A avassaladora passagem de Renato Gaúcho pelo Cruzeiro

Por Hugo Serelo


Em agosto de 1992, um meteoro caía no aeroporto de Confins. Tratava-se de Renato Gaúcho, que chegava fazendo estragos na capital mineira. Revirando os arquivos de jornais na época, constata-se que Belo Horizonte só debatia dois assuntos: o impeachment do presidente Collor e a contratação de Renato Portaluppi pelo Cruzeiro Esporte Clube.


Aos 29 de idade, Renato já era ídolo consagrado de grandes clubes e da Seleção Brasileira. Recém-finalista do Brasileiro 1992 pelo Botafogo, o ponta-direita estava insatisfeito contra as críticas pessoais que recebeu da torcida carioca. Botafoguenses estavam bravos porque o craque organizara um churrasco com atletas flamenguistas uma semana após a perda do título para os rivais.


A raposa César Masci farejou a oportunidade e honrou o cargo de presidente, outrora ocupado por Felício Brandi, e agiu de forma certeira para fazer uma proposta e fechar contrato de seis meses com Renato.


Alvoroço


Para se ter noção do impacto da contratação de Portaluppi, oito mil cruzeirenses se espremeram na Toca da Raposa I para acompanhar o primeiro treino do craque. Renato bateu bola entre os juvenis para pegar ritmo de jogo.


Três dias antes, o aeroporto já ficara pequeno para conter a multidão que recepcionou a maior contratação do ano. Era o prenúncio dos tsunamis de gols que ocorreriam no Mineirão.


Um Elenco Inesquecível


Após um primeiro semestre regular, o Cruzeiro de 1992 disputava o Mineiro com os reservas enquanto priorizava a difícil Supercopa dos Campeões da Libertadores da América, torneio mais seleto já criado pela Conmebol e que reunia os campeões da Libertadores até então.


A Raposa defendia o caneco. O título na incrível virada contra o River Plate no anterior ainda emocionava a torcida que queria o bicampeonato.


Pra isso, o presidente César Masci, que almejava concorrer ao cargo de vereador em outubro, montou um esquadrão com os seguintes nomes:

Crédito: divulgação Conmebol
Crédito: divulgação Conmebol

O craque Luizinho ao lado de Célio Lúcio na final contra o Racing. A segurança da zaga para o ataque celeste brilhar.


- Luizinho: lendário zagueiro da Seleção. Dotado de um perfeito senso de posicionamento e habilidade pra matar a bola no peito e jogar com elegância. Já veterano, acumulava mais de 500 jogos com a camisa do rival, mas isso não o impediu de ser bem recebido e honrar a camisa estrelada.


- Paulo Roberto: lateral-direito campeão da Libertadores e do Mundial ao lado de Renato Gaúcho, no Grêmio, nove anos antes.


- Betinho: centroavante de bom posicionamento.


- Renato Gaúcho: ponta-esquerda destemido que veio pra fazer história colecionando taças até 1996.


- Douglas: a jóia da coroa. Craque revelado nas categorias de base do Cruzeiro e que ajudou a carregar nas costas times limitados da década de 80, regressou ao Cruzeiro para pegar o merecido filé. Era o parceiro que ideal que Marco Antônio Boiadeiro, remanescente de 91, precisava no meio campo.


Basicamente, esse era o time do treinador Jair Pereira:


Paulo César Borges, Paulo Roberto, Célio Lúcio, Luizinho e Nonato; Douglas, Marco Antônio Boiadeiro e Luiz Fernando; Renato Gaúcho, Betinho e Roberto Gaúcho.


Placar
Placar

O esquadrão 92: Paulo Roberto, Célio Cúcio, Luizinho, Douglas, Nonato e Paulo César; Betinho, Luiz Fernando Flores, Marco Antônio Boiadeiro, Renato Gaúcho e Roberto Gaúcho. 


Gols


Já na estréia, Renato sapecou um gol contra o Botafogo em amistoso no Mineirão. Pelo estadual foram anotando tentos rumo à artilharia e só deu uma pausa porque foi convocado por Carlos Alberto Parreira para vestir a camisa da Seleção Brasileira.


Ao voltar ao Cruzeiro, Renato conduziu uma brilhante vitória por 8x0 contra o Atlético Nacional de Medellín pelo jogo da volta nas oitavas da Supercopa. O ídolo foi às redes cinco vezes. Estava tão fácil que numa delas marcou um gol deitado.


Recorde de Público


Com uma média de 73.105 pagantes, a Torcida do Cruzeiro registra na Supercopa 92 a maior média de público na história de todos os torneios internacionais pelo mundo.


Caminhos da Supercopa


Apesar de despachar o Medellín (campeão da Libertadores 1989), o restante do caminho foi duro. Nas quartas, o Cruzeiro fez novo duelo contra o River Plate tendo que enfrentar os craques argentinos, os roubos de arbitragem e uma decisão por penaltis.


O time avançou por um triz pra fazer uma semi-final contra o Olímpia, do Paraguai. O Cruzeiro passou após vencer os paraguaios por 1x0 em Assunção.


Renato foi decisivo com gols e cavando penaltis sempre convertidos por Paulo Roberto, capitão do time.


Crédito: divulgação Conmebol
Crédito: divulgação Conmebol

O Olímpia, que fora campeão da Libertadores e do Mundial no anterior, não aguentou o Cruzeiro de Renato. 


Final


Na decisão contra o argentino Racing, o Cruzeiro entrava mordido pela dolorosa perda da final da Supercopa 88. Quatro anos antes, a Raposa perdeu a final em casa contra um Racing liderado pelo espetacular goleiro Fillol, campeão mundial e titular da Copa de 1978.


A noite de 18 de novembro prometia uma chuva torrencial em BH e as águas caíram assim que a bola rolou.


Já na primeira bola recebida, Portaluppi fez firulas pra cima do zagueiro e emendou uma sequência de embaixadinhas antes de cruzar a bola pra área. O Mineirão explodiu quando os 78.000 cruzeirenses compreenderam que o craque estava inspirado.


Renato não fez gols, mas foi o melhor em campo na goleada por 4x0. Assistências, dribles, cavada de expulsão e experiência para cadenciar o jogo. O repertório completo de um astro da camisa 7.


O Cruzeiro foi até Buenos Aires com uma vantagem consolidada e, mesmo perdendo no El Cilindro por 1x0, voltou pra casa com um bicampeonato. O Cruzeiro Esporte Clube fazia história se consolidando como um gigante continental e Renato se tornava ídolo do clube.


Crédito: divulgação Conmebol
Crédito: divulgação Conmebol

Em Avellaneda, Renato Gaúcho campeonava mais uma vez. Cruzeiro Bi da Supercopa.


Mineiro 92


O Cruzeiro venceu o estadual de 1992 numa final contra o bom América dos jovens Euller e Ronaldo Luiz. Renato fez seu melhor jogo do campeonato na semi-final contra o Rio Branco, de Andradas, anotando quatro gols na goleada por 7x0.


O Cruzeiro priorizava a Supercopa e por isso jogou parte do estadual com os reservas. Nomes como Cleison, Ramon Menezes e Toto eram protegidos de Renato Gaúcho.


"Renato conversava com Jair Pereira e pedia para que nos desse oportunidades", revelou recentemente o ex-atacante Cleison.


Um ídolo


Foram seis meses, mas o suficiente para carimbar Renato como ídolo do Cruzeiro. Um multicapeão por todos os clubes grandes, por onde passou, registrou seu nome. Foram 18 jogos, 18 gols, grande futebol, raça e comprometimento de um jogador dotado de um talento absurdo.


Poderia ser mais? Certamente. Renato não renovou com o Cruzeiro e voltou ao Flamengo em janeiro de 1993. César Masci, recém-eleito vereador de BH, não conseguiu manter o elenco e nem repor à altura para o ano seguinte.


Se Renato ficasse no Cruzeiro 1993, teríamos um time forte para brigar pelo título de Campeão Brasileiro, além de proporcionar ao Brasil o prazer de ver um ataque composto por Renato Gaúcho e Ronaldinho Fenômeno.


Mesmo sem Renato, o time foi campeão da Copa do Brasil 1993. Mas esse é um outro assunto para outro dia.


Hugo Oliveira Pegoraro Serelo, 31 anos, é pesquisador esportivo, repórter policial e radialista. Nasceu em Andradas-MG e mora em Divinópolis. Torcedor do Rio Branco de Andradas e tem uma leve simpatia pelo Cruzeiro Esporte Clube.