Adriano, o Imperador de Porto Alegre

Longe de mim desejar isso ao Grêmio, mil vezes um ataque acéfalo do que correr um risco desses, mas imaginem comigo um pouquinho.


Estamos em meados de janeiro de 2018. O Grêmio vive a sua pré-temporada mais tardia dos últimos muitos anos, ainda legado do calendário longo e vitorioso da temporada anterior. Depois de disputar um amistoso em dezembro e mostrar ter menos fôlego que um Zico aposentado há duas décadas e meia, Adriano chega, inexplicavelmente, ao Grêmio Tri da América.


Não é sequer um Grêmio que precisa de Adriano: mesmo sem centroavante, trata-se de um time que encontrou tantas soluções na temporada recém-encerrada que gostamos de nos iludir pensando que tudo terá um jeito. Romildo encontrará respostas até mesmo para um ataque que não existe neste momento. Renato botará um cachorro em campo e ele estará na seleção do continente daqui uns meses. Será, então, um daqueles casos raros em que, apesar do passado estelar, é o jogador quem precisa muito mais do clube.


Longe do rio, longe do morro, longe do Mengão onde – se o mundo fosse justo, a economia da bola menos desigual e a vida pessoal tivesse sido um pouco menos maldosa – ele deveria ter passado a carreira inteira e se aproximado dos mil gols. Adriano chega a uma Porto Alegre vazia, 40 graus trincando o asfalto fantasmagórico da Farrapos na tarde absurda de verão em que oito entre dez gaúchos da capital estão no mar. É a época do ano em que, mais do que todas as outras, ninguém realmente quer estar em Porto Alegre.


Ele, Adriano, não pode estar no mar. Ele precisa estar em Porto Alegre. Seu destino é ainda mais modesto que qualquer mar chocolatão do deprimente litoral gaúcho. É totalmente incerto: correr sob o sol escaldante que torra o CT Luiz Carvalho. Ser fotografado jogando água no rosto, extenuado, e ouvir o colunismo local duvidar, dia após dia, de suas capacidades. Adriano, que já foi imperador, agora reduzido a um mero legionário caído em desgraça e tentando se destacar aos olhos do deus Júpiter (que aqui atende o nome de Renato).


E o que é pior: Júpiter nem está lá. Adriano treina com a equipe de transição, a gurizada que vai disputar o Gauchão. Renato está preocupado com coisas maiores e ainda faz a pré-temporada com os jogadores que ergueram a Libertadores, que iniciam o ano com a cabeça bem longe do estadual, mais preocupados com o Brasileiro, a Copa do Brasil, o improvável (e desde já desejado) Tetra.


O começo é difícil. O Grêmio é o time a ser batido, mesmo com jogadores diferentes, e as jornadas de Ijuí e Santa Cruz do Sul são encarniçadas. Adriano entra muito aos poucos, no fim dos jogos, incapaz de mudar os resultados. “Está acabado”, dirá o narrador da grande rádio. “Foi uma aposta, mas não tem condições”, comentará o torcedor ouvido pelo repórter em meio à transmissão. Na segunda semana, as quatro mil pessoas que forem à Arena assistir a algum desses jogos que ninguém quer ver no início de ano estarão saudosas de Jael a cada toque de bola de Adriano.


Fábio Castro/Agif/Gazeta Press
Fábio Castro/Agif/Gazeta Press

Adriano no Grêmio: nós também acreditaríamos?


Mas o Grêmio não tem centroavantes. O Grêmio não tem ataque. Qualquer um que o Grêmio contratar virá tarde demais para se tornar opção imediata. E, na metade de fevereiro, Adriano pelo menos contará a experiência de ser o único trazido em 2018 a ter entrado em campo a cada jogo disputado no ano até ali. A esquadra tricolor sai de Avellaneda desapontando, como costumam ser os jogos logo depois da pré-temporada: o futebol ainda não está lá, o time campeão da América é uma memória, tudo está por ser construído de novo. A Recopa periga.


Júpiter olha aos seus fiéis e decide apostar na loucura. Não dizem que ele recupera quem quer que seja? Ele vai recuperar Adriano. Que entra na partida de volta, vive uma noite digna daquele chutaço no canto de Abbondanzieri no último lance da Copa América de 2004, talvez o momento mais sublime da sua vida dentro de um campo de futebol – e faz quatro gols no Independiente. Adriano está de volta, dirão todas as manchetes. E ele dirá somente, aos microfones inebriantes da final, que sua volta era aquilo ali mesmo. Não haverá mais. Está bom o bastante. Sua carreira termina naquele ponto, todo o resto ficará o dito pelo não dito. O plano era provar que ainda estava bem vivo. Feito isso, ele se dirige silenciosamente, pela última vez, ao vestiário de uma conquista.


A especulação de Adriano no Grêmio, a princípio, não faz qualquer sentido, é típico ar quente de fim de temporada quando não se tem nada para noticiar – mais ainda no caso do Grêmio, que conduz seus negócios discretamente e, em geral, só descobrimos quando estão concretizados. Também chegará um dia em que Renato, apesar do que fez em 2017, vai morrer na montanha que ele próprio ergueu – um momento em que não haverá como recuperar certos jogadores, mas eles continuarão vindo, na esperança de reviver a mágica temporada em que tudo deu certo.


Mesmo assim, bem lá no fundo, as pessoas que não são ruins (Deus perdoe as que são, diria aquela camiseta) devem desejar uma última noite de glória para Adriano, em qualquer lugar que ele esteja. Adriano, o Breve. Que em seu reinado fez muito, e tanto mais poderia ter feito, mas o relógio da bola é implacável para quem não consegue se cuidar. Adriano não vem, é evidente. Mas, se todos perdermos qualquer noção da realidade e ele de fato vier, que tenha então o último adeus que a vida lhe tirou.


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Inauguro hoje este espaço, forjado nas dores do gremismo do século 21, essa experiência aterradora que nos últimos dois anos começou a encontrar redenção. O nome é provocativo, mas reflete um pouco o espírito de quem cresceu perdendo e agora precisa lembrar como é bom vencer: não é preciso ser sócio tricolor para entender a referência à Social, considerado o antro definitivo da corneta no clube. Este espaço será menos corneteiro do que pessimista, menos cego do que realista, mas é dedicado a todos aqueles que passaram parte da infância e da adolescência cruzando o deserto dos 15 anos e se acostumaram a ter um pé atrás com o Grêmio.