O Flamengo aprendeu a ganhar dinheiro. Mas será que aprendeu a gastar?

É difícil saber o que é verdade ou ficção quando começam as especulações em toda janela de transferência. Flamengo ainda negocia com Vitinho? Dória está mesmo quase fechado? O lateral Adriano pode estar chegando? Ozil vai assinar com o Vasco porque gosta do Rio e já tem um apartamento em Copacabana? Eike Batista está mesmo trazendo Messi para o Botafogo? São muitas as perguntas e cada fonte oferece uma resposta absolutamente diferente da outra.


E dentro da lista atual de especulações rubro-negras, poucas estão recebendo mais atenção do que a possível chegada do holandês Ryan Babel, atualmente no Besiktas, não apenas pelo óbvio aspecto “Elifoot 98” da contratação como também pelos valores envolvidos, que girariam na casa dos 40 milhões de reais e colocariam a chegada do atacante entre as cinco maiores transferências da história do futebol brasileiro.


Não vou aqui discutir a qualidade de Babel, já que por mais apaixonado que seja por futebol eu teria que mentir muito para tentar avaliar em detalhes um jogador cujos quatro últimos clubes foram Kasimpasa, Al Ain, La Coruña e Besiktas, equipes que fariam até aquele seu colega de escritório que lembra de cabeça a zaga da Portuguesa de 78 soltar um “aí você me quebra”. Babel parece ser um atacante de lado de campo de ao menos alguma qualidade, já que tem várias passagens pela seleção holandesa, mas, ao mesmo tempo, é complicado acreditar que se trate de um gênio da bola, já que nunca ouvimos falar dos “galácticos do Kasimpasa daquela temporada 2014”.


Mas ainda que seja complicado discutir a qualidade de Babel ou mesmo a veracidade da informação – eu só fui acreditar que não era apenas mais um boato maluco criado por gente do Twitter dotada de um avatar de Naruto e muito tempo livre quando Barbieri citou o jogador em uma coletiva – é possível refletir um pouco, mesmo que apenas como exercício teórico, sobre os valores que estão sendo considerados nessa negociação.


Gazeta Press
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Se o Flamento tivesse investido em telexfree todo o dinheiro gasto com Marcelo Cirino ainda teríamos tido menos prejuízo


Por um lado existe o argumento de que um clube que se capitalizou da maneira que o Flamengo fez nesses últimos anos e busca o tipo de objetivo que ele procura – e para o Flamengo a meta precisa sempre ser vencer tudo, indo desde futebol até regatas, passando por e-sports e toda olimpíada de matemática de colégio ser vencida por um pequeno rubro-negro – precisa sim investir e, em um mercado como o atual, as boas contratações custam caro. Conseguir buscar jogadores de seleção no mercado estrangeiro seria então uma vitória e até mesmo um sinal da força do Flamengo no contexto nacional e internacional.


Mas, por outro lado, investir 40 milhões de reais num jogador de 31 anos que não apenas não parece ser um fora de série como pode demorar a se adaptar ao nosso futebol, não é um pouco demais? Não existiriam opções de melhor custo-benefício no mercado? Se formos mesmo gastar esse tipo de soma, não existem jogadores de nível técnico mais alto? Quando vocês veem o Flamengo fazendo uma contratação vultuosa demais vocês também não tem flashbacks com Marcelo Cirino se apresentando na Gávea e falando “não sei se chegarei ao porte de Zico”?


E ainda que tudo seja apenas especulação – talvez não sejam esses os valores, talvez não haja negociação, talvez Ryan Babel nem exista de verdade e tudo isso seja uma ilusão criada pela nossa mente para lidar com o trauma da saída de Vinícius Jr – é importante que o Flamengo, que soube sair de uma imensa tempestade financeira, saiba também navegar no mar menos revolto que é não ter mais conta de luz e água da sede com três meses de atraso.


Precisamos de peças de reposição, precisamos de jogadores que cheguem para realmente somar ao time, mas esse tipo de investimento precisa ser certeiro e planejado, já que muitos movimentos errados já foram feitos até aqui – Mancuello, por exemplo, a versão jogador de futebol daquele par de patins roller que você comprou, usou duas vezes, quando conseguiu repassar para alguém a pessoa já queria te devolver no dia seguinte.


E com o retorno do Brasileirão se aproximando, o que resta é torcer para que, com Babel ou sem Babel, com propostas milionárias ou realizando negócios de ocasião, o Flamengo consiga manter o bom desempenho de antes da pausa da Copa e conquiste, em 2018, os títulos que deixou escapar em 2017. Afinal, independente dos fatores, independente dos valores, o mais importante em qualquer conta envolvendo a camisa rubro-negra é que o resultado final seja vencer, vencer, vencer.