Caos no Maracanã: futebol transcende para o bem e para o mal

O sujeito que faltou ao próprio casamento para ir ao clássico; a senhora que não perde um jogo em casa há 64 anos; o maluco que largou o emprego e vendeu o carro para ver o time jogar o Mundial. Histórias comuns, um tanto fantasiosas, tratadas com muita emoção. “Só o futebol pra proporcionar uma coisa dessas”; “e tem gente que acha que é apenas um jogo”. Sim, só o futebol para proporcionar uma coisa dessas; e não, não é apenas um jogo. Mas e se o time perde o clássico e o sujeito leva um pé na bunda? Se o ingresso fica caro e a senhora não consegue mais pagar? Se perde o Mundial e o maluco, desempregado, se afoga em dívidas? O futebol transcende o racional também para o lado negativo. E aí as pessoas costumam racionalizá-lo.


“Ninguém vai ao shopping para quebrar tudo”; “ninguém vai à praia arrumar briga”. ”Me recuso a chamar isso de torcedor, isso aí é bandido”. Milagrosamente, uma ida ao shopping, à praia, é colocada no patamar do futebol. Aquele mesmo futebol que faz o cara perder o casamento, o emprego e o carro. Nunca foi contada a história do indivíduo que trocou o altar por uma tarde de sol; ou anos na empresa por uma liquidação de outono/inverno da C&A. O futebol é extremo, para o bem e para o mal.


Inegável que houve violência, quarta-feira passada, no Maracanã. O que se há de discutir é o conceito de violência. Estamos acostumados a tratar como violência somente o que explicita, a olho nu, dano físico ou material. É chavão dizer que o futebol reflete a sociedade na qual está inserido, mas é a pura verdade. Essa sociedade tem sim a violência física, mas também a violência zelada, silenciosa. E – tome mais um chavão – “violência gera violência”.



Mauro Cezar Pereira vai no ponto, ao analisar o tumulto no Maracanã sob fatores sociais. Caso recorrente, de décadas atrás, em um estado hoje falido. A diferença é que agora o torcedor mais pobre não tem alternativa. Ele, que desde sempre sofre a violência da gritante desigualdade social do país, não pode mais ir a um jogo de futebol. O Flamengo, time do coração, joga em uma Ilha do Urubu para 20mil pessoas. Prefere jogar para 8mil sem a presença do pobre, do que com casa cheia.


Em vez de faltar ao próprio casamento, esse cara acaba invadindo o Maracanã, sai quebrando tudo. Inconscientemente ou não, dá uma resposta à violência mascarada da sociedade. Um grito de vingança. Sem orientação, ideal claro, escancara uma ferida. O estádio vira campo de batalha. No cada um por si, estabelece-se uma guerra: os que não têm condição de pagar a fortuna que o Flamengo cobra pelo ingresso X os que têm. Reitero: é cada um por si. E aí sobra para todos – para o cara atropelado, para o que atropela, para o vendedor ambulante.


Que fique claro: isso não é apontar culpados. Pelo contrário! O Flamengo, as autoridades, poderes público e privado, o torcedor que paga e o torcedor que invade: todos têm alguma parte no processo. Trata-se de futebol, trata-se da sociedade.


Um sujeito que está sem receber décimo terceiro há um ano, leva três horas diárias pra se deslocar pela cidade, é privado sistematicamente de direitos básicos, trabalha 8 horas por dia, 6 dias por semana, para ganhar R$1.500 reais. Esse cara sofre, diariamente, uma violência igual ou a maior do que a que pode vir a praticar invadindo o Maracanã. Ingresso na Leste Superior, com o plano Raça do Nação Rubro-Negra, dá mais de 10% de seu salário!


Procura-se culpados, não soluções. E pouca coisa muda. A sociedade segue chamando de “bandido” o cara cuja pobreza o afasta do futebol; ao mesmo tempo em que chora com a história de quem deixou a miséria através do esporte. Violência gera violência.