Retrospectiva 2017: o ano que não precisava terminar

Gazetapress
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Geromel e Kannemann: a dupla por onde tudo começa e a imagem definitiva de 2017


Pode ser que, no futuro, quando só houver estatísticas e pouca memória, isso se perca. O ano de 2017 estará marcado para sempre como o do Tri da América, a confirmação da volta por cima após muitos anos de fracassos, e mesmo os gremistas que ainda sequer nasceram vão ver e rever os lances dessa temporada. Mas, por absurda que seja essa afirmação, talvez a Libertadores, sozinha, seja pequena demais para explicar a grandeza do ano que agora acaba – e do qual não queríamos ter que nos despedir.


O ano já havia começado bem diferente do que a vida tinha se acostumado a ser nos últimos 15 anos. Recém-saídos do Penta da Copa do Brasil, o título que nos tirou do deserto, nós tínhamos – pela primeira vez em uma geração – uma equipe histórica, com faixa no peito e foto de campeão. Uma equipe com a qual nos importávamos de fato. Agora não eram apenas nomes, eram também heróis que haviam construído a alegria recente, importantes em uma campanha ainda viva em nossas retinas, e que queríamos ver aumentando ainda mais a sua própria lenda com a camisa tricolor. O Grêmio vagou por anos em busca de uma cara e, de súbito, agora era o time de Marcelo Grohe, de Geromel, de Kannemann, de Luan, de Ramiro, de Pedro Rocha...


Essa sensação inicial jamais será lembrada por quem não viveu a seca, mas ela foi apenas o prólogo do que o restante da temporada ainda traria. O que o gremista viveu em 2017 é uma raridade na existência de qualquer torcedor, e isso vai além da conquista da Libertadores, um feito que, em si mesmo, já não é algo comum. Mesmo para os maiores vencedores: no Brasil, nós, o Santos e o São Paulo temos “apenas” três títulos; e até um Independiente, o grande campeão, já vai para 34 anos sem ver a cor da taça. A raridade, porém, vai além da Copa: houve uma sensação muito presente, em vários momentos do ano, de que existia uma urgência por ver esse Grêmio jogar.


É claro: houve muitos Grêmios campeões através das décadas. Mas nem todos pareciam tão bons antes de vencer um título e, por outro lado, muitos times promissores acabaram sem taça nem medalha. O Grêmio de 2017 somou as duas coisas. Essa é a parte intangível da temporada que será difícil explicar para os jovens que crescerão sem lembrar muito bem o que aconteceu até chegarmos aqui: explicar como, por exemplo, um empate por 1 a 1 com o São Paulo no Morumbi, dando um banho de bola em um jogo que não foi vencido e acabará esquecido, foi vivido naquele instante como parte de algo atípico. Este Grêmio foi grande tanto por seus resultados quanto pela maneira como jogou, pelo que os olhos registraram e os números não serão capazes. Na metade desta temporada, nós estávamos diante de um Grêmio que parecia capaz de encarar qualquer equipe que viesse pela frente.


Lá por junho, era possível perceber esse ar distinto pairando sobre o Humaitá. E não só lá: em qualquer lugar que estivesse, a equipe de Renato Portaluppi jogava com a mesma desenvoltura e hierarquia. Houve um período particularmente notável nesse sentido, entre o fim de maio e o começo de agosto, quando pareceu que os titulares gremistas nunca mais seriam superados tecnicamente, mesmo que perdessem. Pois vejam: até quando perderam nessa época, no complicado duelo contra o Corinthians ou na surreal queda para o Avaí, o Grêmio nunca foi realmente inferior. O Corinthians fez um jogo igual, decidido em detalhes - uma bola que passou pelo meio das pernas de Marcelo Grohe (tão gigante em todo o resto do ano), um pênalti desperdiçado por Luan (fundamental em tudo que não fosse cobrar penalidades). O Avaí foi daquelas coisas que tornam o futebol tão esplendoroso: dominamos o jogo inteiro, consagramos o goleiro dos caras, e perdemos por 2x0 em nossa própria cancha.


Grêmio Oficial
Grêmio Oficial

Arthur, o exemplo máximo da capacidade de reinvenção do Grêmio 2017: a estrela que nem conhecíamos um ano atrás


Para mim, esse Grêmio se mostrou diferente quando, lá no início do Brasileirão, pela terceira ou quarta rodada consecutiva, eu ainda nem tinha ligado a tevê e o time já estava lá abrindo 2x0 ainda no primeiro tempo. Bastava entrar em qualquer site de resultados ou narração minuto a minuto e, com frequência, o Grêmio já vencia – aquela partida de ida das oitavas da Libertadores, aniquilando o Godoy Cruz com 45 segundos, foi talvez o ápice desses inícios letais. Não era assim em outros anos. Não era tão fácil. Não era tão bom: ver o Grêmio jogar, mais que um dever e uma obsessão, tornou-se também uma espécie de dever moral com os netos que ainda não temos. Esse time jogava uma bola poucas vezes vista na história do clube e tínhamos que ser capazes de recordar isso um dia. Havia uma ideia clara de que se estava testemunhando a história.


Em junho, eu escrevi que os gremistas deveriam aproveitar cada segundo, e concluí:


Esse momento vai acabar. Mais cedo ou mais tarde (esperamos que ainda leve uns anos), o Grêmio estará caindo pelas tabelas. Jogando um futebolzinho miserável. Acadelado dentro e fora de casa. Mas esse momento ainda está vivo. E ainda, talvez, não tenha nos proporcionado tudo o que pode nos oferecer [adendo em dezembro: o Tri provou que o melhor estava mesmo por vir]. Aproveitem cada segundo. Esses dias, minha namorada estava meio irritada comigo porque eu estava prestando atenção num jogo do Grêmio com um foco quase doentio, um interesse que eu nem julgava existir mais em mim. "Até parece que nunca mais vai ter um jogo do Grêmio", dizia ela, ou algo nesse efeito. Haveria mil outras chances de ver aquele clube em campo. E, em qualquer outro ano, eu concordaria. Mas agora eu argumentava: "não desse Grêmio. Há vinte anos eu espero por esse Grêmio. Eu preciso ver cada jogada desse Grêmio aí, não dos outros". Será esse Grêmio que vai nos alentar pelo resto dos nossos dias - ou, pelo menos, pelo resto dos dias até encaixarmos um novo time que nos faça sonhar e prove ser capaz de concretizar essas ilusões em campo.


O sentimento havia sido ecoado, nessa mesma época, pelo meu pai. Aos 60 anos, ele é um gremista que viu e lembra de todos os grandes títulos do clube, desde o Brasileirão de 1981, mas também é alguém que viveu a agrura dos anos 70 e testemunhou desilusões o suficiente para me ensinar a nunca criar expectativas demais com o Grêmio – porque, em geral, a decepção vem. Até ele foi arrebatado pelo time de 2017, já na metade do ano. “Filho, assiste ao máximo de jogos do Grêmio que tu puderes”, dizia ele. “Eu não lembro de ter visto um time jogando uma bola dessas”. Talvez fosse exagero, mas não se pode dizer que o velho estava sendo engenheiro de obra pronta: estávamos em julho, muito antes de qualquer título ser realidade.


Agora, que temos o Tri no bolso, é fácil esquecer como aquele momento foi sublime e pouco usual – ou, pelo contrário, tentar conectar aquela magia encerrada em agosto com o que veio em novembro, esquecendo o que ocorreu no meio do caminho. Não foi bem assim, não houve uma estrada ininterrupta de grande futebol. E este é o outro aspecto de 2017 que precisa ser lembrado para o futuro. Se este fosse um ano como qualquer outro até a temporada passada, em que a Libertadores acabava junto com o primeiro semestre, não há dúvidas de que o Tri viria com um pé nas costas. Mas este Grêmio precisou lidar com novas armadilhas: a maior e mais longa Libertadores da história. Um torneio que se estendeu entre janeiro e quase dezembro, com mais de dez meses de bola rolando. No passado, era possível ser campeão com o time encaixado por apenas um semestre (em 1999, por exemplo, o Palmeiras ergueu a taça numa Libertadores que durou menos que quatro meses), mas agora a Copa exigia uma capacidade de se reinventar que só costumamos associar aos pontos corridos.


Era preciso ser constante o ano inteiro. Em agosto, o Grêmio sofreu com os desfalques de Geromel e Luan, perdeu Pedro Rocha definitivamente, e entrou setembro já sendo uma mera sombra daqueles meses em que ninguém podia conosco. Um time que agora abusava de ligações diretas, em que o resultado mais comum era 0x0 ou 1x0 para qualquer um dos lados. Um Grêmio mais próximo do que estávamos historicamente habituados, e que caiu na Copa do Brasil, viu o Brasileirão se tornar indisponível, e passou pelo que acabaria sendo o maior susto (ainda não sabíamos disso) na Libertadores, avançando com um sofrimento gigantesco contra o Botafogo – e morrendo de medo do Barcelona de Guayaquil, um sentimento que agora parece fora de lugar, mas na época era muito real, ainda mais depois da autoridade com que os equatorianos tiraram Atlético Nacional, Estudiantes, Palmeiras e Santos.


Grêmio Oficial
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Em Guayaquil, o Grêmio abandonou de vez as oscilações para se tornar campeão


O Grêmio sobreviveu até mesmo às fatais oscilações da temporada para reencontrar um bom futebol e sair com o grande troféu. Aquele time aparentemente imbatível do meio do ano ressurgiu no esplendor noturno de Guayaquil, em fins de outubro, quando fizemos a maior vantagem de um visitante na história das semifinais da Libertadores, um 3 a 0 inapelável. Era, mais uma vez, esse time encontrando soluções – como já fizera, mais cedo na temporada, após a perda de peças que terminaram 2016 prometendo ser chaves, como Walace, Douglas e Miller Bolaños, e o fracasso de contratações como Gata Fernández. O Grêmio passou por isso, pela perda de Pedro Rocha, pelas lesões de Geromel e Luan, pela suspensão de Kannemann na final, e sempre deu um jeito. Às vezes, a ressurreição surgia de lugares inesperados: Arthur, um sujeito de quem nem havíamos ouvido falar direito um ano atrás, é símbolo dessa capacidade de retomada.


Talvez o time que encerrou 2017 já não fosse tão vistoso quanto na época mais áurea daquele surpreendente meio de ano, mas o futebol seguiu aparecendo de forma sólida, pragmática e eficiente na hora certa, mais até fora do que em casa: Guayaquil e Lanús agora se juntavam a Belo Horizonte, nas semis e na final do Penta, como lugares em que o tricolor de 2016-2017 deu espetáculo longe de seus domínios. O Grêmio venceu a Libertadores como quem ganha uma maratona – exaurido, aos pedaços (e no Mundial isso ficou evidente), mas claramente mais forte que qualquer outro time na América.


Se para o meu pai, que viu o Grêmio ganhar tudo, esse time já prometia ser algo especial muito cedo, imagine para toda uma geração que sequer lembrava direito dos anos 90. Virão outros títulos e, por mais que demore, também chegará às nossas estantes, algum dia, uma quarta Libertadores. Mas esse outro aspecto que o time de 2017 nos deu, esse sentimento de ser uma equipe de capacidade única, de prometer muito e cumprir cada detalhe, pode tornar esse ano (que ainda vai crescer e se tornar lendário conforme o tempo passe) uma espécie de sonho irrepetível. Os doze meses que agora se encerram podem muito bem serem os maiores das nossas vidas como torcedores de futebol, inigualáveis pela combinação de fatores que os rodeavam (e isso que nem mencionei a situação do rival, que também ajuda a aumentar a delícia dos último par de temporadas).


Ao começar a recordar este ano, ao iniciar sua despedida (precisava mesmo acabar?), só nos resta desejar que todos os próximos sejam novas versões de 2017, por mais surreal que isso se mostre. No futebol, pelo menos, os gremistas começam 2018 com um desejo diferente do que costuma povoar as viradas de ano: que o 1º de janeiro não traga nada de novo. Que a próxima temporada seja o mais igual possível à última (talvez com uns chutes a mais em um eventual Mundial, mas o que importa mesmo é o Tetra). Já está bom demais.