40 anos de Juan, um zagueiro que sempre sorriu pouco e jogou muito

É difícil listar todos os fatores que precisam se unir para criar um grande zagueiro. Na parte física você precisa de alguém que não só tenha a genética necessária para ser mais alto, mais forte, mais rápido, como também a dedicação necessária para manter essa boa forma. Na parte técnica você precisa de alguém que seja capaz tanto da sutileza do bote seguro e decisivo na pequena área quanto da intensidade da bola aérea ganha na base da pura disposição.

Isso sem falar do aspecto psicológico, claro. Um grande zagueiro, como todo grande jogador de futebol, tem que ser capaz de tomar decisões em frações de segundo, com a diferença de que um atacante pode tomar dez decisões erradas e ser canonizado por uma decisão certa, enquanto na defesa uma decisão equivocada pode representar a diferença entre vencer e perder, ser campeão ou ser vice, continuar como titular de um clube grande ou ser emprestado para o futebol chileno com a expectativa de não voltar nunca mais.

Um grande zagueiro precisa ser discreto, no sentido de não aprontar palhaçadinhas pra aparecer, mas também precisa ter o senso de protagonismo de quem muitas vezes tem o destino do time nos pés. Um grande zagueiro precisa ser sério e firme sem ser violento ou desleal, precisa ter a humildade de quem decidiu jogar numa posição de pouca glória e muita pressão mas ao mesmo tempo a confiança de quem vai ter a tarefa inglória de ser a última linha de defesa entre o seu goleiro e possivelmente badalado e milionário atacante adversário.


Site Oficial do Flamengo
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Juan não é um zagueiro, é um hipnotizador de bolas de futebol



Um grande zagueiro, é, portanto, alguém improvável. E você sabe disso porque, enquanto torcedor, ainda mais flamenguista, deve ter visto inúmeros zagueiros ruins, vários zagueiros medianos, alguns zagueiros bons mas poucos zagueiros que você realmente classificaria como grandes. Daqueles que realmente transmitiram segurança, que você realmente foi capaz de confiar, que quando o atacante partia pra cima com a bola dominada você não admitia abertamente pra não zicar mas estava muito mais preocupado com o contra-ataque que o nosso time iria conseguir armar do que com o risco de tomar um gol.

Exatamente por isso foi uma honra tão grande poder acompanhar Juan, que na última semana completou 40 anos de idade, grande parte deles com a camisa rubro-negra, que vestiu em 330 jogos oficiais, somando suas duas passagens pelo clube.


Site Oficial Flamengo
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Juan, um homem pra quem desarmar atacantes é natural mas sorrir é um esforço sobrenatural



Revelado na base e já de cara formando uma das melhores duplas de zaga da história do Flamengo, ao lado de Gamarra, Juan construiu uma vitoriosa carreira de 20 anos que envolveu títulos no Brasil, na Europa e pela seleção brasileira, sempre com um futebol que conseguia ser extremamente sério mas também absurdamente técnico, fazendo com que da mesma maneira que a FIFA teve que flexibilizar suas regras para que Davids pudesse entrar em campo de óculos ela também precisasse mudar parte de seu regulamento para permitir que o zagueiro atuasse em partidas oficiais trajando smoking completo e, em partidas eliminatórias, também uma cartola. 

Então, por todas as razões possíveis, parabéns e felicidades, Juan. Obrigado pelos grandes jogos, obrigado pelos gols evitados, obrigado pelos títulos – que poderiam ter sido mais se tivéssemos tido você no clube por mais tempo. E obrigado também, é claro, por nos ajudar a lembrar que, mesmo num mar de Gustavos Geladeiras, Welintons e Irineus, o Flamengo ainda é capaz de nos proporcionar a experiência de ver em campo um bom zagueiro. Não é comum, depende de muitos fatores mas é o tipo de coisa que todos nós, torcedores, esperamos que possa se repetir o quanto antes.