa - de terem ido falar com os pais dele, pessoas humildes e provavelmente sem noção do que fariam com suas palavras -, sobre terem dito que ele levaria Rodriguinho no pacote e, enfim, um desencontro de informações bem questionável. Mas, no fim, algo produtivo saiu dessa confusão e da "bronca" dele na coletiva: ele de fato era sondado e cogitaria sair. É sobre isso que vou falar.


No fim de 2017, Carille deu uma entrevista dizendo que por ser grato ao Corinthians ter projetado ele na carreira, que só saíria se fosse demitido e "nem por um caminhão de dinheiro" iria embora. Acredito que algumas coisas podem ser faladas no calor do momento, mas eu reforço que sou torcedora e gostaria de um mínimo de coerência e respeito.


Apenas para uma comparação boba, Jô e Balbuena deram entrevistas similares ano passado e disseram que não prometeriam que ficariam para depois não serem cobrados por uma mentira. Jô saiu de consciência limpa e Balbuena felizmente ficou. Ambos também reforçaram que cumpriram sua palavra naquele contrato, mas que depois não prometeriam o que não poderiam seguir. Achei muito justo.


Carille disse também, em uma de suas entrevistas, que não aceitou uma proposta antes, pois "só poderia levar um membro da comissão". Pera lá, então já por um caminhão de dinheiro e alguns membros ele saíria? 


Antes do Carille existe a instituição Corinthians. O Corinthians é acima de qualquer pessoa. E até mesmo de Carille. Neste momento, entendo que a primeira bóia que aparecesse seria suficiente para o técnico pular de um barco que está a todo vapor. E ele não precisa disso. É um profissonal muito bom e pode fazer seu pé de meia quando bem entender. Vejam, não estamos falando de um profissional fraco e questionável. Estamos falando do atual campeão brasileiro, de um técnico que faz um time com jogadores médios jogar muita bola.


Já tivemos Oswaldo de Oliveira em seus tempos questionáveis fazendo pé de meia nas arábias. Temos hoje um Felipão em fim de carreira enchendo os bolsos na China. O que quero dizer é: esse momento de fazer o pé de meia pode ser quando ele bem entender. Daqui uns anos ele pode chegar em qualquer lugar desses e ganhar até mais do que o oferecido hoje.


Vejo muitas pessoas comparando o dinheiro que Carille ganharia e dizendo "eu aceitaria sem nem pensar". Estamos comparando aqui nós, assalariados, que um aumento de 2 mil reais faria uma diferença gritante em nossos orçamentos, com um homem que hoje já está em outra classe social. Conforme dizem as notícias, Carille ganha acima de 300 mil reais. Ser rico já é uma realidade para ele. Nada contra, ele merece um salário pois faz muito bem seu ofício. Mas ele já é um homem rico. Ganhar 900 mil, 1 milhão fará diferença? Sim. Mas, no caso dele, já é uma questão de escolha. Isso não vai mudar o paradigma da vida dele, ele já tem o dinheiro que precisa para uma vida confortável e seu pé de meia pode vir depois de um ciclo de trabalho vitorioso.


Inevitável comparar com outros técnicos que em momentos cruciais decidiram ficar em seus clubes, como Tite e Muricy, pois preferiram dar mais peso a própria palavra. 


Carille continua no meu hall de técnicos que respeito demais. Mas, a partir de agora, com um pé atrás. Infelizmente, vou entender que ele é uma pessoa que prefere o dinheiro a própria palavra pois "por dois caminhões de dinheiro" ele pensaria em sair - rapelando nossa comissão técnica inteira, inclusive.


Fica o alerta para que fiquemos de olho. Não só nas palavras de nossos jogadores e técnicos, como para a diretoria que faz contratos tão ruins que a chance de um desmanche até em nossa comissão era grande com essa proposta.


No fim de tudo, só o bem do Corinthians importa. Estamos de olho.


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