SAF– Síndrome de Abstinência do Flamengo

Começa com as pequenas coisas. É aquela quarta-feira em que você consegue dormir mais cedo, é aquele domingo que você passa todo com a família sem ligar a televisão. É uma estranha sensação de liberdade, de despreocupação, de ouvir a palavra “lateral” e não precisar ter um calafrio porque é só o flanelinha avisando pra ter cuidado pra não arranhar a lateral do carro. E ok, você acabou arranhando, mas ainda assim mantém a serenidade no olhar. Qualquer arranhão é menos feio que um cruzamento do Pará.


Um pouco dessa paz some por causa do noticiário. Você tenta não ficar acompanhando tudo, sabe que é muita especulação, tem a postura pessoal de só elogiar ou criticar depois que a contratação é oficializada, mas como assim 100 milhões no Gabigol? Quem é Luis Díaz? E como assim tão negociando com 50 atacantes mas não fecharam com nenhum lateral-direito? Você respira fundo, você quer aproveitar essa pausa, você não vai criticar a nova diretoria ainda, é preciso ter confiança.


Mas por fim vem a abstinência. Já faz um mês que você não vê o Flamengo jogar e sem essa válvula de escape você começou a descontar nos outros aspectos da sua vida a tensão que você dedicava ao futebol. O Uber errou o caminho, você deu 3 estrelas e colocou nos comentários “nós queremos respeito e comprometimento”. Você foi na casa do seu amigo, atirou a bolinha pro cachorro, o cachorro não foi pegar, você soltou um “tremendo come e dorme, espero que não renovem seu contrato”. Você estava assistindo aqueles programas de procurar imóvel no Discovery H&H e quando o casal escolheu a casa errada você já berrou um “CASAL BURRO, NÃO SABE ESCOLHER CASA, C........., BANDO DE BURRO, TU VAI DIZER NÃO PRA ESSE JARDIM? VAI ESCOLHER ESSA GARAGEM MENOR? NEM CASA TU MERECIA TER, SEU BABACA”. Sua família está atônita, os vizinhos interfonam pra perguntar se está tudo bem, te tiram da sala antes que comece o programa de casamento cigano porque nem imaginam qual vai ser a sua reação.


Gazeta Press
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Negueba e "vou beber só umazinha": duas promessas que você tentou acreditar mas sabia que não iam vingar


Mas nessa quinta-feira, finalmente, esse sofrimento acaba – e essa paz também. Isso porque o Flamengo estreia pela Copa São Paulo de Juniores, contra o River do Piauí, às 16:00. É a hora de conhecer os craques da base, as promessas do futuro, os jovens jogadores que você vai reclamar que não estão recebendo chances quando o titular da posição na equipe profissional cair de produção. Irá Reinier seguir o ritmo de 2018 e continuar se destacando mesmo diante de adversários uma categoria acima? Estará Vitor Gabriel realmente se mostrando pronto para subir ao profissional? Diante do atual cenário político que o Brasil vive, será o meia Marx Lênin um dos mais caçados em campo do torneio?


E mais do que suprir a nossa abstinência natural de Flamengo, é exatamente essa a função da Copinha: apresentar para nós o futuro do clube. Afinal, após mais um ano em que os problemas da equipe foram solucionados muito mais pelas revelações caseiras do que pelas contratações – compare o volume de alegrias que Vinícius Jr, Paquetá e Léo Duarte te deram com as alegrias que Vitinho, Dourado e Rhodolfo te causaram – e num período em que o Flamengo parece estar, apesar da saúde financeira, estar encontrando dificuldades para trazer novos jogadores, é mais importante do que nunca analisar as opções que irão surgir ao fim da nossa mais tradicional competição da base.


Claro, como sempre acontece nesses torneios, não temos garantia nenhuma de que esses meninos promissores vão vingar – vencemos a Copa SP de 2011 com Negueba, Adryan e Thomás, por exemplo – mas a simples possibilidade de surgir esse ano um bom lateral direito, por exemplo, já justifica, junto com a saudade do Flamengo, a possibilidade de acompanhar o torneio. E claro, pode ajudar o torcedor rubro-negro a, mesmo com o Flamengo em campo, manter a serenidade que a gente consegue ter quando esse time está de férias.