Aniversário de Sorín: relembre como Juampi elevou a camisa 6 do Cruzeiro

Por Hugo Serelo *


O mundo ainda não sabia, mas aquele 5 de maio de 1976 registrava o nascimento de um dos maiores laterais do futebol. Mais do que um lateral, Sorín foi o inventor da Posição Sorín.


A torcida do Cruzeiro recebeu a notícia de sua vinda à BH em 17 de janeiro de 2000 (coincidentemente, a mesma data da contratação do uruguaio Arrascaeta). Os cruzeirenses não sabiam, mas estavam prestes a receber um ídolo.


Em 1993, ainda com 16 anos no Argentino Juniors, o jovem Sorín já era apontado como sucessor de Carlos Mac Allister na Argentina.


O jovem raçudo que percorria todo o campo esquerdo da defesa ao ataque apareceu na Libertadores 96 sendo campeão e revezando posição com Placente, jogador da seleção argentina. Já na épica Supercopa de 97, Sorín roubou a cena em vários jogos, chegando a fazer dos craques Francescoli e Gallardo quase coadjuvantes num River Plate avassalador que ganhou tudo no fim dos anos 90.


Era a contratação mais cara da história do Cruzeiro até então.


Adaptação


No início, alguns setoristas zebrados que cobriam o Cruzeiro e demais cronistas foram taxativos afirmando que Sorín foi uma contratação ruim. Jornalistas diziam que o clube deveria se livrar do atleta, e chegou-se a cogitar uma troca por Petkovic envolvendo Cruzeiro e Flamengo.


A tática que já derrubou nomes como Alex em 2001 e Rivaldo em 2004 não funcionou com Sorín em 2000.


O craque estava machucado e fora das finais do Mineiro e da Sul-Minas quando o Cruzeiro amargou derrotas pros modestos Atlético Mineiro e América. Foi na reta final da Copa do Brasil que Sorín apresentou um grande futebol e conduziu o clube ao Tri da Copa do Brasil.


Campeão


Sorín foi fundamental pro Cruzeiro eliminar o Santos na semi-final. No jogo da volta, na Vila Belmiro, mostrou raça, catimba e qualidade. Com 23 anos já era um líder e se apresentava como futuro capitão.


A final épica contra o São Paulo deu um sabor diferente ao Tri Campeonato. Talvez o mais emocionante das cinco taças de Copas do Brasil que estão na sede do Barro Preto.


Ídolo


No Campeonato Brasileiro de 2000, Sorín já era o melhor lateral-esquerdo do Brasil e o gringo mais comentado no país. Já se firmava como ídolo por ser campeão, craque e aguerrido, mas o destino premiou com um lance mágico naquele ano.


Em 20 de setembro de 2000, o Cruzeiro perdia o clássico por 2x0. Fábio Júnior empatou com dois gols e o jogo ficou equilibrado. Aos 35 do segundo tempo, Sorín percebeu a triangulação de Sérgio Manoel avançando pra área e correu atrás esperando um rebote. Quando o goleiro Kléber rebateu a bola quicando pra frente, o camisa 6 já vinha com tudo emendando um chute de primeira. O gol da virada foi o mais impactante dos 18 gols com a camisa do Cruzeiro.


Em 2001, Sorín já era o dono do time e capitão absoluto de Felipão. O jogador mais venerado por cada torcedor que se sentia representado por um argentino valente que não admitia perder dividas.


Venceu a Copa Sul-Minas 2001 eliminando o Atlético Mineiro com um passeio heróico nas semi-finais. Foi pouco. No ano seguinte, repetiu a dose despachando outra vez o pretenso rival nas semi-finais. O Cruzeiro de Sorín partia pra uma final contra o Furacão, atual Campeão Brasileiro da época. E o destino reservou um enredo de cinema.


Sorín já estava vendido para a Lazio e sua despedida foi oficializada para a final da Copa Sul-Minas 2002. Os 70.000 cruzeirenses que lotaram o Mineirão para o último adeus foram premiados com um lance mágico.


O Atlético pressionava precisando da vitória, até que no segundo tempo o lateral direito Ruy deu um belo drible e rolou pro meio da área. Sorín estava posicionado como centroavante, e ao melhor estilo Batistuta deu um drible de corpo no zagueiro e tocou de primeira pro fundo do gol. O Mineirão explodiu com o gol e com a festa do título do Bi da Copa Sul-Minas. O grito mais ouvido era:


- Rei, rei, rei! Sorín é nosso rei!


O Retorno do Rei


A primeira volta de Sorín ao Mineirão foi com outra camisa. Brasil 3x1 Argentina em 2004 foi uma festa da Torcida do Cruzeiro. O ex-cruzeirense Ronaldo Fenômeno voltou ao estádio que o lançou ao futebol e fez três gols num jogo absurdo. No terceiro gol, o cruzeirense Alex deu um passe magistral para Ronaldo receber livre e cavar o penalty.


Argentino dos Brasileiros


A noite ficou mais cruzeirense mesmo com um gol da Argentina. Quis o destino, que o gol de honra dos hermanos saísse dos pés de Sorín. Pela primeira vez na história, torcedores brasileiros aplaudiram um gol argentino. Enquanto o camisa 3 buscava a bola no fundo das redes, parte do Mineirão batia palmas para aquele que aprenderam a venerar.


Meses depois, ainda em 2004, chegou a ter um curto empréstimo ao Cruzeiro e foi quem se salvou num time que teve turbulências no Brasileiro. Ídolos são forjados nos bons e nos maus momentos.


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Sorín pela Libertadores 2001 homenageando a esposa


Um Craque do Mundo


Depois da Lazio, Sorín brilhou com as camisas de Sevilla, Barcelona, PSG e Hamburgo. Titular nas Copas de 2002 e 2006, Sorín manifestava o desejo de regressar ao Cruzeiro, e assim o fez em 2009.


Os problemas com Adílson Batista impediram uma sequência na equipe. Mesmo assim, Juanpi foi reverenciado como ídolo absoluto em seu merecido jogo de despedida contra o Argentino Juniors.


Em nossos corações cabem todos os laterais que fizeram época no Palestra e no Cruzeiro. Nininho, Neco, Vanderlei, Nonato e Sorín, formam o quinteto dos mais importantes da posição.


Foram 126 vezes que você nos emocionou pisando em campo com o mágico número 6 nas costas.


Feliz aniversário, meu ídolo Juan Pablo Sorín.


* Hugo Serelo, 31 anos, é pesquisador esportivo, radialista e repórter policial em Divinópolis-MG. Nasceu em Andadas-MG, torce pro Rio Branco de Andradas e tem uma leve simpatia pelo Cruzeiro Esporte Clube.