As raízes podres da árvore genealógica da Fifa

"Nós precisamos de mudança estrutural nas raízes mais profundas". Essa é uma das frases que constam no discurso de renúncia de Joseph Blatter à presidência da Fifa. A fuga ocorre justamente quando o suíço seria o natural próximo alvo das investigações do FBI e do departamento de justiça norte-americano.


A corrupção dentro da Fifa deixou o universo das suposições e ganhou as lupas do mundo todo. As raízes estavam profundamente podres. E Blatter parece seguir o mesmo caminho de João Havelange e Ricardo Teixeira, que abandonaram o barco assim que o cerco das investigações provocou aquela espécie de claustrofobia que ataca os suspeitos ou acusados.


Talvez seja difícil simplesmente podar o que está gravemente corrompido. Não se pode correr o risco de uma nova ramificação com os velhos métodos de sempre. Lá no topo da árvore encontram-se recorrentes, como Jack Warner, que já havia deixado a presidência da Concacaf por conta de outro caso de corrupção em 2011. Também está Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa e homem de confiança de Blatter, investigado de participação no pagamento de 10 milhões de dólares a... sim, acreditem, Jack Warner. Por lá também estão José Maria Marin, preso na Suíça após ser acusado de receber propinas, e Marco Polo Del Nero, o sucesso de Marin, pressionado para que renuncie à presidência da CBF. 


É por isso que a comemoração pelas prisões de diversos executivos da Fifa e a renúncia de Blatter é válida, mas ainda não suficiente para imaginar um futuro digno para o futebol mundial. A árvore genealógica brilhantemente desenhada por Diogo Salles, cartunista e blogueiro do ESPN FC, é um retrato obscuro do comando do maior esporte do mundo.


Diogo Salles
Diogo Salles


Os prováveis candidatos à sucessão já carregam as ervas de outras acusações e rejeições. É o caso de Michel Platini, o concorrente mais forte nas apostas, investigado pelo Ministério Público da Suíça em denúncias de compras de votos para as Copas da Rússia (2018) e Catar (2022).

A melhor alternativa para o futuro da Fifa seria simplesmente derrubar essa estrutura e plantar uma nova árvore, sem o cacoete dos acordos, afagos e a completa falta de transparência regidos pela entidade máxima do futebol e as confederações. Só assim será possível acreditar numa revolução que de fato transforme o jogo do poder.

Quem diria que o maior legado da Copa do Mundo seria justamente escancarar a crise dentro da Fifa. Não é hora de recuar. Não se pode parar de sacudir a árvore, até que as últimas folhas pútridas alcancem o chão.