Henrique Dourado e o trauma rubro-negro de contratar 'artilheiros do Brasileirão'

E o Flamengo parece estar com tudo certo para contratar Henrique “Ceifador” Dourado, atualmente no Fluminense e artilheiro do último Campeonato Brasileiro com 18 gols, tendo ao todo balançado a rede 32 vezes na temporada, somando também estadual, Sul-Americana e Copa do Brasil. A negociação, que segundo informações gira na casa dos 11,5 milhões de reais, traria o centroavante de 28 anos para a Gávea para assumir a titularidade quase absoluta da camisa 9, já que Guerrero se encontra suspenso e Vizeu parece já de saída para a Udinese, curiosamente sem a companhia do zagueiro Rhodolfo, o que tende a diminuir seu número de gols por temporada e decepcionar os fãs italianos da porradaria seguida de gesto obsceno.

Mas ainda que contratar o principal goleador do Brasil na temporada anterior possa parecer uma aposta razoavelmente certeira para um clube tão necessitado de uma referência de área, o histórico do Flamengo com esse tipo de contratação não vem sendo exatamente animador no passado recente.

Primeiro tivemos Dimba, que chegou na Gávea em 2004 anunciado como “o maior artilheiro do Brasil”, após ser o melhor marcador do campeonato nacional em 2003 pelo Goiás, batendo o recorde da competição na época, com 31 gols. E ainda que seja realmente complicado cobrar muito de um atacante quando ele está numa equipe com China, André Bahia, o volante Da Silva e tem como dupla lá na frente esse verdadeiro dispositivo contraceptivo de gols chamado Dill, a média de 0,35 gol por jogo de Dimba foi considerada decepcionante e em abril de 2005 ele deixava o rubro-negro, ensinando a lição de que ser goleador no Goiás não garante que alguém vá brilhar no Flamengo.


Gazeta Press
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Dimba treinando controle telepático da bola após notar que com os pés tava complicado


Mas não aprendemos a lição, claro, e em janeiro de 2007 mais um artilheiro do Campeonato Brasileiro passado, mais uma vez pela Goiás, desembarcava no Rio. Souza “Caveirão” chegou sob a sombra de Obina – o que diz muito não apenas sobre Souza como também sobre a época que o Flamengo vivia – e no Brasileirão daquele ano marcou apenas 6 gols, um terço do que havia marcado no campeonato anterior. Em 2008, quando finalmente saiu o Flamengo em direção ao futebol grego, havia marcado mais 3 gols na liga nacional e deixado como principal lembrança na torcida uma comemoração zoando o Botafogo, atividade essa que nem apresenta um grau muito elevado de dificuldade, se você for pensar.


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Souza: tão eficiente que se não voltava pro Rio com gol na bagagem trazia ao menos um sonzão da hora


Em defesa da contratação de Josiel no ano seguinte, após ter sido artilheiro do Brasileirão de 2007, podemos ao menos dizer que ele não veio do Goiás. Mas com 20 gols pelo Paraná na temporada anterior, o “Jesus da Gávea”, também não deu tão certo no Flamengo, tendo como único milagre a multiplicação dos meses sem balançar as redes (foram seis) e sendo dispensado do clube após uma humilhante derrota de 5x0 para o Coritiba – partida essa que também selou a despedida de Jônatas, o Zidane moreno da Gávea, e de Alex Cruz, um volante que o Flamengo trouxe de um time chamado Ivinhema e do qual com certeza nenhum de nós lembrava até o presente momento.


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Josiel parecer com Jesus talvez o mais forte argumento que qualquer ateu pode oferecer


Esse retrospecto é alguma garantia de sucesso ou fracasso para Henrique Dourado? Claro que não. Mas o fraco desempenho de vários atacantes que chegaram no Flamengo com status de solução serve para lembrar que atuar na Gávea, ainda mais com a obrigação de fazer gols, exige não apenas técnica e capacidade de finalização, mas também garra, coragem e uma aptidão emocional que nem todo jogador que marcou muitos gols pelo Goiás, Paraná ou Fluminense pode necessariamente possuir.

Por isso, se Dourado vier – e até termos confirmação oficial estamos discutindo apenas especulações – cabe a ele não apenas a tarefa de se entrosar com um grupo já formado e fazer os gols que nem mesmo Guerrero vinha fazendo como também quebrar esse tabu dos ex-artilheiros e deixar claro que mesmo formado em outro clube ele consegue sim suportar o peso da camisa vermelha e preta. Ou isso ou apenas aceitar que, em vez de entrar para a história do Flamengo ao lado de seus maiores artilheiros, ele irá figurar na mesma galeria que Dimbas e Josiéis. Cabe ao futuro dizer se o “Ceifador” virá para ceifar as defesas adversárias ou será apenas mais um a ceifar a nossa paciência.