Uma longa e melancólica quinta-feira rubro-negra

A semana já não tinha começado bem. O domingo foi a ressaca de um amistoso onde saímos derrotados contra o Vila Nova, com o time mostrando um mix de tudo que mais irritou a torcida em 2016. Posse de bola que não resulta em oportunidade clara, atacante de lado de campo que não parecia familiarizado com a função, Márcio Araújo titular, derrota com gols aleatórios sofridos diante de times tecnicamente mais fracos.

Na quarta, outro jogo, dessa vez um treino contra o Serra Macaense, da segunda divisão do Campeonato Carioca. Mais uma derrota, dessa vez por 2x1. Alguns torcedores apreensivos, outros preocupados, ex-integrantes da diretoria criticando a equipe em redes sociais. A maior parte de nós focando no lado bom que foi Zé Ricardo ter testado vários jogadores, dado espaço até pro Vinícius Junior, em um jogo o Adryan deu uma bela assistência. vamos pensar que esse time ainda vai pegar ritmo, estamos no começo de temporada.

Aí veio essa quinta-feira. De manhã nosso vice-presidente de futebol, Flávio Godinho, homem forte no clube e responsável por negociar boa parte das transferências de jogadores, é preso em uma das fases da Operação-Lava Jato. Sua prisão teve algo a ver com atividades do clube? Não, pois o motivo da prisão são as operações que Godinho realizou com Eike Batista, um dos principais alvos da “Operação Eficiência” da Polícia Federal. Ainda assim, causa prejuízos para a imagem do Flamengo? Claro, pois uma chapa formada por empresários e que vem agradando exatamente pelo foco em honestidade e eficiência de gestão perde um pouco de credibilidade quando um dos seus integrantes é preso por corrupção.


ESPN
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Mas isso foi apenas o começo, claro. Afinal, logo antes da hora do almoço foi anunciada a venda do lateral-esquerdo Jorge, um dos destaques do time, para o Mônaco, operação essa em que o Flamengo receberia R$ 25 milhões por 70% dos direitos federativos do atleta. E ainda que essa seja uma arrecadação recorde para o clube numa transferência, fica, por diversas razões, a sensação de que esse pode não ter sido o melhor negócio e muito menos o melhor momento.

Primeiro porque ao falar em “negociação recorde” precisamos lembrar que o Flamengo é historicamente um mau vendedor, tanto que nossa última grande negociação foi a saída de Renato Augusto por 15 milhões de reais, e a saída de Hernane Brocador, por exemplo, nem foi paga ainda pelo clube árabe, um bom tempo após o jogador ter ido embora de lá. Isso sem falar que Jorge, disputando uma Libertadores, teria como tendência apenas se valorizar mais, gerando maior retorno financeiro ao clube.

E é a própria Libertadores a segunda e maior razão que o clube talvez tivesse para atrasar essa venda, ao menos até o fim do ano. Sendo Jorge não apenas um dos maiores destaques do time, como também uma das poucas revelações que vingaram no profissional nesse passado recente, seu papel no retorno do Flamengo à maior competição do continente seria importantíssimo, técnica e simbolicamente. Titular absoluto da lateral-esquerda, arma ofensiva e ponte entre a geração da Copinha e os jogadores mais experientes, Jorge com certeza vai fazer falta durante esse ano, por mais que Trauco possa se mostrar uma boa surpresa.

25 milhões de reais é uma boa grana e ajuda as finanças? Claro. Mas não seria esse um momento em que faria mais sentido priorizar o critério esportivo do que o financeiro, segurando Jorge ao menos até o final do ano, já que poderíamos assim garantir um maior retorno esportivo e até mesmo financeiro? Em alguns meses vamos provavelmente descobrir as respostas.

Diante disso tudo, chegamos na tarde de quinta de uma semana que não foi das mais animadoras na Gávea, com derrotas, prisões e saída inesperadas de peças-chaves do grupo. Resta torcer pra que o último dia dessa semana, o sábado, quando jogamos contra o Boavista, na estreia pelo Carioca, seja melhor do que os outros que tivemos até aqui.