Flamengo 2017 – Desgraça em rubro-negro

Foi-se o Natal, e o 2017 rubro-negro se vai de um jeito que ninguém imaginava: sem perspectiva para 2018. Sim, o ano foi tão desgastante que até aquela natural empolgação para um novo ciclo – Libertadores e tal – já se mandou para o espaço. A gente acredita na instituição Flamengo, mas no futebol está difícil de confiar.


Assim como a exemplar administração financeira, uma das marcas das gestões Bandeira é sempre vislumbrar o ano seguinte. Em 2017, batemos recorde: em maio, começamos a botar a cabeça em 2018. Hoje, a gente mal consegue pensar.


Vamos lá, por partes. Comecemos pelo começo, pela posição n° 1. Pois é, janeiro/17 está um tanto longe, mas vale lembrar que o Flamengo adentrou o ano com 3 goleiros no elenco profissional: Alex Muralha, Thiago e Gabriel Batista. Já é quase Réveillon, e hoje vemos César substituindo o lesionado Diego Alves. Alguma coisa há de errado aí! Bem verdade que em 2016 ele não poderia ser considerado péssimo, mas, desde que chegou, Alex Muralha jamais demonstrou estar à altura do Flamengo. A diretoria esperou ele atingir o patamar de pior da Série A para entender a importância de se ter um bom goleiro. Curiosamente, vinha sendo o herói da classificação até sair o segundo gol do San Lorenzo, e o terceiro do Atlético-PR.


Sim, o Flamengo caiu pela terceira vez seguida na fase de grupos da Libertadores. Sétimo vexame consecutivo no torneio. Desde 1993, não encerramos nossa participação de maneira digna. O Atlético-PR classificou no grupo, o Flamengo não. Gols de Eduardo da Silva e Carlos Alberto para a alegria deles, e nosso desespero. Desespero apenas de alguns, aliás.


Juan Mabromata/Getty Images
Juan Mabromata/Getty Images

De novo, na fase de grupos


O Flamengo perdeu os 3 jogos fora de casa, comemorou as duas primeiras derrotas. “Jogou bem”. Jogou tão bem que perdeu uma por 1x0 e levava 2x0 na outra até o minuto final. Aceitou perder, e ainda sorriu. Adicionamos mais um desastre em nossa coleção de vexames na Copa Libertadores da América e ninguém sentiu. Os atletas não estavam abatidos, o presidente elogiava o trabalho, protegia a todos. O treinador achava que tudo estava bem.


Havia o Brasileiro pela frente, e o Corinthians já liderava anos-luz à nossa frente. Nenhum poder de reação apresentado, nenhuma vontade, nada. A apatia imperou no Flamengo em 2017. Flamengo que sofreu para eliminar o Atlético-GO, foi salvo pelo gongo contra o Santos e bateu um covarde Botafogo para chegar à final da Copa do Basil. Perdeu, com falha do jovem Thiago. Inscrito pela Ferroviária, César não podia jogar.


A Sul-Americana ainda não falava tão alto, mas – a cada dia – só se confirmava a desgraça que se tornaria o 2017 rubro-negro. Ano que começou com a esperança de um “timaço”, com um trio de ouro: Diego, Guerrero e Conca. Pois é, Darío Conca chegou lesionado, fora de forma; saiu lesionado, fora de forma. O contrato previa que ele passasse a receber salário apenas a partir do momento em que entrasse em campo. Lesionado, fora de forma, entrou, por 3 vezes. Não somou 30 minutos jogados, custou cerca de R$2,5 milhões.


Já fora da Libertadores, a diretoria buscou remediar os efeitos Conca, Rafael Vaz e Alex Muralha. Trouxe Diego Alves, Rhodolfo, Geuvânio e Everton Ribeiro. Ribeiro desembarcou nos braços da galera, que gritava, eufórica, no aeroporto: “Ei ei ei, o Caetano é nosso rei”. Licença poética. Trocaram ZICO por Rodrigo Caetano, no canto.


Yasuyoshi Chiba/Getty Images
Yasuyoshi Chiba/Getty Images

Ôôôôô... Melhor do Rio!!!


A torcida também tem parte na desgraça flamenga. Parece que, para o rubro-negro, tudo sempre está bem. Tudo está bem porque Vasco, Fluminense e Botafogo não são campeões mundiais, possuem menos títulos, têm menos torcedores, e mais rebaixamentos. Com essa mentalidade, a Nação segue cantando “Libertadores qualquer dia tamo aí”, “melhor do Rio”, “e no Rio não tem outro igual...”. Não importa o que aconteça, desde que os rivais cariocas estejam abaixo de nós. O São Paulo pode ganhar 10 Mundiais, o Grêmio 20 Libertadores e o Corinthians 50 Brasileiros, que estará tudo bem enquanto reinarmos no Rio de Janeiro. O Flamengo joga contra o Santos, bicampeão do mundo, tri da Libertadores, octo brasileiro, e a gente canta “o Mundial vocês nunca vão ter”. É como se nem valesse título algum se não for conquistado por um clube carioca. Para grande parte da torcida do Flamengo, só houve um Mundial na história: o de 1981.


Para alguns rubro-negros, também, Guerrero foi o grande jogador do time em 2017. São 38 rodadas no Brasileirão, 18 nas Eliminatórias. Guerrero jogou 17 pelas Eliminatórias, 19 pelo Brasileirão. Marcou em apenas 4, “mas faz um pivô...”. Desaparece em jogos grandes, toma cartão a rodo, parece estar nem aí para o Flamengo. Verdade que ele esbraveja, reclama, mas como se estivesse lutando apenas por si. O que vale é a própria honra, não a do Flamengo.


Por R$20,00 você compra um copo plástico de Guerrero, como compra um de Diego. O tal “maestro” de uma orquestra em que ninguém toca. O encerador de bola, que só solta quando perde, quando origina um contra-ataque. O cara que erra pênalti, perde gol decisivo, e que depois de todo e qualquer jogo dá a mesma entrevista. 5x0 no Real Madrid e 2x2 com o Olaria despertam o mesmo sentimento em Diego.


E pensar que compararam Rodrigo Caetano a Zico quando o Flamengo contratou a “terceira estrela”, Everton Ribeiro...


Gilvan de Souza/Flamengo
Gilvan de Souza/Flamengo

Mengão campeão? Não, festa para um 6° lugar!


O Flamengo encerra 2017 fazendo uma festa de campeão por conseguir ficar na SEXTA posição do Campeonato Brasileiro, no último minuto, da última rodada. Festa de campeão, de verdade, não fez. Nas semanas seguintes, perdeu a Copa Sul-Americana, o ponto fora da curva – pero no mucho – da temporada. Campeão continental, Reinaldo Rueda deu um espírito diferente ao grupo para jogar torneio internacional. Terminou chorando o vice-campeonato. Contratado para finalizar o semestre e aí sim armar um time para 2018, hoje nem sabemos se ele continuará no comando.


Os craque do ano foi Juan – prata da casa lá de 1996, sem chance com Zé Ricardo – o talismã Felipe Vizeu, a grande esperança Lucas Paquetá. Nada de Diego, Guerrero, Everton Ribeiro. Pessoas que, com mais ou menos talento que as “estrelas”, sabem o que é Flamengo, entendem a paixão do torcedor.


Quem talvez até entenda, mas despreza, é a diretoria. O episódio que chocou, contra o Independiente, já havia sido visto na final da Copa do Brasil e no Fla-Flu da Sul-Americana, em menor escala. Aliás, invasões ao Maracanã são praticadas desde a abertura do estádio. Só que o cenário hoje é outro. Antes, havia setor para todos os tipos, gostos, bolsos. Hoje não. O torcedor mais pobre não consegue ver uma partida do Flamengo, seja ela final de campeonato, seja abertura de Taça Rio. O Flamengo jogou 18 vezes na Ilha do Urubu em 2017. Não lotou NENHUMA. O time mais popular do país não conseguiu encher um estádio para 20 MIL pessoas. Em parte das vezes, não abriu um setor (Sul), pois não houve a necessidade.


Marcelo de Jesus/Gazeta Press
Marcelo de Jesus/Gazeta Press

Flamengo: Há 25 anos lutando contra o fracasso


Eduardo Bandeira de Mello, Mozer, Diego, acham que está tudo bem. “Lamentam” a falta de títulos, mas veem como absurdo dizer que 2017 foi um mau ano na Gávea. Projetaram um Flamengo campeão de tudo, a torcida se encheu de esperanças, e o entregue foi um time campeão carioca invicto, sexto colocado no campeonato brasileiro, vice-campeão da Copa do Brasil e da Sul-Americana, eliminado na fase de grupos da Libertadores.


Com Paulo Victor, Léo Moura, Bressan, Cristian, Fernandinho e Jael, o Grêmio não achou legal perder nenhum jogo. Ganhou a Libertadores. Com elenco enxuto, mas comprometido com trabalho e torcida, o Corinthians levou, com sobras, o Brasileiro.


O Flamengo teve a chance de se vingar do San Lorenzo da Mercosul, do Cruzeiro da Copa do Brasil, do Independiente da Supercopa. Caiu para os 3, foi eliminado pelos 3. O Flamengo não perdia uma disputa de pênaltis desde 2004, perdeu 3 só em 2017.


Isso aqui não é um texto construtivo, sugerindo mudanças e alternativas para melhoras. Apenas um desabafo, atrelado a um pedido: Por favor, não digam nem achem que 2017 foi um bom ano para o Flamengo.


Investir milhões pra ficar em 6° no Brasileiro, cair na fase de grupos da Libertadores, tomar pau de todo mundo de SP-MG-RS, fazer jus à pecha de vice-campeão, não lotar um estádio para 20 mil pessoas uma vez sequer, manter seu povo distante das arquibancadas, não saber quem será o treinador para a próxima temporada. Se um ano desses for um ano bom para o Flamengo, fodeu.