Hoje vai a campo a esperança de melhora tática do Coritiba sob o comando de Eduardo Baptista

Há mais tempo do que você supõe e do que eu gostaria, fui convidado por Rodrigo Salvador para integrar o Quinta Coluna. A missão – e talvez isso justifique a letargia do novo convocado – não é fácil: levar a campo ideias que façam jus a um blog que, nos últimos anos, traduziu meu sentimento como coxa-branca – e, tenho certeza, o de muitos outros entre nós.


Infelizmente, começo a escrever em um momento ruim: começamos hoje o segundo turno da Série B ocupando a metade da tabela. Apesar da redentora vitória contra o Goiás há duas rodadas, os resultados e, especialmente, a forma como o Coritiba tem jogado são preocupantes. Essa situação – que explica a insatisfação da torcida, mas não justifica a falta de apoio durante os jogos – pode ser analisada sob uma perspectiva tática.


Eduardo Baptista tem uma proposta clara que tem sido desenhada, com mais frequência, no 4-2-3-1. Na maioria dos últimos jogos tem prevalecido a escalação de Vitor Carvalho e Uillian Correia como volantes e de Yan Sasse como meia-atacante (a peça central da linha de três). Contra o Fortaleza, por exemplo, para manter esse desenho tático, Baptista escalou Júlio Rusch aberto pela esquerda no lugar de Alisson Farias.


Com esse sistema de jogo, o Coritiba tem sido um time frágil na defesa e inofensivo no ataque. De fato, a oitava posição e alguns resultados satisfatórios se justificam mais pelo baixíssimo nível técnico da Série B (inclusive se comparado com o do elenco alviverde), do que por méritos próprios. A fragilidade defensiva, escancarada nos últimos jogos, tem pelo menos duas justificativas. A primeira é a transição lenta e desorganizada para a defesa, que facilita o avanço rápido do adversário ao ataque. A segunda é o equivocado posicionamento ofensivo da equipe, que, por um lado, dificulta a penetração nas linhas adversárias e, por outro, obriga a linha defensiva alviverde a explorar tentativas (quase suicidas) de ligação direta.


No 4-2-3-1, em comparação com outras formações mais “clássicas” há alterações significativas nas três posições do meio de campo. Os dois volantes, ou pelo menos um deles, precisam ter capacidade para construir jogadas além de defender: o seu ritmo e suas habilidades serão determinantes para a forma de jogar da equipe – se mais reativa, explorando com velocidade os contra-ataques; se mais propositiva, tentando passar a bola entre as linhas do adversário. O meia-atacante, jogando centralizado, tem a função de se posicionar entre as linhas do meio de campo e da defesa do adversário, aproximando-se dos volantes para construir as jogadas. Tudo isso, apesar da simplificação um tanto grosseira, é evidente e primário. Mas não é o que se tem visto nos jogos do Coxa.


Vitor Carvalho, ainda que competente na defesa, e apesar de sua qualidade técnica, tem tido muita dificuldade de dominar e passar a bola no meio de campo. A agilidade e a precisão na distribuição de jogo de Julio Rusch parecem ter sido esquecidas no Paranaense. Uillian Correia, que tem muita qualidade e vinha sendo mais efetivo, esteve perdido na partida contra o Fortaleza. Ainda assim, taticamente, o pior papel vem sendo desempenhado por Yan Sasse. Uma ótima revelação da base, Sasse é vertical e pode ser decisivo, como mostrou em algumas partidas recentes, mas tem comprometido gravemente o esquema tático de Eduardo Baptista.


Quando Yan Sasse consegue se posicionar mais perto dos volantes, desempenha um papel tático correto, acelera a distribuição do jogo e nos dá chances de dominar o meio de campo; infelizmente, não consegue fazer isso há muitos jogos. A melhora do time no fim do jogo contra a Ponte Preta – quando passou a criar chances apesar da lesão de Leandro Silva – ou contra o Fortaleza – quando poderia ter empatado o jogo se o gol de Belusso não fosse anulado – são exemplos da superioridade tática com a entrada de Jean Carlos.


Os ajustes táticos para que tenhamos mais momentos de superioridade durante as partidas são necessários não apenas para melhorar os resultados, mas também para dar tranquilidade ao time. A falta de confiança por parte dos jogadores, e de paciência por parte da torcida, têm, nesses momentos de domínio sobre o adversário, seu melhor remédio. São eles que, depois de cada bola perdida, ajudam a acreditar que a redenção virá no lance seguinte. São esses momentos, cada vez mais raros, que mantêm viva nossa esperança de acesso em meio a um ano ruim. O texto inaugural do Quinta Coluna expressa muito bem o que ela significa:


“A esperança é o primeiro e o último reduto. A esperança de querer algo é quem desperta nossos sonhos, nossas vontades. E quando a gente quer que algo dê certo, depois de tudo o mais ter trabalhado contra o sucesso, a esperança é o último argumento. Tudo deu errado, mas ainda não acabou. Ela é a última que morre, porque os outros argumentos já não se sustentam mais. E é de esperança que a gente vive. Construímos argumentos pra justificar a primeira chama de esperança que arde, e não apaga sem que tudo esteja totalmente perdido”.


Talvez sem razão alguma, o treinamento fechado de ontem foi suficiente para termos a esperança de que, no jogo contra o Sampaio Corrêa, Eduardo Baptista escale um time compatível com a sua proposta de jogo, capaz de assimilar as necessidades da formação tática eleita. Apesar disso, aconteça o que acontecer, nas próximas terças, sextas ou sábados de 2018, com o Coxa em campo, a esperança será sempre alviverde.