Diego: a um título de ser ídolo do Flamengo

Gazeta Press
Gazeta Press


Quando Diego começou a ser cogitado no Flamengo, admito que não me empolguei. Talvez porque a imagem que eu tinha dele era de um jogador de baixa intensidade e tendência a problemas nos clubes; talvez porque ainda tinha em mim as sequelas emocionais que apenas alguém que acreditou de coração que Carlos Eduardo ia resolver os problemas do meio de campo do Flamengo poderia ter. Diego veio e, enquanto via a torcida tomando o aeroporto pra comemorar sua chegada, eu, transformado num Grinch de contratação, olhava pra tela do computador e dizia um amargo “também não é pra tanto”.

Quando Diego estreou com gol, um lado meu, o lado mais flamenguista, gritou aquele “AGORA TEMOS CAMISA 10”, mas uma parte minha, possivelmente os genes que herdei da minha mãe botafoguense, ainda sussurrava um “calma que isso pode ser fogo de palha, não tira conclusão precipitada, lembra que ir ao estádio dá azar e fazer gol no começo dá mais tempo pro outro time virar o placar”. Como eu disse, eu fui criado por uma botafoguense.

Flashforward pra ontem. Flamengo x Madureira em Volta Redonda. Um calor capaz de não apenas fritar um ovo como logo depois causar no ovo o fenômeno da sublimação e ele evaporar na sequência. Diego causa a expulsão do zagueiro do Madureira, Alex Moraes, e já coloca o Flamengo em vantagem numérica. Falta cobrada, jogada se desenrola, tentativa de tabela na frente, sem sucesso. Zagueiro vai tentar passar, Diego aplica um carrinho, a bola vai pra frente, defensor tenta tirar, Diego recupera a bola, domina, quase caindo chuta. Gol.

E ainda que Diego tenha ganho ano passado prêmio entre os melhores do campeonato, ainda que tenha feito gols e tido atuações decisivas, admito que foi aí, nessa jogada, que eu finalmente entendi que, sim, estamos vendo nascer um ídolo no Flamengo.



Claro, existem muitas variáveis. Diego tem só 8 meses de clube e no futebol de hoje em dia qualquer jogador pode apenas dizer no intervalo de uma partida que vai sair pra comprar um maço de cigarros e nunca mais voltar. Diego ainda não ganhou nada pelo Flamengo e, ao contrário de outros clubes onde você pode se tornar ídolo puxando briga em jogo ou sendo artilheiro de competição, na Gávea é vencer ou nada, idolatria não é como exame de sangue, não acontece em jejum.

Mas Diego quer vencer, Diego quer jogar, Diego quer ser ídolo. Não apenas porque é dos jogadores mais regulares desse elenco – pode não fazer sempre jogos brilhantes, mas é difícil recordar de um jogo ruim dele desde que chegou ao clube –, não apenas porque é dos mais decisivos, não apenas porque abraçou a torcida e se adaptou ao clube numa velocidade incomum pra um jogador que passou tanto tempo na Europa e nunca havia jogado no Flamengo.

Você sabe que Diego quer ser ídolo por lances como o de ontem. Porque ele está disposto a, num jogo contra o Madureira em Volta Redonda, meter o pé pra dar carrinho, ir disputar bola com zagueiro, chegar lá na frente e decidir, mesmo caindo, pra depois comemorar como se fosse um gol numa final de Libertadores. Onde outros jogadores poderiam se acomodar, onde já vimos vários fazerem apenas o mínimo, Diego quer mais, porque sabe que, para que possamos conquistar coisas grandes, não existe jogo pequeno o bastante pra não ser levado a sério. E poucas coisas são mais Flamengo que isso.