Flamengo: O povo voltou ao Maracanã; falta abaixar o celular

É falta, na entrada da área... Adivinhar quem vai bater ficou pra trás. De uns anos pra cá, a onda é instaurar mar de flashes nos arredores, tenha a Gávea seu camisa 10 ou não, na figura de quem quer que seja. No domingo, a bola pegou na barreira, e muitos celulares já deveriam estar na altura da coxa quando Lucas Paquetá emendou o rebote. Festa da massa, caminho aberto para a vitória. Já na quarta-feira – espertos – não abaixaram seus aparelhos. E ela foi uma vez, duas, três, no bloqueio; jamais na rede. Não se abriu caminho nenhum, empate, zero a zero.


Talvez um recado do Flamengo ao seu povo, finalmente de volta ao estádio. Povo que viu a bola pegar no pé da trave, e – cuidadosamente – se projetar às mãos de Diego Alves. Afinal, é Flamengo, é Maracanã, é nosso. Como há de ser.


Como foi nas tantas vezes em que o grito de nossa gente empurrou a bola goela abaixo do adversário. Duvida? Procure. Está na rede mundial de computadores, com narração e o escambau. Em imagens captadas pelas lentes de profissionais que fazem desses momentos o seu ganha-pão. A torcida apenas torcia quando Zico cobrou o escanteio na cabeça de Rondinelli, em 1978. Das boas energias, vieram os abraços. Era o Flamengo delas sendo campeão. De cada uma delas, e das outras milhões que ali não puderam estar. Flamengo igual, da mesma forma, não maior nem menor a ninguém.


E assim que tem de ser. Pelos pés de Adriano, Dida ou Lucas Mugni; o gol é – acima de tudo – do Flamengo. Cabe a nós festejar a glória, rubro-negros que somos. Os profissionais seguem registrando as imagens para a posteridade, em qualidade e nitidez infinitamente superiores às que proporcionam os celulares nas mãos de amadores.


Luciano Belford/Gazeta Press
Luciano Belford/Gazeta Press

Mais energias positivas, menos flashes


Não é exclusividade de A ou B, invaria de acordo com classe, renda. Talvez o sujeito nem saiba por que filma, mas filma, o que não faz sentido algum. Gol do Flamengo não é mercadoria. Não é mais belo se gravado ao fundo do quadrante superior esquerdo da cabeça de Maria Eduarda, não vale mais se filmado por Jackson. Pelo contrário.


A partir do momento em que o indivíduo saca o celular do bolso e o aponta para o gramado, o principal objetivo dele – ali, no momento – é filmar o gol do Flamengo. O gol, em si, passa ao segundo plano. O torcedor não tremula as mãos, não canta, não fecha os olhos, não ora, não faz superstição, não emana energia. Põe-se acima do Flamengo, tenta roubar o gol do Mengo para si.


Não é deixar de filmar a bola parada que fára nosso Flamengo campeão. Mas, agora que a festa retornou ao Maracanã, podemos nos diferenciar das demais torcidas sendo a única que se concentra exclusivamente na cobrança. A única cujo foco é 100% o gol. Nada mais importa, nada mais há de importar.


Longe de seu povo, o Flamengo carecia de alma. Ela voltou, exuberante, nos braços da Nação. Trazendo consigo o sorriso tipicamente rubro-negro, e aquela sorte que só a nossa gente conhece. Que emergiu numa cobrança de falta, aos 43 minutos do segundo tempo, quase 17 anos atrás. Dispensa-se maiores detalhes. Ninguém filmou, mas todos têm guardado na vida aquele momento, com as imagens devidamente registradas.