03/07/2008: Dez anos atrás, a torcida do Fluminense passava pelo dia que desejava não ter vivido

"Quando o Fluminense perdeu o último pênalti, eu morri por alguns segundos". A frase não é minha, mas de um torcedor tricolor que cedeu seu depoimento para um vídeo saudando a luta da equipe na decisão da Libertadores de 2008, contra a LDU, no Maracanã. Eu vi esse vídeo algumas dezenas de vezes na minha vida.


E hoje, dez anos depois, ainda choro. De verdade. Assim como meu pai, com 54 anos, que já viu de tudo no estádio, incluindo Rivellino, Assis, gol de barriga do Renato e Série C, ainda dá uma respirada mais profunda quando relembra daquela final.


Mas hoje, o texto não é falando sobre o jogo. Nem sobre a campanha. É muito fácil relembrarmos a caminhada até aquela decisão, passando pela goleada épica sobre o Arsenal, a melhor campanha da fase de grupos, a vitória no último lance contra o São Paulo e a conquista do "impossível", derrotando o gigante Boca Juniors, que só havia sido eliminado da Libertadores, antes daquilo, pelo Santos de Pelé.


Eduardo Naddar/Agif/Gazeta Press
 Eduardo Naddar/Agif/Gazeta Press

Esse time fez história. Chegamos desacreditados à Libertadores. E não saímos com um título por um acaso do destino.


Hoje, eu vou falar sobre o dia seguinte. Quando Fluminense 3x1 LDU terminou, com vitória dos equatorianos nos pênaltis, já era dia 03/07/2008. Eu nunca esqueci a data da partida, registrada como o segundo dia do mês de julho. Mas eu não lembro do que aconteceu no dia seguinte. Do alto dos meus 11 anos, deixei o Maracanã me debulhando em lágrimas como nunca mais fiz. Mas saí orgulhoso do que o Fluminense tinha feito em campo.


Cheguei em casa já tarde da madrugada, mas botei na cabeça que queria porque queria ir para o colégio no dia seguinte. E pior, contra as regras do Colégio Pedro II, fazia questão de usar uma camisa do Fluminense por baixo do uniforme, para demonstrar esse orgulho. Minha mãe, até hoje, diz que eu fiquei em casa dormindo. E eu não faço a menor ideia do que aconteceu.


Acho que, para todo tricolor, a sensação é parecida: é como se, dez anos depois, ainda vivêssemos na esperança de que, a qualquer momento, vamos acordar de um longo e elaborado sonho e perceber que, na realidade, estamos prestes a disputar a final da Libertadores de 2008, buscando um milagre. Dia 02/07/2008. O dia que não terminou. Ao menos na mente de milhões de torcedores do Fluminense.


César Greco/Foto Arena/Gazeta Press
 César Greco/Foto Arena/Gazeta Press

Ah, Thiago....eu sei que é pedir demais, mas se você tivesse conseguido guardar mais um naquela noite, você teria uma estátua - merecidíssima - nas Laranjeiras. Foi quase. Obrigado.


O dia seguinte, que faz dez anos hoje, é o dia que todos nós queríamos não ter vivido. Foi exatamente a antítese do que todos os mais de 86 mil tricolores presentes no Maracanã sonhavam na noite anterior. O que era pra ser festa, virou melancolia. O que seria uma das viradas mais espetaculares da história do futebol, um prêmio para toda a luta e apoio vindo das arquibancadas, acabou se tornando um final trágico, que passou perto demais de ser o fim desejado por todos.


No fim, pelo menos pudemos sair de cabeça em pé. Infelizmente, o título, que seria de longe o mais importante da história centenária do Fluminense, não veio. Mas por incrível que pareça, conquistamos até mesmo rivais com a campanha. Muita gente que torce para outros times do Brasil, e até mesmo do Rio, comenta até hoje, comigo, que o Fluminense merecia. Que torceu para ganharmos. Nos comentários do meu texto aqui no ESPN FC sobre a vitória ante o São Paulo, foi a mesma coisa. Marcamos nosso nome na história do futebol sul-americano.


Pena que pela tragédia, e não pela conquista.


Mas é aquilo: o que não nos mata, nos faz mais fortes. E ainda vamos voltar. E vamos conquistar a América. Talvez não no curto prazo. Mas eu tenho fé nisso.


Todo mundo dizia, em 1998, que o Fluminense estava morto. Dez anos depois, estávamos decidindo o maior torneio da América do Sul. Por um gol, não fomos campeões da Libertadores. Hoje, dez anos após o vice, estamos em má fase. Mas fomos bicampeões brasileiros antes. Vivemos o sofrimento e o orgulho de sermos tricolores. E vamos nos reerguer. Como sempre fizemos. Contra tudo e contra todos, desafiando a lógica e fazendo o impossível.


Como Fluminense Football Club.