Por que o Grêmio tem Foot-Ball (e não Football) no nome?

Maurício Brum
Maurício Brum

O escudo antigo do Grêmio, ainda reproduzido em camisetas retrô, destacava a peculiaridade do nosso nome: Foot-Ball com hífen. Apenas em 1963 o "Grêmio" passou a ocupar lugar de destaque no distintivo


Para os gremistas mais radicais, e nesse caso eu me considero um deles, uma das coisas pequenas mais irritantes que ocorre ao se referirem ao nosso time é falarem do “Grêmio FPA” – como se o nome do clube fosse, pois, Grêmio Football Porto Alegrense. Talvez esse termo fosse preferível atualmente, mas definitivamente não é a denominação oficial gremista, e está bem claro já no nosso escudo, que abaixo do nome popular do time ainda ostenta a sigla “FBPA”. Porque o Grêmio, lá quando foi fundado em 1903, decidiu por utilizar (e manter para sempre) a grafia Foot-Ball, que inclusive foi o destaque de seu escudo por seis décadas. Usamos a grafia “errada”, dirão alguns. Mas a surpresa, para quem olha desde o século XXI e conhece o padrão atual, é que ela não está errada.


Reprodução
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O Coritiba tem "Foot Ball", separado, no nome - mas não na sigla


De fato, o Grêmio nem é o único clube a ter adotado essa denominação no futebol brasileiro. Das equipes grandes do nosso país, um exemplo notável é o Santos, que em 1912 surgiu nomeado oficialmente Santos Foot-Ball Club – e só mais tarde traduziu sua nomenclatura, que hoje é “Futebol Clube” mesmo, em português. Um que ainda mantém a grafia gremista, embora sem o hífen, é o Coritiba, fundado em 1909, cujo nome completo é Coritiba Foot Ball Club. O Coxa, porém, renegou o uso de uma sigla semelhante à nossa e se identifica no escudo como “CFC”, mesmo que no caso deles as palavras foot e ball sejam totalmente separadas. Por outro lado, o primeiro time a usar o termo “futebol” no nome, o Fluminense, desde 1902 escreve Football tudo junto.


A presença de outros clubes de foot-ball (separado) é particularmente frequente no Peru, onde vários times contam com a sigla FBC em vez de FC. Atualmente, quem está mais em evidência é o Melgar de Arequipa, recém-eliminado na pré-Libertadores, cujo nome completo é Foot Ball Club Melgar, e foi fundado em 1915. Em nível mundial, o mais famoso parceiro de grafia do Grêmio, no passado, foi o Barcelona, que nasceu em 1899 como Foot-Ball Club Barcelona, mas desde então catalanizou seu nome para “Futbol Club”.


Agora, nada disso explica a coexistência de duas grafias, nem justifica qual delas é mais correta. Como mencionei acima, nenhuma delas é errada – e o fato de termos duas escritas para football tem a ver com a própria forma como as línguas evoluem. A verdade é que a expressão é muito anterior às regras modernas do jogo, vem de séculos imemoriais em que qualquer multidão com uma bola e alguns chutes podia ser considerada futebol, e grande parte dessas variantes parecia uma mescla dos atualmente bem delimitados rugby football (o rúgbi) e football association (o nosso futebol). De todo modo, por juntar duas palavras já existentes (e numa época anterior à padronização dos idiomas através do ensino público e da imprensa), não havia um consenso sobre como unir “pé” e “bola” em uma palavra só.


Assim, os registros naturalmente divergem. O Spelling Dictionary, and Expositor of the English Language, de 1788, fala do termo como “Football” 75 anos antes da padronização do esporte. Por outro lado, essa gravura francesa reproduzida no livro do centenário da Fifa, datada de cerca de 1750, refere-se a um dos antecessores do jogo moderno como Foot-Ball. Ainda em meados do século XIX é possível encontrar referências à escrita hifenizada, como nesse texto publicado em um hebdomadário de Nova York em 1842. O que parece claro é que, com o tempo, a junção de palavras acabaria se tornando mais facilmente vista como uma expressão nova e sustentada por si só, portanto sem precisar do tracinho separando o pé da bola. O “football” se tornaria o padrão moderno, mas mesmo nas primeiras décadas do século XX haveria times sendo fundados com a escrita que passou a ser considerada mais arcaica, incluindo o nosso Grêmio, o mais antigo do Brasil com essa grafia. Como quase tudo era importado naqueles tempos, desde as bolas e os materiais e até os próprios fundadores dos clubes (em muitos casos, britânicos), o uso era uma questão de preferência pessoal e, até, da forma mais usual na região de onde a pessoa ou os livros de regras saíram.


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Atual escudo do Sheffield FC, clube amador que disputa a 7ª divisão inglesa, considerado a agremiação mais antiga ainda em existência. Eles usam "football" mesmo


O que nos dizem os clubes de futebol sobre a grafia? Hoje, praticamente todos os clubes ingleses – considerada a pátria-mãe do futebol moderno, por ter padronizado as regras do jogo em 1863 – se nomeiam como “football”. Desde o Sheffield Football Club, comumente considerado o clube mais antigo do mundo em atividade (fundado em 1857), até a própria Football Association, a FA, que estabeleceu as regras modernas do esporte e ainda rege o futebol inglês. Existe, no entanto, um porém: hoje, apesar da fama do Sheffield, sabe-se que já existiam clubes anteriores a ele com “futebol” no nome. O registro mais antigo conhecido de uma agremiação assim nomeada é uma equipe de Edimburgo, formada em 1824, que não poderia ter um nome mais simples: chamava-se, tão-somente, Foot-Ball Club.


O Foot-Ball Club era realmente um clube, bem diferente dos “times” atuais: uma associação de pessoas que, a cada verão, se reuniam para jogar futebol entre si (e não com outras equipes, que sequer existiam) – provavelmente disputavam uma variante daquelas mais parecidas com o rúgbi do que o nosso jogo, mas as regras seguidas pelos escoceses primordiais são desconhecidas hoje. Até onde os registros permanecem, o clube “original” de Edimburgo continuou se encontrando até cerca de 1841, quando a papelada mencionando o pessoal desaparece dos Arquivos Nacionais da Escócia. Os jogos podiam contar com até quarenta pessoas em campo. Em 2008, para buscar resgatar o legado do mais velho clube de futebol conhecido, um grupo de aficionados de Edimburgo refundou um Foot-Ball Club na cidade.


Ou seja: o Grêmio mantém em seu nome uma relíquia de tempos idos do futebol, um resquício de algo já desaparecido na maneira de nomear o nosso esporte. Embora o Fluminense seja, de fato e de direito, o clube mais antigo do país a utilizar “futebol” (football) em seu nome, é o Grêmio quem – sem saber e com oito décadas de distância – prestou homenagem ao mais antigo clube da história do esporte. Em Porto Alegre, o Foot-Ball permanece vivo.