Pedrinho, enfim, está livre

(Antes do texto, é preciso abrir um parêntese, literalmente: dou início à missão de assumir um dos blogs do Corinthians neste espaço da ESPN Brasil. Escrever sobre um clube tão grande, especificamente, em um dos principais veículos de comunicação do mundo é, certamente, um grande desafio. E um grande privilégio. Que comece o jogo!)


Pedrinho fez, contra o Vitória, o primeiro jogo completo com a camisa do time profissional do Corinthians. Foram 101 minutos em campo, os 90 regulares mais 11 de acréscimos.


Havia uma grande expectativa para que isso acontecesse. Algo que começou ainda com Fábio Carille, que deu, de fato, as chances que o menino pedia e merecia. “Menino”, aliás, que já tem 20 anos. Por mais contraditório que seja, dá para dizer que gente dessa idade já tem rodagem por aí, já que surgem com 18, 17, até 16 anos nacionalmente.


Com Carille, muitas vezes, parecia que a coisa aconteceria. Mas não acontecia. Por mais que começasse jogando, Pedrinho sempre era substituído. Algumas vezes, a Fiel chiava, mas o antigo treinador, sabemos, tinha as costas um pouco mais largas do que Osmar Loss.


Pelo menos por enquanto. Loss, que tanto trabalhou com o meia-atacante na base, confia e tem a confiança dele. Sempre se escorou no garoto quando escalou os sub-que-fossem, mas a situação, agora, evidentemente, é totalmente diferente.


Contra o América, Pedrinho saiu para a entrada de Roger. Contra o Flamengo, deu lugar a Marquinhos Gabriel. Contra o Santos, foi a vez de Matheus Vital substituí-lo. Em todas as oportunidades, Loss foi questionado e vaiado. Inclusive contra os mineiros, jogo vencido pelo Timão (1 a 0, em casa).


Analisando, dá até para entender a cabeça do treinador. Provavelmente, ele recebe informações da comissão técnica dizendo que, fisicamente, o jogador ainda não aguenta o tranco. Às vezes, é difícil discutir com esse argumento. Afinal, são análises baseadas na coleta de dados que dão esse diagnóstico, não apenas uma percepção dos profissionais.


A questão é que existe uma outra coisa a ser levada em consideração na hora de tomar essa decisão. É importante, muito, conversar com o atleta. Tem de partir dele a avaliação para que se saiba como está se sentindo, por mais que lesões, muitas vezes, não avisem antes de aparecer.


Pedrinho, mais do que qualquer coisa, precisava de confiança. Confiança de que o trabalho muscular feito com ele havia sido bem executado para dar condições de ele suportar 90 minutos em campo. E em partidas brigadas, como têm sido as do Corinthians, que patina para reencontrar a melhor maneira de jogar.


E essa confiança chegou. Recentemente, o garoto até admitiu que sente cansaço em campo e tem dificuldade de manter a mesma intensidade, mas acreditava conseguir aguentar o tranco até o fim. E, quando aguentou, acredite, isso trouxe um fator psicológico muito grande para ele. Positivamente, claro.


Pedrinho, contra o Vitória, quebrou uma barreira. Foi até o fim do jogo, mostrou que tem condições físicas para isso e deixou para trás qualquer rastro de desconfiança – dele próprio e de outras pessoas – que pudesse existir.
Foi uma quebra de barreira, também, para Loss. Mais uma vez, há de se cogitar questionamentos, sim, pelo excesso de cautela nas ocasiões em que ele tirou o atleta, mas, daqui para a frente, a tendência é de que isso aconteça com menos frequência. Pedrinho vai sentir cansaço, claro, à medida em que jogar duas, três, quatro, cinco partidas seguidas durante 90 minutos, mas, neste caso, estará submetido a um outro tipo de cobrança.


O “detalhe” da coisa é: o meia-atacante vem rendendo bem nos minutos finais. Tem driblado o cansaço e os adversários – ele lidera esse fundamento no Brasileirão, segundo as estatísticas – e sido uma tentativa de válvula de escape para a equipe, por mais que, efetivamente, não tenha tido tanto sucesso no momento de conclusões – assim como todo o time.


O contraponto disso tudo, no entanto, é o tal pensamento de que pode estar surgindo um momento de se apostar muito e jogar nas costas dele uma responsabilidade maior do que deveria carregar, neste momento. Pedrinho tem potencial para ser um dos destaques do time, mas não pode virar o salvador da pátria do dia para a noite.


Perceba o dilema aqui. Ao mesmo tempo em que é preciso dar rodagem para ele, prepará-lo para aguentar a carga de uma partida inteira e cobrar desempenho por isso, há quem tenha o pensamento de que ainda é importante preservá-lo e mantê-lo na curva natural de desenvolvimento de qualquer jogador de futebol ou atleta espalhado por aí.


Com a pausa para a Copa do Mundo, a tendência é de que haja um amadurecimento. Em todos os aspectos. Na cabeça e no corpo do jogador. Na cabeça do treinador. E na formação – sim, porque será preciso surgir um novo Corinthians – e no acerto da equipe.


Mas, para isso, era fundamental que ele tivesse superado a barreira dos 90 minutos antes. Para mostrar para si e para os demais que podia e, principalmente, para que se pare de falar a respeito disso.


Daqui para a frente, o foco tem de ser outro. Pedrinho está livre de uma cobrança que, bem ou mal, nunca mereceu.