Não sejamos clubistas diante da tragédia

E aconteceu mais uma vez. No que parece ter sido uma combinação de desorganização, falta de policiamento e violência, antes mesmo que a partida entre Flamengo e Botafogo começasse já tínhamos um torcedor morto e ao menos mais sete hospitalizados após incidentes no entorno do Engenhão. As imagens mostram um ambiente praticamente de guerra, com explosões, relato de troca de tiros e ao menos mais um torcedor atualmente hospitalizado em estado grave


Gazeta Press
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Uma tragédia chocante mas que infelizmente se repete com uma frequência absurda, o tipo de problema que todos nós conhecemos muito bem e que vem afastando torcedores sem que sejam tomadas soluções realmente efetivas – proibir organizadas dentro do estádio ou a entrada de bandeiras não representa exatamente uma solução, se as pessoas podem continuar se matando do lado de fora dele.

E ainda que o torcedor assassinado, Diego Silva dos Santos, fosse botafoguense, a tragédia obviamente afeta a todos nós, independente de clubes, por sermos todos torcedores e todos humanos. Todos nós frequentamos estádios, amamos futebol, desejamos poder fazer isso em segurança e com os nossos entes queridos como a diversão e a paixão que isso representa, e não como um risco para nossa vida.

Por isso me surpreende, como sempre, a falta de empatia e sensibilidade que surgiu de todos os lados não só antes, como durante e depois da tragédia. Flamenguistas dizendo que o Botafogo queria adiar a partida por “medo de perder”, quando diante de um contingente policial reduzido para o clássico essa talvez fosse a atitude mais sensata ou ao menos algo que deveria ser considerado. A postura de ambos os times nas redes sociais, primeiro com a postagem do Flamengo que, ainda que sem má-intenção, foi extremamente inoportuna, seguida pela reação do Botafogo que foi desproporcional, e em seguida a resposta da diretoria rubro-negra, que preferiu seguir elevando o tom em vez de buscar uma posição mais sensata diante da discussão.

Diante de uma tragédia, diante da perda de uma vida, não existe Flamengo, não existe Botafogo, não existe Vasco nem Fluminense. Ninguém precisa “ter razão” numa hora dessas porque este tipo de discussão nem mesmo importa quando existem pessoas hospitalizadas apenas porque decidiram ir a um estádio ver um jogo de futebol. Tudo isso é pequeno diante do problema real e só serve pra distrair as pessoas da verdadeira questão, que é a frequência com que precisamos deixar de falar de futebol pra falar sobre a violência que o cerca e acaba nos tornando mais distante dele.

Mais do que postar tuites inoportunos ou acusar tal tuite de ter tal intenção era a hora de Flamengo e Botafogo estarem pensando em como juntos podem fazer a sua parte para evitar que situações desse tipo se repitam. Seja exigindo critérios melhores de segurança para entrar em campo, seja pressionando o governo, seja cortando vínculos com grupos que levam a violência para os estádios.

Porque podemos estar uns contra os outros numa disputa esportiva que dura 90 minutos, mas durante todo o resto do tempo era para sermos capazes de ter a percepção de que estamos no mesmo time e só juntos vamos conseguir transformar o nosso futebol em algo mais seguro, organizado, cuja pior tristeza possível seja apenas uma derrota dentro de campo num clássico.