Dez anos atrás, o Maracanã vivia a noite mais épica de sua história

Se o grande propósito do futebol é alegrar e emocionar bilhões de pessoas ao redor do mundo, o torcedor do Fluminense é um daqueles que conhece bem toda a gama de sentimentos que podem ser despertados por conta de uma bola. Desde 1902, já vivemos um pouco de tudo. Já fomos do céu ao inferno. E de volta ao céu. Conquistamos grandes títulos. Perdemos decisões importantíssimas. Entregamos vitórias que pareciam certas. Caímos para a terceira divisão e, poucos anos depois, estávamos entre os melhores times da América. E mostramos a todos que o impossível não existe. Dez anos atrás demos ao mundo a maior prova disso.


No dia 21 de maio de 2008, o Manchester United se sagrou campeão da Champions League ao vencer o Chelsea, nos pênaltis, em Moscou. Foi o aperitivo para uma partida de proporções épicas que aconteceria às 21h50, no Rio de Janeiro. O Maracanã – antes da mutilação – recebeu a partida de volta das quartas de final da Libertadores, entre Fluminense e São Paulo. Depois de perder por 1 a 0 na ida, o Flu precisava de uma vitória por dois gols de diferença para se classificar.


A confiança estava nas alturas, afinal, a tarefa nem era das mais complicadas. Ainda assim, tínhamos o São Paulo do outro lado. Bicampeão brasileiro, campeão mundial em 2005, e que viria a conquistar o tri nacional naquele ano. Para toda uma geração de torcedores, estar na Libertadores já era um sentimento novo. Eu incluso. Ter a sensação de que estávamos próximos de fazer história, então, era ainda mais desconhecido. À época, tinha 11 anos e nem fazia a menor ideia de que estava prestes a viver o melhor dia da minha vida como torcedor.


André Mourão/Agif/Gazeta Press
André Mourão/Agif/Gazeta Press

A vibração de Washington, depois de quase dois meses sem marcar um golzinho sequer, ao abrir o placar, é até hoje um dos momentos mais marcantes da minha vida


Como de costume naquela Libertadores, eu estava na arquibancada verde, com minha camisa laranja de treino – que usei em todos os jogos daquela campanha - e uma bandeira que eu carregava o tempo inteiro comigo desde que comecei a ir ao Maraca, em 2001. Era um moleque de 11 anos que já tinha visto o Fluminense fazer alguns milagres, como o gol de Antônio Carlos na final do Carioca de 2005 contra o Volta Redonda. Confesso que, naquele jogo contra o time da Cidade do Aço, eu falei algumas várias vezes pro meu pai que “não ia dar”. Ele não me deixou desistir. E eu aprendi a levar isso como uma regra para todo jogo do Fluminense.


Então, quando Washington, saindo de uma seca de gols, abriu o placar logo no começo do primeiro tempo, eu vi quase 70 mil pessoas explodindo como nunca antes. Depois disso, incorporamos demais o sentimento de que, naquela quarta-feira, “era guerra”. Os apitos de milhares de torcedores, para atrapalhar o time de três cores de São Paulo, ensurdeciam. Acabou o primeiro tempo. Com o 1 a 0, o jogo iria para os pênaltis.


Mas quem tinha ficado 23 anos sem disputar uma Libertadores não ia deixar aquele jogo ir para os pênaltis. A gente sabia que, com o Fluminense, não ia ser assim. Só que os caras tinham um demônio chamado Adriano no ataque. E foi dele o gol de empate, aos 25 do segundo tempo. Minha versão de dez anos atrás ficou apreensiva. Afinal, faltavam só 20 minutos e, agora, precisávamos de pelo menos dois gols.


André Mourão/Agif/Gazeta Press
André Mourão/Agif/Gazeta Press

Um dos melhores centroavantes que já vi jogar quase acabou com um sonho. Ainda bem que não.


Mas, na saída de bola, gol de Dodô. E a chama estava mais viva do que nunca. Só que quanto mais o tempo corria, maior a agonia. Parecia que a bola não entrava de jeito nenhum. Não era possível que, depois de passar 23 anos longe de uma Libertadores, ter feito a melhor campanha da competição na fase de grupos, e chegado às quartas, com aquela atmosfera, nós fôssemos viver uma decepção por conta de um golzinho.


Eu tava atrás do gol de Rogério Ceni naquele segundo tempo. Eu vi o Thiago Neves bater o escanteio. Eu vi o Washington subir mais do que três zagueiros e meter aquela bola no ângulo. Mas até hoje, eu não sei bem se acredito. O que eu sei é que, depois daquilo, eu só consegui me jogar no chão das arquibancadas pra comemorar. E vi inúmeras pessoas fazendo a mesma coisa. Abraçando meu pai e minha mãe, vi uma penca de gente correndo freneticamente para cima e para baixo, chorando, rolando arquibancada abaixo. Era o êxtase. A loucura de quem tinha visto um jogo daqueles que sabia que ia lembrar pra sempre. Um senhor que nem me conhecia falou isso para mim pouco depois do lance, aliás. E ele estava certo.


André Mourão/Agif/Gazeta Press
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Multiplique essa cena milhares de vezes e aí vocês vão ter alguma noção do que aconteceu nas arquibancadas depois do gol. Só que foi ainda mais surreal


Dez anos depois, o que resta é saudade daqueles tempos. Ali, eu soube exatamente o que era a felicidade, pura e simples. Obrigado, Fluminense, por ter me proporcionado mais esse momento. Obrigado, Washington, pelo gol que criou a mística do nosso “placar mágico” de 3 a 1 – que se repetiu contra Boca e LDU.


Hoje, vivemos um cenário bem diferente do que naquele 21 de maio de 2008. Mas eu posso falar, por mim e outros torcedores da minha geração, que aquele triunfo sobre o São Paulo nos aproximou ainda mais do clube. E, acho que por todos os tricolores, de que aquela classificação foi a melhor noite das nossas vidas.


Os rivais que me desculpem, mas o Maracanã pode ver muita coisa legal vinda de vocês, mas um ambiente como aquele, com uma classificação antes desacreditada, aos 46 do segundo tempo, com um gol improvável, depois de passar décadas sem nem disputar a Libertadores e menos de dez anos depois de o clube ressurgir das cinzas? Ah, isso não vai ver mesmo.


Como diz a música: “Todo mundo dizia/'Fluminense, é o fim da sua vida/Mas a gente sabia/Da força da nossa torcida”.