Fernandinho será lembrado como muito mais do que realmente foi. E como negar-lhe esse direito?

Uma das muitas razões que torna o futebol maravilhoso é que, às vezes, jogadores que teriam grandes chances de serem lembrados negativamente – ou, pior, serem totalmente esquecidos – acabam fazendo história e ficando para as gerações futuras como muito maiores do que realmente eram. Não falo do exemplo do coirmão, o Gabiru, que é um caso tão extremo disso que ninguém se engana: parte da sua mística é justamente ter entrado em campo com tão poucas expectativas em 2006. Gabiru é outra coisa. Falo daqueles jogadores que até podem ser usados uma que outra vez sem serem tão temidos pela torcida, mas eram considerados uma piora em relação ao time titular – daqueles jogadores que, embora não sejam terríveis, é melhor evitar.


Tomem o exemplo de Aílton, o autor do gol do título brasileiro de 1996. Para quem veio depois, ou quem era jovem demais para lembrar dos detalhes daquela temporada, Aílton é basicamente o autor de um golaço importantíssimo, e quem faz golaço em final não pode ser ruim. Subitamente, um único lance faz com que ele se misture a outros autores de gols decisivos, como Baltazar, Renato, Jardel e Paulo Nunes. Mas Aílton era claramente inferior aos companheiros de time, e a rixa da torcida com ele era tremenda - tanto que sua comemoração é, mais que um alívio, um grito de fúria, uma sequência de batidas no peito e um desabafo para as arquibancadas: “eu sou foda! Bate palma pra mim!”. Hoje, há quem pense que Aílton era ídolo, embora nunca tenha sido. E nem teve tempo para aproveitar a lua de mel que o gol causaria: aquele foi, também, seu último jogo pelo Grêmio.


Acervo/Gazeta Press
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Em ação, o criticado autor do gol do bi: Aílton contra o São Paulo no Brasileirão de 1996


Aílton é um desses sujeitos que, sem jamais serem lembrados entre os melhores dos times por onde passou, tinha estrela para aproveitar os momentos grandes e entrar na história em um patamar diferente daquele em que de fato jogou. Não foi só no Grêmio que ele foi parte integral de um lance histórico: um ano antes, pelo Fluminense, foi ele o autor oficial do “gol de barriga” do nosso Renato Portaluppi em um Fla-Flu que decidiu o título carioca – e quebrou um jejum de dez anos do tricolor do Rio sem ganhar sequer estaduais. No famoso lance, Aílton faz uma grande jogada, mas chuta uma bola que parecia ter a direção da linha de fundo. No meio do caminho, Renato se joga para tentar desviá-la – e consegue, com a barriga. O juiz, porém, marcou na súmula que Aílton foi o autor do gol aos 42 do 2º tempo.


Eu defenderia a vocês que Fernandinho, que nesta semana trocou o Grêmio pelo futebol chinês, é uma espécie de Aílton desta década. Ele é, possivelmente, um dos jogadores mais criticados a encerrar o ano como titular do Tri. Sua missão era espinhosa: um dos reservas favoritos de Portaluppi, mas que sempre nos deixava uma sensação de insuficiência quando precisava entrar, ele subitamente foi transformado em titular para suprir a falta de Pedro Rocha. E, convenhamos, por mais que Fernandinho tenha se esforçado e sido importante, ele nunca conseguiu substituir Pedro Rocha à altura.


Acontece que Fernandinho é esse tipo de jogador que a história vai lembrar com mais benevolência do que quem realmente viveu a época, e é difícil de questionar essa realidade: o homem aparece nas horas fundamentais. É bem possível que os jovens um dia pensem que Fernandinho era essa besta-fera sagrada do futebol gremista, que sempre puxava contra-ataques velozes e, nas horas decisivas, estava lá quando mais precisávamos. Fernandinho ganhará uma aura lendária por três lances em que fez exatamente isso com a camisa do Grêmio: o quarto e o quinto gols do Grenal dos 5x0, em que aniquilou a zaga colorada em contragolpes ferozes, um em que ele próprio botou para dentro e o outro no famoso gol contra de Réver. E, evidentemente, ganhará essa aura também pelo primeiro gol da final em Lanús.


São três lances característicos, marcantes, em jogos eternos – e, ao mesmo tempo, lances muito raros na passagem de Fernandinho por aqui. Mas eles bastam: com o tempo, vão ser somados a outros momentos menores, mas que contribuirão para dizer que Fernandinho era assim mesmo, como, por exemplo, o Grenal do Gauchão deste ano, em que entrou no fim e empatou o jogo em uma falha de Danilo Fernandes. Não é de hoje que Fernandinho faz arte em jogos do tipo e compila um DVD cada vez maior de lances poderosos em jogos de peso: pelo Galo, em fins de 2013, ele acertou um enorme golaço para vencer um clássico contra o Cruzeiro aos 41 minutos do 2º tempo.


Grêmio Oficial
Grêmio Oficial

Em Lanús, uma corrida de Fernandinho para a vida inteira


Vocês vão ver: Fernandinho vai se tornar algo tão diferente do que realmente foi que, no futuro, será feita inclusive uma conexão entre o Grenal dos 5x0 e o Tri da Libertadores, e ninguém vai lembrar que o homem foi emprestado pelo Grêmio em 2016, que voltou sem que a torcida quisesse no início de 2017. De fato, a memória das pessoas é tão ruim que ainda vai ter quem conte sobre como Fernandinho foi importante na campanha do Penta, mesmo sem estar lá – e aí entra uma curiosidade engraçada pois, como a foto oficial do time campeão da Copa do Brasil foi tirada só na temporada seguinte, Fernandinho aparece entre os pentacampeões. Enquanto nomes como Walace, que de fato participaram do título, já não estão ali.


Fernandinho nunca foi tudo o que gostaríamos que tivesse sido. Mas, no momento em que menos esperávamos, ele foi ainda maior do que achávamos que fosse capaz. Poderia ter feito mil jogos ruins e tudo estaria perdoado pela arrancada de Lanús e o canhotaço certeiro nas redes de Andrada. Aílton marcou o golaço em 1996 e todas as críticas se tornaram um rodapé na história. Fernandinho será parecido, mas ele tem até mais momentos memoráveis do que aquele gol na Argentina. O homem das arrancadas aniquiladoras. Mesmo que tenham sido só três.


Gremistas, bem-vindos a um mundo em que Fernandinho será lendário.